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Dar de beber a quem tem sede, dar de comer a quem tem fome

Carta do Superior Geral para a Festa do Coração de Jesus 2017

 

A todos os membros da Família Dehoniana

 

LEMBRANÇA DE SOLFERINO

“É no meio destes combates tão diferentes que se reacendem incessantemente por toda a parte, que se ouvem sair imprecações da boca de homens de tantas nações diferentes e muitos deles obrigados a tornarem-se homicidas aos vinte anos! (…)

O comandante Mennessier – cujos seus dois irmãos, um coronel e o outro capitão, tinham já perecido heroicamente em Magenta – cai por sua vez em Solferino. Um subtenente tem o braço esquerdo quebrado por uma bala e o sangue flui abundantemente da sua ferida; sentado debaixo de uma árvore está sob a mira da arma de um soldado húngaro, mas é impedido por um dos seus oficiais, que aproximando-se do jovem francês ferido, aperta-lhe a mão com compaixão e ordena que seja levado para um lugar menos perigoso.

As vivandeiras avançam como simples soldados sob o fogo inimigo e vão socorrer os miseráveis soldados mutilados que insistentemente pedem água e elas próprias ficam também feridas enquanto procuram dar de beber e curar os soldados.

Ao lado debate-se, sob o peso do seu cavalo morto por estilhaços de uma granada, um oficial de cavalaria enfraquecido devido ao sangue que sai das suas próprias feridas; e nas proximidades, há um cavalo em fuga que, na sua corrida, arrasta o cadáver ensanguentado do seu cavaleiro; mais além outros cavalos, mais humanos do que aqueles que os montam, evitam a cada passo pisar as vítimas desta batalha furiosa e fanática”[1].

Perto da cidade italiana de Solferino, Henry Dunant, durante uma viagem que fez em Junho de 1859, testemunhou as péssimas condições dos feridos depois de uma batalha do exército austríaco contra as tropas sardo-piemontesas e da França. Dunant, homem de negócios suíço e humanista de inspiração cristã, com base nesta sua experiência, escreveu um livro intitulado Lembrança de Solferino, publicado em 1862, às suas próprias custas e distribuído pela Europa. Dunant tinha compreendido que não há nada mais revolucionário do que descrever a realidade tal como ela é.

No itinerário para uma sociedade mais humana, este livro obteve um sucesso pioneiro. Um ano após a publicação do original francês, Henry Dunant transferiu-se para Genebra para fundar o “Movimento Internacional de socorro aos feridos”. A partir desta organização, alguns anos mais tarde, nasceu a Cruz Vermelha Internacional e o Crescente Vermelho. Graças ao seu trabalho, Dunant, juntamente com o pacifista francês Frédéric Passy, recebeu em 1901, o primeiro Prémio Nobel da Paz.

 

O BOM SAMARITANO

A dinâmica interna da parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37) marcou o agir de Dunant. Como Jesus, Dunant estava convencido de que a salvação provém das margens e a ajuda vem de pessoas de quem menos se espera. Como Jesus, Dunant presta atenção à realidade. A história do Bom Samaritano desenrola-se num lugar real: um troço de estrada com cerca de 27km, desconfortável e desolado, inserido na principal via comercial daquele tempo entre a África e a Ásia; um troço de estrada que está localizado nas montanhas entre Jerusalém e Jericó, no vale do Jordão.

A descida, com mais de mil metros de desnível, tornava-se tentadora para comerciantes e ladrões. Era considerada como “o caminho de sangue”, porque ali o “sangue fluía muitas vezes por causa dos ladrões”. Apesar disso, era muito utilizada. Um dia, um homem cai nas mãos dos ladrões. Este homem, de quem não se conhece a nacionalidade, é espancado pelos bandidos, roubado e abandonado ali, quase morto. Nem o levita que passa, nem o sacerdote cuidam do ferido.

É um samaritano, um daqueles estrangeiros odiados, um herege do ponto de vista religioso, que, cheio de compaixão, pára. De forma muito realista, Jesus descreve os detalhes dos cuidados que o samaritano presta ao ferido: trata das feridas, coloca-o sobre a montada, alojamento, pagamento antecipado, aviso de regresso… É interessante notar que, para o levita e o sacerdote, o evangelista Lucas usa apenas dois verbos: ver e seguir adiante, enquanto que, para a acção do samaritano, são utilizados catorze verbos. A história edificante do Bom Samaritano é usada por Jesus para responder à pergunta do doutor da lei: “Quem é o meu próximo?” (Lc 10, 29).

Caros membros da Família Dehoniana, caros amigos da nossa Congregação, como sabeis, nestes seis anos do nosso mandato queremos fixar a nossa atenção nas obras de misericórdia, visto que o “Nome de Deus é misericórdia” (Papa Francisco). Queremos meditar nestas obras de misericórdia, mas também queremos aprofundá-las e pô-las em prática de modo bastante concreto. Nas obras de misericórdia espirituais e corporais vemos uma forte expressão da devoção ao Coração de Jesus. No ano passado, na carta para a Festa do Coração de Jesus, voltámos a nossa atenção para a obra “dar pousada aos peregrinos”.

