Print Friendly, PDF & Email

Ainda que o pensamento judaico-cristão tenha desmistificado a natureza, ele nunca deixou de pedir que se tenha em conta o seu valor e a sua fragilidade. A natureza não é uma entidade divina, mas não se pode «deixar de a admirar pelo seu esplendor e dimensão». Esta consciência ajuda a «acabar com o mito moderno do progresso material ilimitado», pois, «um mundo frágil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder» (LS 78). Neste sentido, cuidar da natureza apresenta-se como um «dever» (LS 79).

A nossa relação com o mundo natural, antes de ser um aproveitamento dos seus recursos para o nosso bem-estar, é uma relação de dependência. Uma antiquíssima definição do ser humano diz que somos animais e que a nossa origem e condição se inscrevem dentro da evolução das espécies. A natureza apresenta-se assim como um «refúgio vivente» (LS 115), pelo que é um erro «pensar que os outros seres vivos devam ser considerados como meros objectos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano» (LS 82). Dito doutro modo, «o fim último das criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus» (LS 83). Isto significa que «cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua» (LS 84), já que «toda a natureza, além de manifestar Deus, é lugar da sua presença» (LS 88).

Este cuidado da natureza encontra em Jesus um referente incontornável. Ele «trabalhava com suas mãos, entrando diariamente em contacto com matéria criada por Deus, para a moldar com a sua capacidade de artesão. É digno de nota que a maior parte da sua existência terrena tenha sido consagrada a esta tarefa, levando uma vida simples que não despertava maravilha alguma» (LS 98).

Podemos encontrar um exemplo bem actual deste cuidado da natureza nas comunidades aborígenes. Estas vêem-se seriamente ameaçadas, porque, ao defenderem e cuidarem dos seus territórios, entram em conflito aberto e directo com um modelo de desenvolvimento que arrasa com a Casa Comum. O papa Francisco recorda que, «para eles, a terra não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida» (LS 146).

Concluo com uma advertência bastante sugestiva: «assim como a vida e o mundo são dinâmicos, assim também o cuidado do mundo deve ser flexível e dinâmico. As soluções meramente técnicas correm o risco de tomar em consideração sintomas que não correspondem às problemáticas mais profundas» (LS 114). É uma ingenuidade acreditar que a técnica resolverá todos os problemas que afectam o nosso mundo…

 

José Domingos Ferreira, scj