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Construir a casa comum tem de ser algo mais que a simples consciência de pertença à aldeia global. Não chega o mercado livre. Não basta a feliz possibilidade de podermos viajar de um país para o outro, sem burocracias nem impedimentos escusados. Não é suficiente dominarmos uma língua (ou várias), que nos permita falar com a maioria das pessoas deste mundo. Não se refere a essa multidão de amigos dos mais diversos continentes, com quem contactamos pelas redes sociais.

Um dos efeitos da globalização foi a imposição de um estilo hegemónico de vida, que tem vindo a uniformizar a realidade. Estamos agora a aperceber-nos que esta uniformização tem acarretado um empobrecimento cultural e humano e uma perda social, como se alguém tivesse sido obrigado a vestir uma peça de roupa que não só não lhe serve, como sobretudo não lhe é a mais adequada. A sabedoria popular lá vai recordando que «cada terra com o seu uso e cada roca com o seu fuso», mas agora parece que se quer impor a todos uma via única. Neste aspecto, faz todo o sentido a advertência do papa Francisco, quando diz que «o desaparecimento de uma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento de uma espécie animal ou vegetal. A imposição de um estilo hegemónico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas» (LS 145).

A construção da casa comum só é real e efectiva, se permitir que todo o ser humano – sem exclusões nem discriminações – tenha direito a um espaço acolhedor e sustentável, onde possa viver, desenvolver-se e criar de forma livre e original. Com efeito, a própria noção de casa remete para esse lugar onde nos sentimos à vontade, onde deixamos cair as máscaras, onde respiramos uma atmosfera de confiança.

A casa comum será sempre uma realidade poliédrica, onde o diferente, o pequeno e o frágil são acolhidos e reconhecidos na sua especificidade e no seu contributo peculiar ao todo. A casa comum será o âmbito da admiração ante a diversidade, do cuidado do frágil e da estima face à alteridade. Teilhard de Chardin afirmava no seu tempo que «a nossa pobre e insignificante existência forma um bloco com a imensidade de tudo o que existe e de tudo o que chega a ser». É importante pensarmos nisto, pois, com o Vaticano II, recuperamos a consciência de Povo de Deus, mas talvez não nos tenhamos ainda dado conta que um povo está associado a uma terra, que é precisamente a sua casa.

Por isso, «é fundamental buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (LS 139).

José Domingos Ferreira, scj