Print Friendly, PDF & Email

ANO B
23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 23º Domingo do Tempo Comum

A liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum fala-nos de um Deus comprometido com a vida e a felicidade do homem, continuamente apostado em renovar, em transformar, em recriar o homem, de modo a fazê-lo atingir a vida plena do Homem Novo.
Na primeira leitura, um profeta da época do exílio na Babilónia garante aos exilados, afogados na dor e no desespero, que Jahwéh está prestes a vir ao encontro do seu Povo para o libertar e para o conduzir à sua terra. Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria, o profeta representa essa vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer a Judá.
No Evangelho, Jesus, cumprindo o mandato que o Pai Lhe confiou, abre os ouvidos e solta a língua de um surdo-mudo… No gesto de Jesus, revela-se esse Deus que não Se conforma quando o homem se fecha no egoísmo e na auto-suficiência, rejeitando o amor, a partilha, a comunhão. O encontro com Cristo leva o homem a sair do seu isolamento e a estabelecer laços familiares com Deus e com todos os irmãos, sem excepção.
A segunda leitura dirige-se àqueles que acolheram a proposta de Jesus e se comprometeram a segui-l’O no caminho do amor, da partilha, da doação. Convida-os a não discriminar ou marginalizar qualquer irmão e a acolher com especial bondade os pequenos e os pobres.
LEITURA I – Is 35,4-7a

Leitura do Livro de Isaías

Dizei aos corações perturbados:
«Tende coragem, não temais.
Aí está o vosso Deus;
vem para fazer justiça e dar a recompensa;
Ele próprio vem salvar-nos».
Então se abrirão os olhos dos cegos
e se desimpedirão os ouvidos dos surdos.
Então o coxo saltará como um veado
e a língua do mudo cantará de alegria.
As águas brotarão no deserto
e as torrentes na aridez da planície;
a terra seca transformar-se-á em lago
e a terra árida em nascentes de água.

AMBIENTE

Os capítulos 34-35 do Livro de Isaías constituem aquilo que habitualmente se chama “pequeno apocalipse de Isaías” (para distinguir do “grande apocalipse de Isaías”, que aparece nos capítulos 24-27). Descrevem os últimos combates travados por Jahwéh contra as nações (particularmente contra Edom) e a vitória definitiva do Povo de Deus sobre os inimigos. Estes dois capítulos parecem poder ser relacionados com os capítulos 40-55 do Livro de Isaías (cujo autor é esse Deutero-Isaías que actuou na Babilónia entre os exilados, na fase final do Exílio). Porque razão estes dois capítulos se apresentam separados do seu “ambiente natural” (Is 40-55)? Provavelmente, foram atraídos pelas peças escatológicas soltas de Is 28-33, e especialmente pelo capítulo 33.
O autor destes textos escreve na fase final do exílio do Povo de Deus na Babilónia (à volta do ano 550 a.C.). A intenção do profeta é consolar os exilados, desanimados, frustrados e mergulhados no desespero, porque a libertação tarda e parece que Deus os abandonou (uma temática que será desenvolvida e aprofundada nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías). Depois de apresentar o julgamento de Deus (cf. Is 34,1-4) e o castigo de Edom (cf. Is 34,5-15), o autor descreve, por contraste, a alegria do Povo de Deus porque a libertação chegou e a transformação extraordinária do deserto sírio, pelo qual vão passar os israelitas libertados, que retornam do Exílio.

