Print Friendly, PDF & Email

1. A Conferência Episcopal Portuguesa acaba de publicar um importante documento, intitulado Bases para a Pastoral Vocacional. Logo na introdução, aparecem algumas perspectivas de fundo: a Pastoral das Vocações é uma prioridade pastoral, que precisa de ser renovada e dinamizada; todos os agentes implicados neste sector devem nele empenhar-se, pela oração e pelo compromisso; o documento incide particularmente nas vocações ao sacerdócio ministerial e à vida de especial consagração e secular.

2. O primeiro capítulo traça um breve panorama da situação. Começa por apresentar algumas características da cultura actual. As mudanças culturais, nas suas sombras e luzes, são assumidas em atitude de discernimento crítico e de abertura à esperança. “A interpretação da situação, entrelaçada de ambivalências e contradições, obstáculos e aberturas, elementos negativos e de esperança, exige de todos nós um discernimento à luz do Evangelho vivo e pessoal de Jesus Cristo e com o dom do Espírito Santo. Trata-se da exigência permanente da Igreja em auscultar os sinais os tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, para que possa dar resposta às questões perenes sobre o sentido da vida, fundamentado em Jesus Cristo” (nº 10).

3. O segundo capítulo incide nos princípios da Pastoral Vocacional, organizados em duas alíneas: chamados à comunhão e chamados a anunciar o Evangelho da Esperança. A vocação acontece na pessoa, enquanto aberta ao mistério de Deus e disposta a seguir Cristo, ao serviço da Igreja. A Pastoral das Vocações insere-se na compreensão da Igreja como comunhão e missão, noção central no Concílio Vaticano II. Nesse sentido se enquadra a ousadia do anúncio do Evangelho da Esperança, num contexto sócio-cultural raramente aberto aos valores evangélicos.

4. O terceiro capítulo apresenta algumas orientações para a Pastoral Vocacional. Em primeiro lugar, as linhas de força da acção vocacional: é urgente fomentar uma cultura do chamamento; a responsabilidade é de toda a Igreja; a acção vocacional unifica a pastoral em geral; a Pastoral Vocacional é inseparável da Pastoral Juvenil; a oração pelas vocações é imprescindível; a dimensão interpelativa da liturgia deve ser incentivada; é necessário redescobrir o acompanhamento espiritual pessoal; há que viver a alegria da fidelidade à vocação; é urgente fomentar as experiências de voluntariado. Em segundo lugar, os desafios à Pastoral Vocacional: necessidade e urgência de uma estrutura global; promoção de uma nova cultura vocacional; exigência do “salto de qualidade” na pastoral vocacional.

5. O último capítulo aponta algumas estruturas pastorais, já existentes ou a serem criadas, a nível paroquial, diocesano e nacional. Como fundamento dessas estruturas, são retomadas algumas linhas de força da acção vocacional: deve ter presente a comunhão das diferentes vocações entre si e a preocupação por todas as vocações; deve promover formas para que o dinamismo vocacional se concretize nas Igrejas particulares; deve realizar-se de forma permanente, sistemática e programada.

6. A conclusão retoma o actual contexto cultural e eclesial em que se situa o problema das vocações, lançando alguns desafios: “É preciso transformar a cultura, recuperar os valores, reencontrar o interesse pelas grandes questões da vida, retomar o sentido do mistério e do transcendente, ousar sonhar e ter ideais, cuidar da qualidade evangélica da vida cristã. É uma questão de vida da fé, que diz respeito a todos os cristãos” (nº 39). E termina com uma exortação a todos os fiéis, aos presbíteros, diáconos e consagrados religiosos e seculares, às famílias, catequistas e professores cristãos, para que estejam atentos aos sinais dos tempos e abertos aos apelos de Deus, em atitude de oração, de seguimento de Cristo na Igreja, de resposta à missão.

Breve comentário

7. Em boa hora os nossos Bispos nos oferecem um projecto unificado para a Pastoral das Vocações. Este documento é ponto de chegada de todo um processo de reflexão sobre a Pastoral Vocacional em Portugal e ponto de partida pelos dinamismos que possa provocar na acção pastoral e na mudança de mentalidade nos fiéis, nas famílias, nas comunidades cristãs e nos agentes deste sector de pastoral. A perspectiva vocacional é um dinamismo presente em todas as acções pastorais da Igreja.

8. Num momento em que estamos quase a celebrar 40 anos de dois importantes documentos do Vaticano II (Lumen Gentium em 2004 e Gaudium Spes em 2005), saliento o facto de estas Bases possuírem uma boa fundamentação doutrinal na linha renovadora do Concílio: compreensão da Igreja como comunhão e missão; leitura e discernimento crítico da realidade e dos sinais dos tempos. Além disso, assumem as grandes orientações pastorais que o Papa João Paulo II indicou para a Igreja no terceiro milénio.

9. É de realçar a ousadia em propor novas estruturas, para além das existentes. A preocupação pelas vocações deve concretizar-se em todos os espaços eclesiais, como algo que a todos envolve e gera comunhão. Acentua-se a perspectiva do trabalho vocacional em conjunto, congregando esforços de todos os agentes envolvidos neste sector da pastoral. Trata-se de uma autêntica responsabilidade solidária pela Pastoral Vocacional.

10. É um documento aberto, isto é, deveria ser objecto de avaliação permanente e de revisão periódica. Assumindo a pedagogia de Jesus como modelo, os princípios doutrinais da acção vocacional são constantes. Mas a realidade pode exigir que as formas de os concretizar se actualizem, provocando mudanças nas estruturas pastorais. Só assim pode acontecer fidelidade criativa e atitude inovadora no seguimento de Jesus Cristo, cujo Evangelho da Esperança somos chamados a anunciar.

| Manuel Barbosa, scj |