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INTRODUÇÃO

1. A Família Dehoniana é constituída por um conjunto de diversas componentes (Religiosos SCJ, outros Consagrados e Leigos) que se inspiram no projecto espiritual do Padre Dehon.

Esta realidade é assumida pela Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus: “Conscientes que a espiritualidade do Padre Dehon não é apenas vivida pelos SCJ mas também por tantos homens e mulheres que vivem na dimensão de consagração ou laical, acolhemos com coração aberto a realidade da Família Dehoniana como uma graça que pode reforçar a nossa identidade e o sentido de pertença ao Instituto” (Carta Programática, nº 22).

 

2. Ao longo dos últimos anos, têm sido cada vez em maior número os movimentos, associações e outros organismos que têm surgido à volta da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus e do seu carisma. São jovens e adultos, homens e mulheres, leigos e consagrados, que desejam orientar as suas vidas pelos princípios e valores contidos na espiritualidade que nos legou o Padre Dehon.

Trata-se de um fenómeno universal, que se verifica hoje em muitos Institutos de Vida Consagrada. O Papa João Paulo II diz que “se iniciou um novo capítulo, rico de esperança, na história das relações entre as pessoas consagradas e o laicado” (VC 54), marcado por “novos caminhos de comunhão e de colaboração que merecem ser encorajados” (VC 55).

 

3. Foi na constatação desta realidade que surgiu a ideia da elaboração de uma “Carta Constitutiva da Família Dehoniana em Portugal”. Há um longo caminho a percorrer, mas é fundamental que haja um mínimo de institucionalização e organização. Este documento pretende ser o ponto de chegada de uma reflexão sobre a vivência de muitos anos, mas também um ponto de partida para aprofundar os laços de comunhão e de fraternidade que unem as diferentes componentes da Família Dehoniana. Procura lançar as bases para a organização e dinamização dos diferentes grupos, associações e organismos que formam a Família Dehoniana.

 

I – FAMÍLIA DEHONIANA: CARISMA E PROJECTO

 

4. Na origem e desenvolvimento da Família Dehoniana está a graça, o estímulo e a perspectiva cristológica e eclesiológica do Concílio Ecuménico Vaticano II, que apresenta a Igreja como Povo de Deus, povo peregrino e empenhado no mundo e na história, na comunhão da caridade de todos os seus membros: “Na Igreja-comunhão, os diversos estados de vida encontram-se de tal maneira interligados que são ordenados uns para os outros (…) Todos os estados de vida, tanto no seu conjunto como cada um deles em relação com os outros, estão ao serviço do crescimento da Igreja. São modalidades diversas que se unem profundamente no ‘mistério de comunhão’ da Igreja e que se coordenam dinamicamente na sua única missão” (ChLaici 55).

 

5. A partilha do mesmo projecto de vida evangélica do Padre Dehon e a participação da mesma herança fazem de nós uma Família, formada por diversas componentes que comungam de uma mesma espiritualidade, na vivência da própria vocação e da missão específica que são chamadas a desempenhar na Igreja e no mundo.

A Família Dehoniana é uma realidade viva e dinâmica, em permanente construção, centrada no carisma do Padre Dehon, que todos herdamos. Une-nos uma mesma espiritualidade e um pai espiritual comum, o Padre Dehon.

 

6. A Família Dehoniana tem em atenção a realidade sócio-eclesial portuguesa em que se insere. O clima social dominante é de liberdade e paz, de diálogo e participação. Cresceu o nível de vida económica, tornou-se mais fácil o acesso aos bens materiais. Por outro lado, acentuam-se situações de pobreza e de exclusão social.

Comungamos das grandes preocupações da Igreja em Portugal: assegurar ao país um desenvolvimento integral, ajudar a família a enfrentar as mudanças, defender a vida humana dos atentados contra a vida, dignificar o trabalho e os tempos livres e reavivar a matriz cristã da nossa cultura em evolução.

Como cristãos, procuramos cumprir na Igreja as exigências da justiça e da solidariedade, sobretudo amparando os mais pobres. Continuamos a responder aos desafios da sociedade, carente de formação e de ideais, e aos desafios da Igreja, no diálogo entre fé e cultura.