MENSAGEM

O Povo de Deus, exilado na Babilónia, está paralisado pelo desespero. Mostra-se abatido e incapaz de sair, por si só, da sua triste situação. Não tem perspectivas de futuro e não vê qualquer razão para ter esperança.
O profeta dirige-se então aos exilados e anuncia-lhes a iminência da libertação. O tom geral é de alegria – uma alegria que envolverá a natureza e as pessoas, porque o Senhor Se apresta para salvar Judá do cativeiro e para abrir uma estrada no deserto, a fim de que o seu Povo possa retornar em triunfo a Jerusalém.
Apesar das aparências, Deus não esqueceu o seu Povo. Judá deve recobrar ânimo e preparar-se para acolher o Senhor. O próprio Jahwéh irá realizar a libertação; Ele fará justiça e recompensará o seu Povo por todos os sofrimentos suportados no tempo do cativeiro (vers. 4).
O resultado da iniciativa salvadora e libertadora de Deus traduzir-se-á no despertar do Povo, paralisado e desanimado, para uma vida nova. O encontro com o Deus libertador e salvador transformará o Povo, dar-lhe-á de novo a liberdade, a alegria, a coragem para enfrentar o caminho, a vida em abundância. Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria (vers. 5-6), o profeta representa essa vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer a Judá.
Por outro lado, o dom de Deus manifestar-se-á na própria natureza. O deserto desolado e estéril, que os exilados terão de atravessar na caminhada de regresso à sua terra, transformar-se-á numa terra fértil, com água em abundância e onde o Povo não terá dificuldade em saciar a sua fome e a sua sede. A abundância de água no deserto, de que o profeta fala, é outra imagem para mostrar a vontade de Deus em cumular o seu Povo de vida plena e abundante.
A marcha do Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade será um novo êxodo, onde se repetirão as maravilhas operadas pelo Deus libertador aquando do primeiro êxodo; no entanto, este segundo êxodo será ainda mais grandioso, quanto à manifestação e à acção de Deus. Será uma peregrinação festiva, uma procissão solene, feita na alegria e na festa.
Qual o papel do Povo em tudo isto? Judá deve recobrar ânimo e acolher, com fé, com coragem, com confiança, os dons de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

• Para os optimistas, o nosso tempo é um tempo de grandes realizações, de grandes descobertas, em que se abre todo um mundo de possibilidades ao homem; para os pessimistas, o nosso tempo é um tempo de sobreaquecimento do planeta, de subida do nível do mar, de destruição da camada do ozono, de eliminação das florestas, de risco de holocausto nuclear… Para uns e para outros, é um tempo de desafios, de interpelações, de procura, de risco… Como é que nós nos relacionamos com este mundo? Vemo-lo com os olhos da esperança, ou com os óculos negros do desespero?

• Os crentes não podem esquecer que “Deus está aí”: a sua intervenção faz com que o deserto se revista de vida e que na planície árida do desespero brote a flor da esperança. Aos cegos, que caminham pela vida às apalpadelas e que têm dificuldade em descobrir o rumo e o sentido para a sua existência, Deus irá oferecer a luz que lhes indica o caminho seguro para a realização e para a felicidade; aos surdos, fechados no seu egoísmo e na sua auto-suficiência, Deus irá desimpedir os ouvidos para que escutem os gritos de sofrimento dos pobres e para que se comprometam na transformação do mundo; aos coxos, que não conseguem caminhar livremente e estão presos por cadeias de opressão, de injustiça, de pecado, Deus vai oferecer a liberdade; aos mudos, cuja língua está paralisada pelo medo, pelo comodismo, pela preguiça, pela passividade, Deus vai convocá-los e enviá-los como mensageiros da justiça, do amor e da paz. É com a certeza da presença salvadora e amorosa de Deus e com a convicção de que Ele não nos deixará abandonados nas mãos das forças da morte que somos convidados a caminhar pela vida e a enfrentar a história.

• O profeta é o homem que rema contra a maré… Quando todos cruzam os braços e se afundam no desespero, o profeta é capaz de olhar para o futuro com os olhos de Deus e ver, para lá do horizonte do sol poente, um amanhã novo. Ele vai então gritar aos quatro ventos a esperança, fazer com que o desespero se transforme em alegria e que o imobilismo se transforme em luta empenhada por um mundo melhor. É este testemunho de esperança que procuramos dar?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)

Refrão 1: Ó minha alma, louva o Senhor.

Refrão 2: Aleluia.

