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Conferência Episcopal Portuguesa – Nota Pastoral

A propósito dos 50 anos da CNIR e da FNIRF

1. Completaram-se em 2004, cinquenta anos de aprovação, pela Santa Sé, da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos Masculinos (CNIR) e da Federação Nacional dos Institutos Religiosos Femininos (FNIRF).
Muitas e válidas iniciativas no plano nacional foram realizadas em comum, por estes organismos, ao longo destes cinquenta anos. Está em início uma nova estrutura que, respeitando a autonomia de cada um, permitirá actualizar e viabilizar, no contexto actual, a maior colaboração de ambos, tanto no campo da formação, como do apostolado que lhes é próprio e, também, da sua participação na pastoral orgânica das Igrejas Particulares ou diocesanas, em Portugal ou em terras de missão.

O jubileu, agora celebrado, dá-nos motivo e ocasião para esta Nota Pastoral que, esperamos, possa chegar a todas as comunidades cristãs. Deste modo, procuramos ajudá-las, para que tenham uma maior compreensão e apreço pela vida religiosa e se sintam estimuladas a colaborar na promoção das vocações de consagração. É também uma mensagem amiga, expressão de gratidão e de estima, dirigida a todos os religiosos e religiosas de Portugal, que queremos estimular sempre mais na sua fidelidade e na disponibilidade para com Deus e os irmãos.

2. A vida consagrada, não se esgotando nos religiosos e religiosas, pois que há também leigos consagrados em institutos seculares e noutras formas canónicas aprovadas pela Igreja, tem no passado e no presente a sua expressão mais alargada e conhecida nos religiosos, homens e mulheres chamados por Deus e que respondem ao convite do seguimento radical de Jesus Cristo, os quais, professando publicamente os conselhos evangélicos, imitam a Sua vida, procuram viver em cada dia o espírito das bem-aventuranças, constituem comunidades fraternas, e testemunham, em ordem à construção plena do Reino, o absoluto de Deus e a transitoriedade das coisas criadas.
As suas vidas têm, assim, uma especial dimensão carismática e profética que vem enriquecendo a Igreja ao longo da história e multiplicando, entre os seus membros, o número de santos canonizados. O testemunho de vida dos religiosos e das religiosas constitui um apelo à santidade que anima o crescimento espiritual de muitos leigos cristãos, tantas vezes anónimos.
O serviço que os religiosos e as religiosas prestam à Igreja, na diversidade dos seus carismas fundacionais e na pluralidade e complementaridade dos seus ministérios, bem como no testemunho visível das suas vidas, constitui uma riqueza imensa para bem do povo de Deus e até da comunidade humana.
Alguns exemplos menos positivos, que também os houve na história, não ofuscam nem minimizam em nada a riqueza imensa deste dom de Deus à Igreja, que é a vida religiosa.
3. Queremos, neste momento e por este modo, recordar e assinalar, com gratidão e admiração, o que a Igreja em Portugal deve aos religiosos e religiosas, pelo seu trabalho e zelo em tempos passados e, actualmente, pela sua acção diária, percorrendo, ontem e hoje, os caminhos do Evangelho vivo que Jesus proclamou.
São muitos os marcos históricos a assinalar, durante séculos, de modo eloquente, a vida e a acção dos religiosos e religiosas nos seus conventos e comunidades, espalhados de norte a sul. Para além do apostolado realizado, que deixou raízes em muitas gerações e por todo o país, temos ainda a recordá-los a arte das suas igrejas, a riqueza das suas bibliotecas, a tradição da sua cultura e zelo, a sua acção transformadora junto das populações rurais. A espoliação dos bens, casas e obras de arte, que atingiu a Igreja em Portugal nos séculos XIX e XX, que enriqueceu o Estado de imóveis monumentais e encheu os seus museus de valiosas obras de arte, atingiu, de um modo especial, as ordens e congregações religiosas.
Muitos destes bens aí estão, para que gente sem preconceitos possa reconhecer a sua origem e sentido e usufruir da riqueza de um património histórico e artístico, que não se entenderá senão na sua referência à acção pastoral e cultural da Igreja nas dioceses e instituições religiosas.
Muitos bispos portugueses do passado foram religiosos e terão sempre lugar na história de Portugal, com reconhecido mérito, pelo testemunho da sua santidade, cultura e acção eficaz na evangelização e na promoção das populações que eles serviram.