 

7. O carisma brota da vocação cristã, que é baptismal. O carisma que anima uma determinada família religiosa consiste na inspiração-intuição inicial do mistério de Cristo que constituiu a experiência de fé do Fundador, e a partir da qual ele respondeu às exigências pastorais da Igreja e aos desafios do seu tempo.

 

8. Entre os muitos carismas para a realização da salvação, o Espírito Santo suscitou na Igreja, por meio do Padre Dehon, o carisma dehoniano, que se exprime numa espiritualidade assente no “amor-oblação-reparação” e na consequente missão, que procura fazer com que o coração de Cristo transforme os corações humanos.

 

9. A elaboração desta Carta surge do reconhecimento desta vocação a que todos somos chamados, em qualquer estado em que nos encontremos, e assenta sobre alguns pressupostos que orientaram tanto a constituição da Família Dehoniana como a redacção do presente documento:

a) A Família Dehoniana é formada pela comunhão de diferentes vocações à volta do carisma que nos foi transmitido pelo Padre Dehon. Desta raiz comum nasceram as diversas vocações dehonianas: os religiosos SCJ, as religiosas, os leigos consagrados nos Institutos Seculares, os leigos consagrados e os leigos dehonianos.

b) As diferentes vocações que integram a Família Dehoniana inspiram-se no mesmo carisma e complementam-se à volta do mesmo projecto. Este projecto concretizase através de valores específicos comuns que encontram no Coração trespassado de Cristo o seu fundamento e o seu dinamismo.

c) O projecto dehoniano só chega à sua plenitude quando passa a ser vivido também pelos leigos. Participando desse projecto, são convidados a interpretá-lo, a partilhá-lo e a vivê-lo, inserindo-o na realidade da sua vida laical (família, profissão, paróquia e outros espaços).

d) O chamamento de Deus exige uma resposta idónea e constante. Daí a importância do discernimento e da formação inicial e permanente como redescoberta do compromisso baptismal e conhecimento aprofundado do carisma dehoniano.

e) A experiência da fé e a partilha do carisma dehoniano desenvolvem-se a nível pessoal, a nível de grupo e a nível da reflexão, diálogo e comunhão entre as diversas componentes da Família Dehoniana.

 

II – ELEMENTOS INSPIRADORES

10.  A espiritualidade dehoniana radica na experiência de fé do Padre Dehon. O Lado aberto e o Coração trespassado do Salvador constituem para o Padre Dehon a expressão mais evocadora de um amor cuja presença activa experimenta na sua vida (cf. Cst 2), em comunhão com toda a Igreja.

1. O Lado aberto do Senhor

11.  Fiéis ao caminho de Cristo

Cristo é o Senhor da vida, da criação, da Igreja (cf. Rom 2,5-11). Despojou-se voluntariamente, assumindo a condição humana até à morte e morte de cruz (Fil 2,511). A seu exemplo, a nossa vocação é buscar em tudo o reino de Deus com humildade, doação e perseverança: somos chamados a amar o Pai, fonte de todo o Amor, a amar o Filho, que por nós se entregou, a amar o Espírito derramado sobre nós e a amar a Igreja, corpo de Cristo.

 

12. Atraídos por Cristo

O Lado aberto do Crucificado é o sinal do amor que, na doação total de Si mesmo, recria o homem segundo Deus; é fonte de salvação, donde as pessoas hão-de haurir as águas vivas que jorrarão para a vida eterna (cf. Jo 4,14). Enquanto no Antigo Testamento o sangue dos animais ratificava a Aliança entre Deus e o seu povo (cf. Ex 24,5-8), a nova Aliança do Novo Testamento é ratificada com o sangue de Cristo. Quando a lança trespassou o seu coração, Cristo derramou o seu sangue pondo o selo em tudo (cf. Jo 19,34-37).

 

13. Identificados com Cristo

O Padre Dehon convida-nos a “procurar e a realizar, como único necessário, uma vida de união à oblação de Cristo” (Cst 26). É nesta oblação a Cristo e na identificação com o seu projecto de amor que encontramos o sentido da nossa vida e o significado da nossa missão: com Cristo e como Cristo, viver em efectiva solidariedade com todos os homens, dando particular atenção aos mais pobres e desfavorecidos da sociedade (cf. Cst 21.29).