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente;
o teu Deus, ó Sião,
é rei por todas as gerações.
LEITURA II – Tiago 2,1-5

Leitura da Epístola de São Tiago

Meus irmãos:
A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo
não deve admitir acepção de pessoas.
Pode acontecer que na vossa assembleia
entre um homem bem vestido e com anéis de ouro
e entre também um pobre e mal vestido;
talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais:
«Tu, senta-te aqui em bom lugar»,
e ao pobre: «Tu, fica aí de pé»,
ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés».
Não estareis a estabelecer distinções entre vós
e a tornar-vos juízes com maus critérios?
Escutai, meus caríssimos irmãos:
Não escolheu Deus os pobres deste mundo
para serem ricos na fé
e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?

AMBIENTE

Continuamos hoje a leitura dessa Carta de Tiago, enviada “às doze tribos que vivem na Diáspora” (Tg 1,1). A expressão indica que os destinatários da missiva são, em primeiro lugar, cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria, o Egipto ou a Ásia Menor; mas a carta serve também para todos os crentes, de todas as épocas, de todas as raças e de todas as latitudes. O objectivo fundamental do autor é exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos herdados do judaísmo através dos ensinamentos de Cristo.
O nosso texto pertence à segunda parte da carta (cf. Tg 2,1-26). Aí, o autor trata dois temas fundamentais: a fé concretiza-se no amor ao próximo, sem qualquer tipo de discriminação ou de acepção de pessoas (cf. Tg 2,1-13); a fé expressa-se, não através de ritos formais ou de palavras ocas, mas através de acções concretas em favor do homem (cf. Tg 2,14-26). No geral, este capítulo convida os crentes a assumir uma fé operativa, que se traduz num compromisso social e comunitário.

MENSAGEM

Jesus não fez qualquer acepção de pessoas, mas a todos acolheu e a todos amou igualmente (mesmo os pobres, os “últimos”, os marginalizados, os pecadores, os doentes). Quem aderiu a Jesus Cristo e procura, com coerência, segui-l’O, tem de assumir os mesmos valores; por isso, não pode marginalizar ninguém ou aceitar qualquer sistema que crie discriminação (vers. 1).
Depois da afirmação geral, o autor da carta apresenta exemplos concretos: a comunidade cristã não pode acolher e tratar de forma diferente o rico e o pobre, aquele que se apresenta bem vestido e aquele que se apresenta mal vestido, aquele que é conhecido e famoso e aquele que é humilde e passa despercebido (vers. 2-3). Na comunidade cristã, todos são iguais e dignos de consideração e de respeito, ainda que desempenhem funções diferentes e serviços diversos. Para os seguidores de Jesus, a acepção de pessoas por razões ligadas à riqueza, ao poder, à fama, à posição social, é um esquema perverso, absolutamente incompatível com a fé em Cristo (vers. 4).
O nosso texto termina com uma pergunta retórica que parece afirmar a preferência de Deus pelos “pobres deste mundo”, escolhidos “pare serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam” (vers. 5). Os “pobres deste mundo” são, mais do que uma categoria sociológica, uma categoria religiosa… A expressão designa, na linguagem bíblica, os humildes, os débeis, os pacíficos, aqueles que se apresentam diante de Deus numa atitude de simplicidade, despidos de qualquer atitude de orgulho, de auto-suficiência, de preconceitos; são aqueles que, com humildade e disponibilidade, aceitam os dons de Deus e acolhem as suas propostas com alegria e gratidão.
Porque é que Deus os prefere? Em primeiro lugar, porque são os que mais necessitam de ser libertados e salvos; em segundo lugar, porque são os mais disponíveis para acolher o dom do reino. Não é que o reino de Deus seja uma opção de classe e que os ricos e poderosos não possam, à partida, ter acesso ao reino; mas os ricos, os poderosos, os instalados, com o coração cheio de orgulho e de auto-suficiência, não estão disponíveis para acolher a novidade revolucionária e libertadora do reino… São os “pobres”, na sua simplicidade, humildade e despojamento, na sua ânsia de libertação, que estão preparados para acolher o dom de Deus que se torna presente em Jesus e nos seu projecto.