Neste ano queremos deixar-nos provocar, com todas as forças, pelo convite: “dar de beber a quem tem sede, e dar de comer a quem tem fome”. Na nossa carta para a celebração do 14 de Março, aniversário do nascimento do nosso Fundador, Padre Leão Dehon, já tínhamos indicado a direcção. Agora, com esta carta aprofundamos as obras de misericórdia corporais e, concretamente, interrogamo-nos: Quem são, para nós, os que têm sede? Onde vemos os que têm fome?

 

TER FOME E SEDE FISICAMENTE, MENTALMENTE E ESPIRITUALMENTE

Se abrimos os nossos olhos, vemos pessoas que têm fome e sede física, intelectual e espiritualmente. Vemos pessoas que morrem de fome nos campos de batalha escondidos das nossas civilizações: crianças que crescem sem alimentação regular, que são vítimas de abusos sexuais, que são mutiladas ou tiradas às suas famílias. Outras pessoas já idosas, estão abandonadas e mergulhadas no mundo obscuro das enfermidades físicas. Sem assistência médica, vegetam lentamente até à morte. Outras ainda são afectadas por calamidades naturais e as suas casas desaparecem. Em muitas nações há aldeias inteiras em constante risco de extinção e a taxa de mortalidade infantil é elevada. Não têm qualquer hipótese de escapar à morte porque não existe água potável e até os poços estão contaminados. Têm sede de água, de vida, de futuro.

Noutras zonas de guerra do nosso mundo há pessoas em fuga porque a batalha agrava-se. A guerra é uma injustiça inaudita. A nível mental estas pessoas estão constantemente preocupadas, não conseguem dormir. Paira o medo: medo das vinganças tribais, do Boko Haram, do Isis, dos atentados suicidas, das pessoas que se tornam bombas humanas, dos grupos radicais que espezinham os direitos humanos ou dão azo ao seu ódio contra grupos de outras concepções religiosas. Outros, ao invés, são ainda jovens, crescem de forma sadia e segura, mas não sabem tomar decisões. Têm fome de orientação, de conselho, de quem indique o caminho. Desorientados, são como aqueles que, num quarto escuro, tacteiam de experiência em experiência.

Além destes campos de batalha geográficos e mentais, vemos também pessoas que vivem interiormente acorrentadas em zonas de batalha espiritual. Combatem contra uma doença ou têm preocupações porque estão ao lado de um ente querido que está doente. Outras sofrem devido à perda da pessoa amada, ficam doentes de tristeza ou caem na depressão. A solidão esmaga-as e ninguém vê as suas lágrimas escondidas. Têm fome de alguém que tenha tempo, de alguém que as escute. Têm sede de esperança e de fé. Procuram Deus. Anseiam pelo Salvador, Aquele cujo amor nunca se esgota, cujo coração nunca se cansa de cuidar do outro.

Seguindo os passos do Padre Dehon nós já damos uma resposta, muitos dos nossos colaboradores e colaboradoras, amigos e benfeitores e nós dehonianos. Juntos já decidimos estar próximo daqueles que estão com fome, socorrer aqueles que têm sede. Sabemos também que alguns estão a caminho dos que têm fome e sede e que outros trabalham escondidos, em silêncio. Para a Festa do nosso Deus, que tem um Coração para o mundo e cuja misericórdia não conhece fronteiras, queremos dizer-vos: Aquilo que viveis e fazeis enche o nosso coração de profunda gratidão. A vossa solidariedade para com os que têm sede e os que têm fome é para nós um estímulo interior e uma fonte de alegria.

 

SÓ COM O TU ME TORNO EU

Como Emmanuel Lévinas, estamos convencidos que a nossa forma de ver o outro, de julgá-lo e de comportarmo-nos perante ele diz alguma coisa sobre o modo como vemo-nos a nós próprios, sobre o modo como julgamo-nos e comportamo-nos em relação a nós mesmos. Não conheço as minhas costas. Só o encontro com o outro é que me permite ver as minhas costas e conhecê-las. O bom samaritano, preocupando-se com o homem deixado meio morto numa estrada de comércio internacional entre a África e a Ásia, entra ao mesmo tempo dentro da sua alma e aprende a conhecer-se mais sobre si mesmo.

Só com o Tu me torno Eu, diz Martin Buber. A história do Bom Samaritano inverte o sujeito e o objecto. O samaritano não é mais sujeito nem aquele que o carrega aos ombros é mais objecto. A história mostra sobretudo como o pobre tem compaixão de mim, ajudando-me numa situação de dificuldade interior e exterior e ajudando-me na estrada da minha realização espiritual.

Se nós, impulsionados pelo bom samaritano, encontramos cada vez mais a nossa identidade espiritual, tornamo-nos capazes de uma atenção ainda maior. De uma nova consciência. De uma percepção real. Vejamos o que isto significa.

