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O papa Francisco dedica o segundo capítulo de Laudato si’ à apresentação do Evangelho da Criação. O primeiro subtítulo – a luz que a fé oferece – indica que o Cristianismo tem um contributo a oferecer ao debate ecológico que hoje nos toca enfrentar.

As «convicções de fé» não são uma realidade abstracta ou etérea nem algo meramente interior ou até intimista. Elas sempre se materializam em atitudes concretas e visíveis. Por isso, as diversas religiões não devem ser postas à margem neste processo, porque isso seria perder a imensa riqueza que elas podem «oferecer para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento humano» (LS 62). Não podemos esquecer que, dada a complexidade da crise ecológica, «as soluções não podem vir de uma única maneira de interpretar e transformar a realidade», mas torna-se «necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade». Com efeito, se realmente estamos empenhados em reparar tudo o que se encontra danificado, «então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser descurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria» (LS 63).

Este apelo do papa argentino situa-nos, desde logo, perante um horizonte interdisciplinar, intercultural e inter-religioso, que casa muito bem com uma categoria que atravessa todo o documento. Com efeito, o diálogo é o melhor antídoto contra essa atitude de fechamento em si próprio, que leva a considerar-se senhor das únicas soluções para os problemas ecológicos. O caminho que Francisco propõe quer incluir todos os actores e intervenientes, porque as dimensões do problema que hoje enfrentamos não aceitam respostas parciais nem permitem que se discriminem saberes e contributos. Trata-se, então, de um desafio para toda a humanidade, em toda a sua diversidade, e não para um pequeno grupo de apaixonados pelo tema.

As convicções de fé «oferecem aos cristãos motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis». Com estas palavras, parece afirmar-se que os crentes não só não podem ficar de fora desta preocupação pelo cuidado da natureza, como estão altamente dotados e preparados para essa missão. No entanto, isso só é possível se, de facto, os crentes têm consciência dos «compromissos ecológicos que brotam das suas convicções», pois a fé cristã inclui uma «tarefa no seio da criação e uns deveres em relação à natureza e ao Criador» (LS 64). Trata-se de uma fé encarnada, humanizadora e também mundana, já que, em vez de se alhear da natureza e do ser humano, visa um compromisso mais profundo com eles.

Em suma, estas «motivações altas» dão-nos força e potência para assumir um envolvimento mais intenso e arrojado no cuidado pela criação. Talvez por isso os cristãos são para o mundo o que a alma é para o corpo…

José Domingos Ferreira, scj