ACTUALIZAÇÃO

• O cristão é, antes de mais, alguém que aderiu a Jesus Cristo, que assumiu os valores que Ele veio propor e que procura concretizar, dia a dia, essa proposta de vida que Ele veio fazer. Ora, Jesus Cristo nunca discriminou nem nunca marginalizou ninguém; sentou-se à mesa com os desclassificados, acolheu os doentes, estendeu a mão aos leprosos, chamou um publicano para fazer parte do seu grupo, teve gestos de bondade e de misericórdia para com os pecadores, disse que os pobres eram os filhos queridos de Deus, amou aqueles que a sociedade religiosa do tempo considerava amaldiçoados e condenados… A comunidade cristã é hoje, no meio do mundo, o rosto de Cristo para os homens; por isso, não faz sentido qualquer acepção de pessoas na comunidade cristã. Naturalmente, isto é uma evidência que ninguém contesta… Mas, na prática, todos são acolhidos na nossa comunidade cristã com respeito e amor? Tratamos com a mesma delicadeza e com o mesmo respeito quem é rico e quem é pobre, quem tem uma posição social relevante e quem a não tem, quem tem um título universitário e quem é analfabeto, quem tem um comportamento religiosamente correcto e quem tem um estilo de vida que não se coaduna com as nossas perspectivas, quem se dá bem com o padre e quem tem uma atitude crítica diante de certas opções dos responsáveis da comunidade? Não esqueçamos: a comunidade cristã é chamada a testemunhar o amor, a bondade, a misericórdia, a tolerância de Cristo para com todos os irmãos, sem excepção.

• O problema da discriminação e da marginalização das pessoas põe-se também – e talvez com maior acuidade – nos contactos que estabelecemos fora da comunidade cristã. Encontramos todos os dias no nosso círculo de relações, no nosso universo profissional, no nosso prédio, talvez até na nossa família, pessoas com quem não nos identificamos, de quem não gostamos, a quem não entendemos… É difícil, então, acolhê-las, aceitá-las, entender as suas características e as suas falhas, tratá-las com bondade, com compreensão, com tolerância, com amor. No entanto, nós, os seguidores de Jesus, somos testemunhas dos valores do Evangelho vinte e quatro horas por dia, em qualquer espaço e em qualquer ambiente… A fraternidade, o amor, a misericórdia, a tolerância que Cristo nos propõe têm de informar cada passo da nossa existência e derramar-se sobre aqueles que encontramos em cada instante, mesmo se são de outra raça, se têm outra cultura, se frequentam ambientes diversos, se não concordam com as nossas ideias, se têm uma forma diferente de encarar a vida.

• O nosso texto revela-nos que Deus prefere os pobres, os humildes, os simples. Isto não quer dizer, contudo, que Deus tenha uma opção de classe e que privilegie uns em detrimento de outros… Deus oferece o seu amor, a sua graça e a sua vida a todos; contudo, uns acolhem os seus dons e outros não… O que é decisivo, na perspectiva de Deus, é a disponibilidade para acolher a sua proposta e os seus dons. O nosso texto convida-nos a despir-nos do orgulho, da auto-suficiência, dos preconceitos, para acolher com humildade e simplicidade os dons de Deus.
ALELUIA – cf. Mt 4,23

Aleluia. Aleluia.

Jesus pregava o Evangelho do reino
e curava todas as enfermidades entre o povo.
EVANGELHO – Mc 7,31-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

