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O apelo a construir a casa comum é um dos lemas do papa Francisco. Trata-se de uma espécie de programa, capaz de congregar os diversos agentes e unificar as diferentes perspectivas, em prol de um mesmo objectivo. É um sonho que acredita que neste mundo há lugar para todos e que cada pessoa tem a possibilidade de aceder a esse espaço acolhedor e sustentável, onde pode desenvolver-se e relacionar-se de forma harmoniosa.

Estamos perante um projecto comunitário destinado a todos e que constitui uma tarefa para todos. De facto, ninguém pode autoexcluir-se nem ser excluído ou votado ao esquecimento, sem que essa sua ausência seja notada e sentida como um empobrecimento para todo o conjunto. Ao pretender ser maximamente inclusivo, este projecto apoia-se na procura do bem comum como plataforma de construção de um futuro melhor.

Não obstante, apelar à construção duma casa para todos entra em rota de colisão com esse excesso antropocêntrico, que mina toda a referência a algo de comum e a qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Aliás, falar em construir a casa comum, dentro duma sociedade em que a solidão se tornou uma doença social, é algo que quase roça a ironia e parece votado ao descrédito.

Neste contexto, a construção da casa comum reclama uma espiritualidade que não se perturbe com a variedade e a diversidade dos seres criados, mas que reconheça que essa multiplicidade conduz à intenção criadora de Deus. Com efeito, «o conjunto do Universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus. São Tomás de Aquino sublinhava, sabiamente, que a multiplicidade e a variedade provêm da intenção do primeiro agente, o qual quis que o que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja suprido pelas outras, pois a sua bondade não pode ser convenientemente representada por uma só criatura. Por isso, precisamos de individuar a variedade das coisas nas suas múltiplas relações. Assim, compreende-se melhor a importância e o significado de qualquer criatura, se a contemplarmos no conjunto do plano de Deus» (LS 86). Nesta mesma linha, encontra-se o Catecismo da Igreja Católica, quando diz que «a interdependência das criaturas é querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espectáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras» (CIC 340).

Assim, se tudo está interligado, então é preciso «uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade». Só assim tem «sentido a luta pelo meio ambiente» (LS 91).

José Domingos Ferreira, scj