4. Actualmente encontramos os religiosos e religiosas activos no campo da cultura, educação, comunicação social, saúde, no cuidado dos mais pobres, na entrega abnegada a crianças e adolescentes, na dedicação, sem limites, aos idosos das instituições, na entrega diária a doentes do foro psíquico, no acolhimento privilegiado aos jovens de todas as condições, na assistência e promoção das famílias mais vulneráveis e fragilizadas.
Encontramos religiosos e religiosas por esse mundo além, no acolhimento e ajuda espiritual e fraterna aos emigrantes portugueses e, também, aos imigrantes que, rapidamente e nem sempre nas melhores condições, vieram até nós e se espalharam por todas as nossas dioceses. Encontramo-los activos em inúmeras paróquias, nas catequeses, na animação litúrgica das assembleias dominicais, na formação dos agentes pastorais, na atenção dialogante aos dinamismos sociais hoje mais determinantes. Encontramo-los ainda, com o ardor que lhes vem de um grande amor dedicado à causa missionária, a partir, cada ano, para os mais variados campos de missão, e a animar projectos que entusiasmem e comprometam jovens e adultos, a responder, de diversos modos, à urgência da evangelização.
É na pluralidade das situações humanas e sociais mais preocupantes e marcadas pelas maiores necessidades, que surgiram e continuam a surgir os carismas fundacionais, mostrando o cuidado e o carinho de Deus para com todos. Estes carismas são abraçados e seguidos depois, ao longo dos tempos, por jovens e adultos que se sentem chamados a seguir Jesus na peugada dos seus fundadores, e estimulados, diariamente, pelo seu generoso testemunho, a responder a iguais situações e carências humanas, sociais e eclesiais.

5. Uma palavra especial nos merecem, neste momento, os religiosos e religiosas das ordens contemplativas. Menos conhecidos e, porventura, menos compreendidos por alguns sectores das nossas comunidades que nunca tiveram e não têm a graça de conhecer de perto a sua missão, eles constituem uma parte muito rica e enriquecedora da vida da Igreja em Portugal.
O seu testemunho põe em realce a vocação contemplativa que existe em cada um de nós, filhos de Deus. Muitas vezes essa vocação fica abafada pelos cuidados da vida, que reduzem tudo à dimensão humana e temporal e dificultam a procura desse essencial pelo qual os nossos corações anseiam. Os religiosos de vida
contemplativa constituem, neste contexto, uma poderosa interpelação e um testemunho profético.
Pelo seu testemunho de dedicação e fidelidade à sua vocação, vai-se tornando mais sensível e estimulante para muitos cristãos o reconhecimento do absoluto de Deus, que preenche as suas vidas de consagrados e que cada dia os compromete mais na adoração, no louvor, na acção de graças e na contínua intercessão, em espírito de doação.
Todos os Bispos se sentem felizes quando têm, nas suas dioceses, conventos ou mosteiros de contemplativos. Aí se encontram homens ou mulheres, interiormente livres, que se sentiram chamados a ser os permanentes da oração, as sentinelas atentas aos apelos de Deus e das pessoas, os voluntários, alegres e serenos, de uma doação cheia do maior sentido que pode ter a vida de um crente, quando recebeu a graça de poder tratar a Deus como Pai e de se entregar, incondicionalmente, ao Seu desígnio salvador.

6. Nas ordens e congregações religiosas, tal como nas nossas dioceses, nota-se alguma crise em relação a novas vocações. Não faltam jovens nas nossas comunidades cristãs e têm-se multiplicado os cuidados pastorais em seu favor. Vemos muitos deles empenhados em movimentos apostólicos, participando em actividades de formação, espiritual e teológica, ligados, como voluntários, a projectos de solidariedade, respondendo, nas suas comunidades, aos apelos que lhes são feitos. Mas são ainda poucos os que abrem o coração aos apelos de Deus para irem mais além, quer na vida sacerdotal, quer na vida religiosa ou noutra forma de consagração.
Tem de se intensificar o esforço pastoral em relação ao aprofundamento da fé e à vivência evangélica por parte dos jovens. Temos de fazer propostas directas de seguimento radical de Jesus Cristo aos que já as podem entender e convidá-los a responder com sinceridade e liberdade interior. Há que acreditar que a mediação da Igreja, expressa através dos seus primeiros responsáveis, dos seus membros activos e das suas comunidades, é indispensável para o bom êxito da pastoral vocacional. Cada dia há que estimular nos cristãos e nas comunidades o apreço pela vida sacerdotal e pela vida consagrada, e reflectir, serenamente, com os jovens cristãos das paróquias e grupos juvenis, as diversas propostas, para o presente e para o futuro, que Deus lhes pode fazer, para seu bem, para bem da Igreja e para o serviço dedicado aos outros.