AMBIENTE

Na fase final da “etapa da Galileia”, multiplicam-se as reacções negativas contra Jesus e contra o seu projecto, apesar do rasto de vida nova que Ele vai deixando pelas aldeias e cidades por onde passa. As últimas discussões com os fariseus e com doutores da Lei a propósito de questões legais e da “tradição dos antigos” (cf. Mc 7,1-23) são uma espécie de gota de água que faz Jesus abandonar o território judeu e refugiar-Se em território pagão.
É nesse contexto que Marcos fala de uma viagem pela Fenícia, que leva Jesus a passar pelos territórios de Tiro e de Sídon – cidades da faixa costeira oriental do mar Mediterrâneo, no actual Líbano (cf. Mc 7,24). No regresso dessa incursão pela Fenícia, Jesus teria dado uma longa volta pelo território pagão da Decápole (cf. Mc 7,31). A Decápole (“dez cidades”) era o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar uma liga de dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos, no ano 63 a.C.. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não estavam sujeitas às leis judaicas. As cidades que integravam a Decápole (bem como os territórios circundantes a cada uma dessas cidades) estavam sob a administração do legado romano da Síria. Eram território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.
É nesse ambiente geográfico e humano que o episódio da cura do surdo-mudo nos vai situar. O gesto de Jesus de curar o surdo-mudo deve ser visto como mais um passo no anúncio desse projecto que Jesus vai propondo por toda a Galileia: o projecto do Reino de Deus.

MENSAGEM

Num lugar não identificado da região da Decápole, Jesus encontrou-Se com um surdo-mudo. As pessoas que trouxeram o surdo-mudo suplicaram a Jesus “que impusesse as mãos sobre Ele” (vers. 32). Na sequência Marcos descreve, com grande abundância de pormenores (alguns bem estranhos), como Jesus curou o doente e lhe deu a possibilidade de comunicar.
Contudo, depois de ler a narração deste episódio, ficamos com a sensação de que Marcos quer muito mais do que contar uma simples cura de um surdo-mudo… A descrição de Marcos, enriquecida com um número significativo de elementos simbólicos, é uma catequese sobre a missão de Jesus e sobre o papel que Ele desenvolve no sentido de fazer nascer um Homem Novo.
Vejamos, de forma esquemática, os elementos principais dessa catequese que Marcos apresenta:

1. No centro da cena está Jesus e o surdo-mudo (literalmente, “um surdo que tinha também um problema na fala”). Se a linguagem é um meio privilegiado de comunicar, de estabelecer relação, o surdo-mudo é um homem que tem dificuldade em estabelecer laços, em partilhar, em dialogar, em comunicar. Por outro lado, num universo religioso que considera as enfermidades físicas como consequência do pecado, o surdo-mudo é, de forma notória, um “impuro”, um pecador e um maldito. Finalmente, o surdo-mudo vive no território pagão da Decápole: é provavelmente um desses pagãos que a teologia judaica considerava à margem da salvação.
Na catequese de Marcos, este surdo-mudo representa todos aqueles que vivem fechados no seu mundo, na sua pobre auto-suficiência, de ouvidos fechados às propostas de Deus e de coração fechado à relação com os outros homens. Representa também aqueles que a teologia oficial considerava pecadores e malditos, incapazes de estabelecer uma relação verdadeira com Deus, de escutar a Palavra de Deus e de viver de forma coerente com os desafios de Deus. Representa ainda esses “pagãos” que os judeus desprezavam e que consideravam completamente alheados dos caminhos da salvação.

2. O encontro com Jesus transforma radicalmente a vida desse surdo-mudo. Jesus abre-lhe os ouvidos e solta-lhe a língua (vers. 35), tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunhão. Na história deste surdo-mudo, Marcos representa a missão de Jesus, que veio para abrir os ouvidos e os corações dos homens, quer à Palavra e às propostas de Deus, quer à relação e ao diálogo com os outros homens. O episódio lembra-nos imediatamente o anúncio de Isaías na primeira leitura: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-vos. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria” (Is 35,4-6). Jesus é efectivamente o Deus que veio ao encontro dos homens, a fim de os libertar das cadeias do egoísmo, do comodismo, da auto-suficiência, dos preconceitos religiosos que impedem a relação, o diálogo, a comunhão com Deus e com os irmãos.

3. Aparentemente, não é o surdo-mudo que tem a iniciativa de se encontrar com Jesus (“trouxeram-Lhe um surdo que mal podia falar”; “suplicaram-Lhe que lhe impusesse as mãos sobre ele” – vers. 32). O surdo-mudo, instalado e acomodado a essa vida sem relação, não sente grande necessidade de abrir as janelas do seu coração para o encontro e para a comunhão com Deus e com os irmãos. É preciso que alguém o traga, que o apresente a Jesus, que o empurre para essa vida nova de amor e de comunhão. É esse o papel da comunidade cristã… Os que já descobriram Jesus, que se deixaram transformar pela sua Palavra, que aceitaram segui-l’O, devem dar testemunho dessa experiência e desafiar outros irmãos para o encontro libertador com Jesus.