Há muitos lugares que revelam a nossa identidade espiritual e que testemunham uma percepção da realidade. Em Kisangani, no Centro São Gabriel, há um museu que recorda o dom da vida de mais de quatrocentos missionários. Vieram de todo o mundo durante o século passado, para o Congo, um país que teve uma das primeiras missões dehonianas desejada pelo Padre Dehon.

O museu homenageia particularmente os nossos mártires que foram brutalmente assassinados na década de sessenta. Numa parede estão as suas fotografias, atrás vemos pintado um belo pôr-dosol, com uma frase emblemática de D. Gabriel Grison, um dos primeiros missionários, primeiro bispo de Kisangani e fundador da diocese: “É difícil plantar a cruz numa terra de missão sem carregá-la”[2].

Um pensamento que nos faz recordar todos os missionários mártires que deram a sua vida pela evangelização e que nos recorda os nossos missionários nas diferentes realidades dehonianas espalhadas pelo mundo. Sabemos que a sua vida nem sempre é fácil, é sacrifício e doação, e ao mesmo tempo estamos gratos pela sua importante dedicação, porque sem este espírito missionário não há verdadeira evangelização, como mostra a emblemática frase de D. Gabriel Grison.

Com a atitude do bom samaritano, que é muitas vezes a atitude dos missionários, também Henry Dunant reconhecia: Devo dizer as coisas tal como são – e agir. Ele percebeu que não eram necessariamente os soldados que tinham de cuidar dos feridos no campo de batalha de Solferino, mas as mulheres que acompanhavam a coluna militar, as vivandeiras.

Eram estas mulheres que tinham a coragem de intervir e de se fazerem solidárias. Eram elas que davam de beber aos soldados mutilados, que enfaixavam as suas feridas e elas próprias ficavam feridas. E Dunant fazia também referência aos cavalos… Eram cavalos que pareciam mais humanos do que os seus cavaleiros. Como se tivessem um coração maior, uma compaixão mais notável quando, com os seus cascos, procuravam evitar – mais do que os seus cavaleiros – o contacto com as vítimas.

Esta história real pode ser entendida como uma imagem do futuro da nossa Igreja. Repetidamente o Santo Padre, o Papa Francisco, comparou a Igreja a um hospital de campanha. Num hospital de campanha dá-se mais prioridade a atender as urgências do que a fazer estudos sofisticados. Este hospital de campanha tem de ser instalado “onde decorrem os combates”, diz o Papa Francisco. A Igreja deve sair, ir ao encontro das pessoas lá “onde vivem, onde sofrem, onde esperam”3.

Deixemo-nos tocar pelo bom samaritano. Coloquemos em acção o cuidado para com os que têm fome e os que têm sede – como Dehon, como Dunant, como tantos outros. Neste sentido, desejamos a todos a alegria em Deus que tem um Coração para nós.

Em nome dos confrades do Governo Geral, desejamos a todos os membros da Família Dehoniana a abundância dos dons do Espírito Santo para o Festa do Coração de Jesus!

 

In Corde Jesu
Heinrich Wilmer
Superior Geral e o seu Conselho

 

[1] J. Henry Dunant, Un souvenir de Solferino, 3e éd., Genève 1863, 32-34: « C’est au milieu de ces combats si divers renouvelés partout et sans relâche qu’on entend sortir des imprécations de la bouche d’hommes de tant de nations différentes, dont beaucoup sont contraints d’être homicides à vingt ans ! (…) Le commandant Mennessier dont les deux frères, l‘un colonel et l‘autre capitaine, ont déjà péri bravement à Magenta tombe à son tour à Solférino. Un sous-lieutenant de la ligne a le bras gauche brisé par un biscaïen et le sang coule abondamment de sa blessure; assis sous un arbre il est mis en joue par un soldat hongrois, mais celui-ci est arrêté par un de ses officiers qui, s’approchant du jeune blessé français, lui serre la main avec compassion et ordonne de le porter dans un endroit moins dangereux. Des cantinières s‘avancent comme de simples troupiers sous le feu de l’ennemi, elles vont relever de pauvres soldats mutilés qui demandent de l‘eau avec instance, et elles-mêmes sont blessées en leur donnant à boire et en essayant de les soigner. A côté se débat, sous le poids de son cheval tué par un éclat d’obus, un officier de hussards affaibli par le sang qui sort de ses propres blessures; et près de là, c’est un cheval échappé qui passe, entraînant dans sa course le cadavre ensanglanté de son cavalier; plus loin des chevaux, plus humains que ceux qui les montent, évitent à chaque pas de fouler sous leurs pieds les victimes de cette bataille furieuse et passionnée ».

[2] « Il est difficile de planter la croix sur une terre de mission sans la porter soi-même ». 3 Papa Francesco, Il nome di Dio è misericordia, Piemme Edizioni, 2016, 68.

 

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