 

14. Crucificados com Cristo

Como Cristo, somos convidados a dar a vida pelos irmãos, através da aceitação da cruz que pode muitas vezes trazer dor e sofrimento: “A vida reparadora será, por vezes, vivida na oferta dos sofrimentos suportados com paciência e abandono, mesmo na noite escura e na solidão, como eminente e misteriosa comunhão com os sofrimentos e com a morte de Cristo pela redenção do mundo” (Cst 24).A linguagem da cruz ajuda-nos a anunciar o sentido mais profundo do nosso peregrinar.

 

2. A comunhão eclesial

15. Unidos pelo Baptismo

Todos os baptizados fazem parte da única e mesma Igreja, Corpo Místico de Cristo. Todos são convocados pela Palavra: “Na Igreja fomos iniciados na Boa Nova de Jesus Cristo” (Cst 9). A comunhão eclesial realiza-se na união de um mesmo projecto de consagração baptismal.  

 

16. Na variedade de carismas

Na Igreja de Jesus Cristo, una, santa, católica e apostólica, cabem diversos carismas, frutos da acção do Espírito. A diversidade de carismas é uma riqueza para a unidade da Igreja e está ao serviço do bem comum.

17. Enviados em missão

Na sua Incarnação, Jesus solidariza-se com os homens: “Enviado na plenitude dos tempos, Cristo, em obediência ao Pai, prestou o seu serviço em prol das multidões” (Cst 10). Os discípulos de Jesus assumem esta mesma missão na comunhão da Igreja.

 

3. A experiência de fé do Padre Dehon

18. Amor, oblação e reparação

O amor, a oblação e a reparação são expressões fundamentais da espiritualidade dehoniana. Segundo o seu desígnio de amor, concebido antes da criação do mundo, o Pai enviou-nos e entregou-nos o seu Filho (cf. Cst 19). Cristo realiza a salvação, suscitando nos corações o amor para com o Pai e entre nós: amor que regenera e que é fonte de crescimento das pessoas e das comunidades humanas (cf. Cst 20). A vida de oblação suscitada nos nossos corações pelo amor gratuito do Senhor configura-nos à oblação d’Aquele que, por amor, se entregou totalmente ao Pai e aos homens (cf. Cst 35), pedindo-nos atitudes de disponibilidade, respeito total, compreensão e aceitação dos outros, contra toda a forma de egoísmo.

Entendemos a reparação como acolhimento do Espírito, resposta ao amor de Cristo por nós, comunhão no seu amor ao Pai e cooperação na sua obra redentora no coração do mundo (cf. Cst 23).

 

19. União ao amor de Cristo

No Coração aberto do Salvador, o Padre Dehon descobre todo o amor de Deus pela humanidade e vê surgir desse mesmo Coração o homem de coração novo (cf. Cst 3).

Através da sua solidariedade para com os homens, Jesus revela o amor de Deus e inaugura um mundo novo que encontrará a sua plena realização quando, por Jesus, Deus for tudo em todos (cf. Cst 10).

Seguindo o exemplo do Padre Dehon, somos convidados a uma adesão total e alegre à Pessoa de Jesus e ao seu amor, fazendo do seu caminho o nosso caminho (cf. Cst 12.14). Neste amor de Cristo encontraremos a certeza de alcançar a fraternidade humana e a força de lutar por ela (cf. Cst 18).

 

20. Superar a experiência do pecado

Atento aos problemas que afligem a humanidade, o Padre Dehon descobre que a causa mais profunda da miséria humana radica na recusa do amor de Cristo (cf. Cst 4). Procurando reparar estes problemas e “possuído pelo amor, que não é acolhido, o Padre Dehon quer corresponder-lhe com uma união íntima ao Coração de Cristo e com a instauração do seu Reino nas almas e na sociedade” (Cst 4).

Comprometidos com Cristo para reparar o pecado e a falta de amor na Igreja e no mundo, somos convidados a prestar com toda a nossa vida, nas orações, trabalhos, sofrimentos e alegrias, o culto de amor e reparação que o seu Coração deseja (cf. Cst 7), numa atitude de total abandono e oblação a Deus.