4. A sós com o surdo-mudo, Jesus realiza gestos significativos: mete-lhe os dedos nos ouvidos, faz saliva e toca-lhe com ela a língua (vers. 33). Tocar com o dedo significava transmitir poder; a saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus que transformou o barro inerte do primeiro homem num ser dotado de vida divina – cf. Gn 2,7). Assim, Jesus transmitiu ao surdo-mudo a sua própria energia vital, dotando-o da capacidade de ser um Homem Novo, aberto à comunhão com Deus e à relação com os outros homens.

5. O gesto de Jesus de levantar os olhos ao céu (vers. 34) deve ser entendido como um gesto de invocação de Deus. Para Jesus, os grandes momentos de decisão e de testemunho são sempre antecedidos de um diálogo com o Pai. Dessa forma, torna-se evidente a ligação estreita entre Jesus e o Pai, entre a acção que Jesus cumpre no meio dos homens e os projectos do Pai. Os gestos de Jesus no sentido de dar vida ao homem, de o libertar do seu fechamento e da sua auto-suficiência, de o abrir à relação, são gestos que têm o aval do Pai e que se inserem no projecto salvador do Pai.

6. De acordo com Marcos, Jesus teria pronunciado a palavra “effathá” (“abre-te”), quando abriu os ouvidos e desatou a língua do surdo-mudo. Não se trata de uma fórmula mágica, com especiais virtudes curativas… É um convite ao homem fechado no seu mundo pessoal a abrir o coração à vida nova da relação com Deus e com os irmãos. É um convite ao surdo-mudo a sair do seu fechamento, do seu comodismo, do seu egoísmo, da sua instalação, para fazer da sua vida uma história de comunhão com Deus e de partilha com os irmãos. O processo de transformação do surdo-mudo em Homem Novo não é um processo em que só Jesus age e onde o homem assume uma atitude de passividade; mas é um processo que exige o compromisso activo e livre do homem. Jesus faz as propostas, lança desafios, oferece o seu Espírito que transforma e renova o coração do homem; mas o homem tem de acolher a proposta, optar por Jesus e abrir o coração aos desafios de Deus.

7. No final do relato da cura do surdo-mudo, as testemunhas do acontecimento dizem a propósito de Jesus: “tudo o que Ele faz é admirável” (vers. 37). A expressão parece ser um eco de Gn 1,31 (“Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa”). Ao enlaçar este relato com o relato da criação do homem, Marcos está a dar-nos a chave de leitura para entender a obra de Jesus: a acção de Jesus no sentido de abrir o coração dos homens à comunhão com Deus e ao amor dos irmãos é uma nova criação. Dessa acção nasce um Homem Novo, uma nova humanidade. Esse Homem Novo é a “admirável” criação de Deus, o homem na plenitude das suas potencialidades, criado para a vida eterna e verdadeira.

ACTUALIZAÇÃO

• O Evangelho deste domingo garante-nos, uma vez mais, que o Deus em quem acreditamos é um Deus comprometido connosco, continuamente apostado em renovar o homem, em transformá-lo, em recriá-lo, em fazê-lo chegar à vida plena do Homem Novo. Este Deus que abre os ouvidos dos surdos e solta a língua dos mudos é um Deus cheio de amor, que não abandona os homens à sua sorte nem os deixa adormecer em esquemas de comodismo e de instalação; mas, a cada instante, vem ao seu encontro, desafia-os a ir mais além, convida-os a atingir a plenitude das suas possibilidades e das suas potencialidades. Não esqueçamos esta realidade: na nossa viagem pela vida, não caminhamos sozinhos, arrastando sem objectivo a nossa pequenez, a nossa miséria, a nossa debilidade; mas ao longo de todo o nosso percurso pela história, o nosso Deus vai ao nosso lado, apontando-nos, com amor, os caminhos que nos conduzem à felicidade e à vida verdadeira.

