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O regresso ao trabalho e às actividades normais pode constituir uma excelente oportunidade para nos questionarmos pelo sentido da nossa vida e de tudo aquilo que fazemos. Na verdade, uma orientação clara e definida ajuda muito no caminho e é uma condição indispensável para uma vida boa, ao tornar-nos menos susceptíveis de viver ao sabor do vento e das modas. Diz-se demasiadas vezes que faltam valores à nossa sociedade, o que – ainda que deva ser bem matizado – é bastante preocupante.

Neste contexto, existe o risco de a actual sensibilidade ecológica converter-se numa moda passageira e numa tendência comercial. É um perigo real, que tem na sua origem uma ausência de motivações profundas. Por isso, a solução passa pela assimilação de um conjunto de valores, que indique uma direcção e marque um horizonte para o nosso compromisso ecológico.

Uma vez mais, o papa Francisco mostra-se consciente desta realidade e oferece-nos um conjunto de perguntas que não podemos deixar passar, sem lhes dar a nossa resposta. São essas interrogações que há que deixar ecoar lenta e serenamente no nosso coração, pois exigem uma resposta amadurecida e consistente. Respostas de microondas são insuficientes; aqui pede-se uma resposta de forno a lenha: “que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras questões muito directas: com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto interpela o sentido da nossa passagem por esta terra” (LS 160).

Pensar que recebemos este mundo e que estamos chamados a entregá-lo em melhor estado aos que vierem depois de nós dá muita potência ao nosso empenho. Ter a consciência que atentar contra o planeta é, a longo prazo, uma tentativa de suicídio pode ajudar-nos a crescer no respeito pela criação. Nunca perder de vista que este mundo aguarda ansiosamente a libertação final pode ser o combustível para não baixar os braços na defesa da natureza.

José Domingos Ferreira, scj