7. Não obstante as suas muitas tarefas e trabalhos apostólicos, os religiosos e as religiosas, como muito a propósito nos recorda Paulo VI (Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, nº 69), têm no seu ser de consagrados um meio privilegiado de evangelização. Nas paróquias onde existem comunidades religiosas disponham-se os seus membros, mais do que a substituir os leigos nos trabalhos apostólicos, a colaborar na sua formação e a estimulá-los, pelo testemunho da sua vida pessoal e comunitária, a prosseguirem nos caminhos da santidade, na disponibilidade para o serviço aos irmãos e na vivência comunitária.
Muitos desafios, de cariz evangelizador, se põem cada dia à Igreja, quer a partir da sociedade e das pessoas concretas, quer das suas próprias comunidades. A resposta a todos estes desafios deve ser dada por todos, de modo orgânico, na unidade e riqueza dos múltiplos carismas e na complementariedade dos ministérios e serviços que a comunidade realiza.
Esta doutrina tem sido desenvolvida e apresentada em muitos documentos do magistério eclesiástico destinados a toda a Igreja, os quais, muitas vezes, não chegam sequer ao conhecimento dos cristãos e mesmo de muitos dos mais responsáveis. Por isso mesmo somos, de quando em quando, surpreendidos pela ignorância em relação à vida religiosa.

8. Os religiosos, como os demais consagrados, constituem uma parte importante e com especial significado da comunidade eclesial, a cuja comunhão preside o Bispo Diocesano. Por força do carisma episcopal, do poder sagrado que recebeu na ordenação e se traduz num serviço contínuo e indispensável ao Povo de Deus e, ainda, do encargo de conduzir, em nome de Cristo, a Igreja particular que lhe foi confiada, o Bispo é o princípio e o fundamento visível da unidade e da comunhão da sua Diocese. Por isso, a unidade efectiva e o mútuo afecto entre o Bispo e todos os consagrados da sua Diocese, constituem uma referência eclesial indispensável. Trata-se de um sinal visível que sublinha a verdade e o sentido da comunhão eclesial e é, ao mesmo tempo, um forte apelo à maior inserção de todos os religiosos e religiosas, pela riqueza dos dons próprios e de harmonia com a sua condição, no serviço diversificado da Igreja Diocesana, como Igreja de Cristo, localizada num território concreto. É um apelo que a Igreja vai realizando nas diversas comunidades e instituições, e se concretiza, no dia a dia, na fidelidade ao Evangelho do amor, traduzido nos planos e programas pastorais, a que nenhum comprometido com Deus e com o Seu projecto de salvação pode ficar indiferente.
Tudo isto faz parte dos objectivos da CNIR e da FNIRF e, nesse sentido, nos conduz o magistério da Igreja com as suas orientações e com as normas canónicas que regulam a vida da Igreja e a sua acção no mundo.

9. A constituição e a aprovação da CNIR e da FNIRF pela Sé Apostólica contou, desde a primeira hora, com a colaboração, discreta mas eficiente, de alguns religiosos e também de alguns bispos portugueses.
Saudamos, fraternalmente, os religiosos e religiosas de Portugal e seus Superiores Maiores, pedimos para todos os Institutos e seus membros as maiores bênçãos de Deus e desejamos que cresça sempre mais a nossa mútua colaboração, para que o Povo de Deus se sinta sempre estimulado por aqueles que Deus chamou e consagrou para o Seu serviço e dilatação do Seu Reino.

Lisboa, 25 de Dezembro de 2004