• O surdo-mudo, incapaz de escutar a Palavra de Deus, representa esses homens que vivem fechados aos projectos e aos desafios de Deus, ocupados em construir a sua vida de acordo com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, que não precisam de Deus nem das suas propostas. O homem do nosso tempo já nem gasta tempo a negar Deus; limita-se a ignorá-l’O, surdo aos seus desafios e às suas indicações. O que é que as propostas de Deus significam para mim? Dou ouvidos aos apelos e desafios de Deus, ou aos valores e propostas que o mundo me apresenta? Quando tenho que fazer opções, o que é que conta: as propostas de Deus ou as propostas do mundo?

• O surdo-mudo representa também aqueles que não se preocupam em comunicar, em partilhar a vida, em dialogar, em deixar-se interpelar pelos outros… Define a atitude de quem não precisa dos irmãos para nada, de quem vive instalado nas suas certezas e nos seus preconceitos, convencido de que é dono absoluto da verdade. Define a atitude daquele que não tem tempo nem disponibilidade para o irmão; define a atitude de quem não é tolerante, de quem não consegue compreender os erros e as falhas dos outros e não sabe perdoar. Uma vida de “surdez” é uma vida vazia, estéril, triste, egoísta, fechada, sem amor. Não é nesse caminho que encontramos a nossa realização e a nossa felicidade…

• O surdo-mudo representa ainda aqueles que se fecham no egoísmo e no comodismo, indiferentes aos apelos do mundo e dos irmãos. Somos surdos quando escutamos os gritos dos injustiçados e lavamos as nossas mãos; somos surdos quando toleramos estruturas que geram injustiça, miséria, sofrimento e morte; somos surdos quando pactuamos com valores que tornam o homem mais escravo e mais dependente; somos surdos quando encolhemos os ombros, indiferentes, face à guerra, à fome, à injustiça, à doença, ao analfabetismo; somos surdos quando temos vergonha de testemunhar os valores em que acreditamos; somos surdos quando nos demitimos das nossas responsabilidades e deixamos que sejam os outros a comprometer-se e a arriscar; somos surdos quando calamos a nossa revolta por medo, cobardia ou calculismo; somos surdos quando nos resignamos a vegetar no nosso sofá cómodo, sem nos empenharmos na construção de um mundo novo… Uma vida comodamente instalada nesta “surdez” descomprometida é uma vida que vale a pena ser vivida?

• A missão de Cristo consistiu precisamente em abrir os olhos aos cegos e desatar a língua dos mudos… Ele veio abrir-nos à relação com Deus, ao amor dos irmãos, ao compromisso com o mundo. Quem adere a Cristo e quer segui-l’O no caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos, não pode resignar-se a viver fechado a Deus e ao mundo. O encontro com Cristo tira-nos da mediocridade e desperta-nos para o compromisso, para o empenho, para o testemunho. Leva-nos a sair do nosso isolamento e a estabelecer laços familiares com Deus e com todos os nossos irmãos, sem excepção.

• O surdo-mudo da nossa história foi trazido e apresentado a Jesus por outras pessoas. O pormenor lembra-nos o nosso papel no sentido de fazer a ponte entre os irmãos que vivem prisioneiros da “surdez” e a proposta libertadora de Jesus Cristo. Não podemos ficar de braços cruzados quando algum dos nossos irmãos se instala em esquemas de fechamento, de egoísmo, de auto-suficiência; mas, com o nosso testemunho de vida, temos de lhe apresentar essa proposta libertadora que Cristo quer oferecer a todos os homens.