Como especificidade da nossa missão, no percurso que somos convidados a percorrer, é nosso ideal e missão ser “profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo” (Cst 7).

 

21. Fazer da vida uma oblação

A nossa vocação tem como ponto de referência a oblação que Jesus faz de toda a sua vida ao Pai para servir os irmãos e vê na Virgem Maria o modelo de disponibilidade na fé: “Nas palavras Ecce Venio, Ecce Ancilla encerram-se toda a nossa vocação, a nossa finalidade, o nosso dever, as nossas promessas” (Cst 6).

Tal como Cristo, também nós devemos oferecer a nossa vida como oblação ao Pai. Marcados pela fragilidade humana, é igualmente frágil aquilo que podemos oferecer a Deus. É importante que nos ofereçamos com Jesus Cristo: “A exemplo e por graça especial de Deus, somos chamados na Igreja a procurar e a realizar, como único necessário, a vida de união à oblação de Cristo” (Cst 26).

 

22. Profunda vida espiritual

A nossa resposta aos apelos que nos chegam do Coração de Cristo supõe e exige uma profunda vida interior (cf. Cst 16). A vida espiritual, que anima e compromete todos aqueles que descobrem a riqueza do Coração de Cristo, insere-nos num mundo “que se agita num imenso esforço de libertação de tudo quanto lesa a dignidade do homem ou ameaça a realização das suas mais profundas aspirações: a verdade, a justiça, o amor, a liberdade” (Cst 38). A nossa união com Cristo será vivida na disponibilidade e no amor particularmente pelos pequenos e pelos pobres (cf. Cst 18).

 

23. Eucaristia

A Eucaristia é o centro desta vida espiritual, porque nela o Coração de Cristo prolonga o dom de Si próprio ao Pai e aos homens. Neste sacramento somos chamados a acolher o Amor de Cristo e a oferecermo-nos com Ele ao Pai. É por isso que “toda a nossa vida cristã encontra a sua força e ponto culminante na Eucaristia” (cf. Cst 80).

 

24. Adoração

A adoração faz parte integrante da vida de todos aqueles que aceitam viver a espiritualidade dehoniana. Nela prolongamos o que celebramos na Eucaristia. Para o Padre Dehon, a adoração eucarística faz parte da missão dehoniana e constitui um autêntico serviço à Igreja (cf. Cst 31).

 

25. Palavra de Deus

A Palavra de Deus, escutada, reflectida e vivida, é parte fundamental da nossa vida espiritual. Quando o Pai nos quis falar, enviou-nos a Palavra, deu-nos o seu Filho. É por este caminho que somos chamados a descobrir a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração (cf. Cst 17).

 

26. Reconciliação

A Reconciliação é um dom de Deus expresso num encontro com o seu Amor misericordioso que nos regenera em criaturas novas. Sendo servidores da reconciliação com Deus e dos homens entre si, unimo-nos à obra de Cristo colaborando na construção de um mundo novo.

 

 

III – CRITÉRIOS DE PERTENÇA À FAMÍLIA DEHONIANA

 

27. A pertença à Família Dehoniana expressa-se numa adesão clara, vivida e reconhecida à espiritualidade dehoniana. São critérios essenciais para se pertencer à Família Dehoniana:

  • sentir-se chamado a viver a oblação ao Pai com Cristo e como Cristo;
  • compreender e viver a centralidade do mistério do Lado aberto e do Coração trespassado de Cristo;
  • reconhecer o Padre Dehon como testemunho e mestre de vida, vendo-o como “pai espiritual” do nosso próprio caminho na Igreja e usando a sua chave de leitura para a compreensão do mistério de Cristo;
  • optar pelo mesmo modo de ser do Padre Dehon, comprometendo-se em Igreja e colaborando nas necessidades eclesiais e sociais;
  • encarnar essa espiritualidade como empenho existencial na mesma missão que o Padre Dehon recebeu na Igreja, segundo o próprio estado de vida;
  • valorizar, na medida do possível, a recitação diária do Acto de Oblação e a participação na Adoração e na Eucaristia.

