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O Pe. Dehon “reconhece, na recusa do amor de Cristo, a causa mais profunda desta miséria humana” (Cst. 4) e espera que todos aqueles que conhecem, vivem e partilham o carisma que ele cultivou na Igreja “sejam profetas do amor e servidores da reconciliação” (Cst. 7).

É provável que tenhamos escutado muitas vezes estas palavras, mas talvez nunca nos tenhamos dado conta da dimensão ecológica que elas mesmas contêm: afinal de contas, esta crise ambiental, que estamos a viver e que nos afecta cada vez mais, não é uma das grandes misérias humanas do nosso tempo? A recusa do amor de Jesus não constitui o fundamento último desta crise ambiental? Quando reconheceremos que ser servidores da reconciliação tem uma dimensão fortemente ecológica, na medida em que estamos chamados a cuidar e curar a relação com a criação?

O exemplo de Jesus é a este propósito bastante iluminador: “o Senhor podia convidar os outros a estar atentos à beleza que existe no mundo, porque Ele próprio vivia em contacto permanente com a natureza e prestava-lhe uma atenção cheia de carinho e admiração. Quando percorria os quatro cantos da sua terra, detinha-Se a contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava os discípulos a individuarem, nas coisas, uma mensagem divina: «Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa» (Jo 4, 35). «O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a menor de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore» (Mt 13, 31-32)” (LS 97).

Estas palavras do papa Francisco põem de relevo que “Jesus vivia em plena harmonia com a criação, com grande maravilha dos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Mt 8, 27)” (LS 98). A nós toca-nos reconhecer e compreender que esta proposta continua válida e actual, pois não perdeu a sua frescura original. Por isso, celebrar a Solenidade do Coração de Jesus – tão cara a toda a Família Dehoniana – passa por recordar e desejar novamente esta harmonia talvez já um pouco distante de nós. Ao mesmo tempo, reclama o nosso empenho em resolver todas as dissonâncias que afectam a nossa relação com a criação.

Celebrar o Jesus manso e humilde de coração remete necessariamente para uma forma concreta de relacionar-se com a criação de Deus, uma maneira que não tem nada a ver com essa atitude de depredação e exploração que tem conduzido à fragilização e deterioro da nossa casa comum.

José Domingos Ferreira, scj