• Antes de curar o surdo-mudo, Jesus “ergueu os olhos ao céu”. O gesto de Jesus recorda-nos que é preciso manter sempre, no meio da acção, a referência a Deus. É necessário dialogarmos continuamente com Deus para descobrir os seus projectos, para perceber as suas propostas, para ser fiel aos seus planos; é preciso tomar continuamente consciência de que é Deus que age no mundo através dos nossos gestos; é preciso que toda a nossa acção encontre em Deus a sua razão última: se isso não acontecer, rapidamente a nossa acção perde todo o sentido.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 23º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. BILHETE DE EVANGELHO.
Marcos é um verdadeiro encenador. Ele faz a decoração em pleno território de Decápole, habitado pelos pagãos. Coloca em primeiro plano da cena duas personagens: Jesus e o surdo-mudo, enquanto a multidão fica em segundo plano. O actor principal, Jesus, só pronuncia uma palavra: “Effata!” (Abre-te) e faz três gestos: mete o dedo nos ouvidos do doente, toca-lhe a língua com a sua própria saliva e levanta os olhos para o céu. A segunda personagem deixa-se levar, pois põe-se a falar correctamente. Jesus vira-se para a multidão, pedindo-lhe para não dizer nada do que se tinha passado. A cena termina com um coro unânime: “Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem”. E nós, onde nos vamos situar? Nós somos este surdo-mudo doente, recusando por vezes escutar a Palavra de Deus e não ousando anunciá-la. Então, Jesus dirige-Se a nós, faz-nos sinal, pede-nos para nos abrirmos nós mesmos, como tinha pedido ao paralítico para se levantar. Cada Eucaristia é uma passagem de Cristo ressuscitado: deixemo-nos tocar por Ele para nos abrirmos…

3. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Effata!” “Abre-te!” Esta palavra tão simples é na realidade muito perigosa. Como diz o dicionário, abrir é fazer com que o que está fechado não o fique mais. Óbvio, mas cheio de consequências! Os Judeus de Jerusalém tinham consciência de serem o Povo eleito por Deus, posto aparte pelos outros povos. Nem pensar misturar-se aos outros povos, aos pagãos, aos estrangeiros! E eis que Jesus faz o contrário. Sai das fronteiras de Israel, vai junto dos pagãos, fazendo mesmo milagres em seu favor. É o mundo ao contrário! Ele não teme mesmo ter contacto físico com este surdo-mudo, impuro aos olhos dos Judeus fiéis. Antes de abrir os ouvidos do infeliz, é Jesus que Se abre aos estrangeiros, tornando-Se um impuro aos olhos dos Judeus. Evidentemente, é muito arriscado, ainda hoje, abrir a sua porta, mas primeiro o seu coração aos estrangeiros. Porque é preciso olhá-los ultrapassando os preconceitos, aceitando outras maneiras de pensar e de viver. Aquele que segue Jesus não pode esquivar-se à interrogação: E eu, onde estou quanto à minha abertura de coração? Jesus quer sempre vir até mim, tocar os meus ouvidos para que eu ouça melhor o grito dos meus irmãos em angústia, tocar os meus olhos para que procure encontrar o olhar de Deus sobre os outros. A um visitante que lhe perguntava para que servia um concílio, João XXIII respondeu: ” o concílio é a janela aberta. Ou ainda, é tirar a poeira e varrer a casa, e pôr flores e abrir a porta dizendo a todos: Vinde e vede, aqui é a casa do bom Deus!” Na manhã de Páscoa, já houve uma abertura, quando a pedra que fechava o túmulo de Jesus foi retirada. E antes ainda, tinha havido já uma abertura, quando o soldado romano tinha aberto o lado de Jesus com um golpe de lança. Estas duas aberturas nunca foram fechadas. Participando em cada Eucaristia, vimos beber a água e o sangue que brotam para que o grito de Jesus seja eficaz também em nós: “Effata!” “Abre-te!”

4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Um tempo de meditação… Para nos impregnarmos daquilo que o Senhor deseja para nós, tomemos o tempo para rezar e meditar estas simples palavras de Cristo: “Abre-te”. O Salmo 145 pode ajudar-nos. Por este tempo de meditação, ou com a ajuda de um acompanhador espiritual, procuremos descobrir o que impede ainda em nós a verdadeira libertação oferecida pelo Senhor.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org – www.dehonianos.org