 

28. Na base destes critérios está o objectivo de toda a espiritualidade ou carisma: apresentar-se como um bom meio que cada cristão encontra para ser mais fiel a Jesus Cristo e continuar a sua mesma missão de Sacerdote, Profeta e Rei, à luz da vocação baptismal.

Assim, viver uma vida cristã segundo o carisma e a espiritualidade do Padre Dehon pode ser expresso por atitudes (contemplar, sentir, agir) e estilos (de coração, de vida, de obras).

 

29. Aos que se sentem chamados a pertencer à Família Dehoniana – individualmente ou em grupo – e se empenham em “viver em comunhão” o carisma do Padre Dehon, pede-se um prévio discernimento, com vista a um compromisso. É da responsabilidade de cada uma das componentes da Família Dehoniana acolher e acompanhar este processo de integração.

Como primeiros membros da Família Dehoniana, os Sacerdotes do Coração de Jesus prestam um serviço particular no discernimento da espiritualidade dehoniana.

 

 

IV – COMPONENTES DA FAMÍLIA DEHONIANA

30. Todos os que compõem a Família Dehoniana são chamados a uma releitura e a uma incarnação do carisma, segundo a especificidade da sua própria vocação, e a fazer frutificar o carisma, segundo as exigências da Igreja no mundo, em fidelidade dinâmica e espírito de comunhão.

 

 1. Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

31. Os Sacerdotes do Coração de Jesus, grupo fundacional que mais directamente vive a herança recebida do Padre Dehon, são os primeiros membros da Família Dehoniana, por vontade do Padre Dehon e por declaração da Igreja expressa quando foram aprovadas as suas Constituições. Prestam o serviço de guardar e garantir a fidelidade dinâmica na interpretação desse carisma e, por consequência, de reconhecer e aceitar as várias componentes da Família Dehoniana (cf. Carta Programática, nº 22-23).

Os religiosos SCJ emitem os votos de castidade, pobreza e obediência, acompanhados por um Acto de Oblação, segundo a espiritualidade do Padre Dehon, testemunhada na vida comunitária e na actividade pastoral.

 

 

2. Outros Institutos de Vida Consagrada

 

32. Institutos Religiosos

São religiosas que orientam a sua vida de consagração segundo o projecto dehoniano de vida evangélica de amor, oblação e reparação e reconhecem o Padre Dehon como “pai espiritual”.

Embora não estando presentes em Portugal, existem os seguintes Institutos Religiosos na Família Dehoniana: Soeurs Servantes e Religieuses do Coeur de Jésus (França), Missionary Sisters of the Sacred Heart (África do Sul), Sacra Famiglia (Congo), Fraternidade Mariana do Coração de Jesus (Brasil), Família Mariana do Sagrado Coração de Jesus.

 

33. Institutos Seculares

Os membros dos Institutos Seculares, segundo a natureza que lhes é própria, vivem a consagração e a secularidade, tentando transformar a realidade do mundo, mas dando-lhe as características próprias do projecto dehoniano: amor, oblação, reparação. Os membros destes Institutos, com a mediação dos fundadores, reconhecem que as raízes do seu carisma estão ligadas ao projecto evangélico do Padre Dehon (cf. Carta de Comunhão, nº 16).

a) A Companhia Missionária do Coração de Jesus (CMCJ) é um Instituto Secular de direito Pontificio, fundado por um religioso SCJ e que encontra na espiritualidade de amor e de oblação, o alimento da sua vida interior e da sua missão. Acentua de modo especial o amor e a comunhão, elementos chave do carisma do Padre Dehon. As misionárias desenvolvem a sua missão de amor e serviço na Igreja e no mundo mediante a sua vida de consagradas seculares, através da evangelização e da promoção humana.

b) As Missionárias do Amor Misericordioso do Coração de Jesus (MAMCJ) são pessoas consagradas que vivem no mundo para o conduzir a Cristo. Os seus membros seguem a espiritualidade reparadora enriquecida pela do próprio Instituto; por isso, sentem-se unidos espiritualmente à Família Dehoniana, que vive deste mesmo espírito reparador.

 

3. Leigos Dehonianos

 

34. Os Leigos Dehonianos são homens ou mulheres de qualquer idade ou condição social que, após oportuno discernimento, vivem o seu empenho baptismal e o seu compromisso laical sustentados pela espiritualidade do Padre Dehon. Reconhecem no carisma do Padre Dehon, aprovado pela Igreja, a referência da própria vida espiritual, aproximando-se de Cristo no mistério do seu Coração aberto e solidário e unindo-se à sua oblação reparadora como sinal de esperança e de comunhão fraterna.

 

35. A maior parte destes leigos conhece e assume o compromisso da vivência da espiritualidade dehoniana através dos Institutos de Vida Consagrada de carisma dehoniano ou de movimentos organizados à volta da espiritualidade dehoniana.

 

a) Os Familiares da Companhia Missionária do Coração de Jesus são fiéis leigos que, sem o compromisso dos votos, se sentem chamados por Deus a participar da espiritualidade e da missão da Companhia Missionária do Coração de Jesus.

b) Os Colaboradores das Missionárias do Amor Misericordioso do Coração de Jesus são pessoas que aderem ao Instituto, através de um compromisso que renovam anualmente. Esse compromisso consiste na consagração ao Amor Misericordioso através do voto de castidade, segundo o seu estado, e no Compromisso Apostólico. Eles sentem-se comprometidos a viver a mesma espiritualidade e a colaborar na mesma missão das MAMCJ.

c) A Juventude Dehoniana (JD) tem por objectivo suscitar nos jovens o discernimento da fé e o aprofundamento vocacional. É constituída por jovens, comprometidos com os valores da interioridade, disponibilidade, solidariedade, comunhão eclesial e sentido de missão. Os jovens dehonianos participam em encontros de formação sobre a espiritualidade dehoniana: retiros, cursos de animadores e férias missionárias, entre outros. Encontram-se inseridos em grupos juvenis que têm como ponto de referência os centros dehonianos de Pastoral Juvenil.

A revista A Folha dos Valentes é um importante subsídio para a pastoral dos jovens e um suporte significativo para manter mais estreita a relação entre eles e as outras componentes da Família Dehoniana.

 

d) A Associação dos Leigos Voluntários Dehonianos, designada por ALVD, pertencente à Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus, é uma associação privada voluntária, com reconhecimento eclesial e civil, sem fins lucrativos, que tem por finalidade principal o apoio humanitário e o desenvolvimento comunitário. A ALVD tem por objectivos mais específicos: intervir em situações de necessidade; cooperar, em regime de voluntariado, na formação humana, cultural e social nos países em desenvolvimento; contribuir para o aprofundamento do sentido da vida humana; implementar o espírito associativo. Todos os voluntários têm uma formação humana e espiritual, baseada na espiritualidade dehoniana.

e) O grupo Evangelizar em Comunhão com Cristo e com a Ecclesia (ECCE) tem como objectivo colocar Cristo no coração do mundo, ou seja, colocar o amor de Deus no coração de cada ser humano e no centro das sociedades e das famílias, como era o sonho do Padre Dehon. O seu boletim ECCE é uma proposta de oração, reflexão e compromisso.

 

f) Os grupos missionários, constituídos por leigos que descobriram o Amor do Coração de Jesus e querem que todas as pessoas O encontrem, são grupos de apoio aos missionários dehonianos. Reúnem-se mensalmente para rezar pelos missionários e pelas missões, procurando também, através de diversas iniciativas, angariar fundos para ajudar as missões. São animados pelos diversos boletins publicados pelas correspondentes comunidades religiosas dehonianas que fazem a animação missionária.

 

36. Há ainda muitos leigos e grupos que, embora não tendo a organização e o empenhamento dos grupos de leigos dehonianos anteriores, comungam da experiência espiritual recebida do Padre Dehon.

 

a) Benfeitores dos seminários e de outras obras da Congregação. Além de partilharem a vida e a espiritualidade dos dehonianos através da oração e da leitura de um boletim, reúnem-se anualmente para rezar, conviver e reflectir sobre os valores da espiritualidade dehoniana.

b) Associações de Pais dos seminários e colégios dehonianos. Procuram realizar diversos encontros e convívios, tanto para assinalar algumas datas mais significativas ou tratar de assuntos da vida interna, como para aprofundar o conhecimento da espiritualidade dehoniana.

c) Antigos Religiosos e Seminaristas Dehonianos. Os seminários promovem encontros anuais de antigos alunos, procurando fomentar o convívio e a vivência da espiritualidade dehoniana. Verifica-se que nos seminários há diversos alunos que são filhos de antigos seminaristas, o que revela a manutenção de uma boa relação com as famílias, permitindo assim a abertura de novos caminhos que levem mais jovens a comungar do espírito de missão e do carisma do Padre Dehon.

 

d) A abertura da espiritualidade dehoniana a todos os que dela querem comungar pode levar à criação de outros grupos em vários sectores da vida eclesial e social, tais como casais dehonianos, famílias dehonianas, leigos operários dehonianos.

 

37. Os Leigos consagrados dehonianos são aqueles que pertencendo a movimentos ou associações dehonianas se sentem chamados a uma vida de consagração a Deus e aos irmãos, dentro dos mesmos.

 

V – ORGANIZAÇÃO E LINHAS PROGRAMÁTICAS

 

1. Formação

 

38. Sendo a Família Dehoniana constituída por diversas componentes, há que ter presente um projecto de formação, antes de mais para os leigos, e momentos de formação em comum das diversas componentes dehonianas (cf. Carta Programática 23c).

 

39. A formação tende a fazer crescer harmonicamente a pessoa nos valores humanos e cristãos e na espiritualidade dehoniana, respeitando a identidade do grupo, a idade, a sensibilidade e a cultura (cf. ChLaici, nº 46.60).

 

40. A formação de base tem em conta a Revelação de Deus, a resposta da fé, a vida de oração pessoal, os sacramentos como sinais visíveis de Deus, a vida moral, a liturgia na comunidade cristã, a sensibilização para a actual doutrina social da Igreja, os valores da espiritualidade dehoniana, a comunhão que é preciso realizar como “Nós, Família Dehoniana” (cf. LDPV, nº 6-7).

 

41. O Leigo Dehoniano procura empenhar-se numa progressiva e constante formação, inicial e permanente, para acolher e traduzir o carisma em espiritualidade e missão, no mundo de hoje. Os religiosos SCJ e outros consagrados procurarão apoiar e acompanhar o Leigo Dehoniano no aprofundamento da fé cristã e da experiência de fé do Padre Dehon (cf. LDPV, nº 5).

 

42. Um percurso possível pode ter três fases, nas quais se inspirarão os diversos grupos de leigos: acolhimento; aprofundamento e formação nos seus diversos conteúdos; empenho, durante o qual o Leigo Dehoniano assume uma responsabilidade num estilo de vida coerente com o carisma dehoniano, inserido no contexto sócio-eclesial. Este compromisso pode ser assumido por uma declaração pública e pode ser renovado anualmente. As etapas mais significativas do percurso formativo devem ser marcadas por momentos de celebração que permitam chegar ao fim do caminho com uma consciência mais plena das coisas, dar testemunho e crescer como grupo na Família Dehoniana (cf. LDPV, nº 8).

 

43. A oração, a reflexão pessoal, os encontros de formação permanente, os espaços de referência (pessoas, comunidades, experiências) e o acompanhamento pessoal através do discernimento levam o Leigo Dehoniano a reconhecer a sua vocação, a desenvolver os seus dons e capacidades e a verificar a coerência da sua vida (cf. LDPV, nº 9).

 

44. Na elaboração de um programa de formação específica sobre a espiritualidade dehoniana, cada componente da Família Dehoniana tenha em conta os princípios definidos, construindo o seu projecto de formação com base na sua realidade, objectivos e necessidades.

 

45. É importante que se promova a formação de agentes que possam ser animadores da espiritualidade dehoniana.

 

 

2. Organização

 

46. As relações entre as diversas componentes da Família Dehoniana são vividas no espírito da comunhão, do apoio e da colaboração, acolhendo e respeitando os dons da diversidade e a respectiva autonomia de organização (cf. Carta de Comunhão, nº 21).

 

47. É oportuno criar meios e momentos de encontro e de comunhão, seja para os vários grupos de leigos dehonianos entre si, seja para as diversas componentes da Família Dehoniana, a nível local, nacional e internacional. Promova-se a participação em momentos de formação e de celebração, bem como a construção de possibilidades de colaboração na Igreja local e na Igreja universal (cf. Carta de Comunhão, nº 22).

 

48. A Assembleia de toda a Família Dehoniana realiza-se periodicamente para reflectir sobre assuntos de interesse comum.

 

49. A coordenação entre os vários grupos da Família Dehoniana será feita por um Conselho da Família Dehoniana (CFD), composto por um elemento de cada movimento ou grupo dehoniano. O CFD, presidido por um Coordenador Nacional, religioso nomeado pelo Superior Provincial, reunir-se-á, pelo menos, uma vez por ano.

 

50. O Secretariado Nacional da Família Dehoniana (SNFD), órgão executivo do CFD, é formado pelo Coordenador Nacional e por quatro membros eleitos pelo CFD: um Secretário, um Tesoureiro e dois Vogais.

 

51. Os Núcleos Regionais da Família Dehoniana nos Açores, Madeira, Lisboa, Porto, Algarve, Coimbra, Aveiro e noutros lugares funcionarão como espaços de encontro e partilha das diversas componentes da Família Dehoniana e dinamização da espiritualidade dehoniana. O SNFD constituirá Secretariados Regionais para promover e coordenar as iniciativas locais.

 

52. O Boletim da Família Dehoniana publica-se com a finalidade de promover a reflexão, estabelecer a ligação entre o que cada grupo vive e realiza e tornar possível a concretização de iniciativas comuns a nível nacional.

 

53. A Peregrinação Dehoniana Anual a Fátima no primeiro domingo de Junho é um momento privilegiado de partilha e de celebração da Família Dehoniana.

 

 

3. Aprovação e alterações

 

54. A Carta Constitutiva para a Família Dehoniana em Portugal é um documento aberto, que possibilita permanente discussão, revisão e adaptação às novas realidades. Por isso, em cada 5 anos, o CFD apresenta uma proposta de revisão do documento.

 

55. Cabe ao Superior Provincial da Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus a aprovação da Carta Constitutiva para a Família Dehoniana em Portugal e suas ulteriores alterações, sob proposta do CFD.

 

 

CONCLUSÃO

 

56. Maria, Mãe de Deus, é co-redentora na obra de seu Filho Jesus. Pelo seu “Ecce Ancilla”, Maria incentiva-nos à disponibilidade na fé e é imagem de responsabilidade e de compromisso. Possamos recorrer-lhe como medianeira, como modelo de mãe e de esposa numa família humana para que acompanhe a caminhada da Família Dehoniana.

 

57. A Sagrada Família de Nazaré, Jesus, Maria e José, tão reflectida e assumida na vida e obra do Padre Dehon, constitui para nós modelo de oração e contemplação, de amor e disponibilidade, de compromisso e missão.

 

58. Invocamos o Espírito Santo para que proteja a Família Dehoniana e que os seus membros possam seguir o espírito do Padre Leão Dehon, que se inspirou na humildade e na disponibilidade de Maria, assim como no exemplo da vontade de Jesus Cristo, sempre em sintonia com a vontade do Pai.

 

SIGLAS E ABREVIATURAS

ALVD –  Associação dos Leigos Voluntários Dehonianos.

Carta de Comunhão – Documento do Governo Geral SCJ intitulado A Família Dehoniana. Carta de Comunhão.

Carta Programática – Documento de Governo Geral da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus para o sexénio 2003-2009, contendo as orientações do XXI Capítulo Geral.

CEP – Conferência Episcopal Portuguesa.

ChLaici – Exortação Apostólica Christifideles Laici, 30.12.1988.

CMCJ – Companhia Missionária do Coração de Jesus.

CFD – Conselho da Família Dehoniana.

Cst – Constituições da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus.

ECCE – Evangelizar em Comunhão com Cristo e com a Ecclesia.

JD – Juventude Dehoniana.

LDPV – Documento do Governo Geral SCJ intitulado Leigos Dehonianos. Proposta de Vida.

MAMCJ – Missionárias do Amor Misericordioso do Coração de Jesus.

SCJ – Sacerdotes do Coração de Jesus.

SNFD – Secretariado Nacional da Família Dehoniana.

VC – Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, 25.3.1996.