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Cada ser humano é único e altamente complexo, e simplesmente não pode ser considerado como o resultado de uma série de casualidades.

Cada pessoa transporta consigo «uma novidade que não se explica cabalmente pela evolução doutros sistemas abertos. Cada um de nós tem em si uma identidade pessoal, capaz de entrar em diálogo com os outros e com o próprio Deus. A capacidade de reflexão, o raciocínio, a criatividade, a interpretação, a elaboração artística e outras capacidades originais manifestam uma singularidade que transcende o âmbito físico e biológico”(LS 81). Por isso, o ser humano nunca pode ser reduzido a um objecto, passível de ser analisado e explicado através de diferentes metodologias de investigação. No coração de cada pessoa humana, há uma originalidade e um mistério, que a situa no horizonte do amor de Deus Criador e que lhe confere uma dignidade única e inalienável.

Nos dias de hoje, esta singularidade de cada ser humano vê-se seriamente posta em causa por aquilo a que se costuma chamar relativismo prático. Com efeito, se «um antropocentrismo desordenado gera um estilo de vida desordenado»(LS 122), então as consequências concretas – decorrentes desta cultura relativista – ficam bem patentes nestas palavras: «é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objecto, obrigando-a a trabalhos forçados, ou reduzindo-a à escravidão por causa duma dívida. É a mesma lógica que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não servem os interesses próprios. É também a lógica interna daqueles que dizem: “deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia, porque os seus efeitos sobre a sociedade e a natureza são danos inevitáveis”. Se não há verdades objectivas nem princípios estáveis, fora da satisfação das aspirações próprias e das necessidades imediatas, que limites pode haver para o tráfico de seres humanos, a criminalidade organizada, o narcotráfico, o comércio de diamantes ensanguentados e de peles de animais em vias de extinção? Não é a mesma lógica relativista a que justifica a compra de órgãos dos pobres com a finalidade de os vender ou utilizar para experimentação, ou o descarte de crianças porque não correspondem ao desejo dos seus pais? É a mesma lógica do “usa e deita fora” que produz tantos resíduos, só pelo desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade»(LS 123).

Este cuidado por cada pessoa exige que nos empenhemos na defesa e promoção da dignidade humana de modo permanente, activo e eficaz. Implica ainda que não resvalemos nunca pelo caminho das falsas tolerâncias, dos permissivismos cruéis ou das indiferenças obstinadas, que pactuam com os abusos e explorações de outros irmãos nossos. No final de contas, este cuidado por cada pessoa alimenta-se da convicção que aquilo que fizermos a um destes nossos irmãos mais pequenos é ao próprio Jesus que o fazemos. Do mesmo modo, se um irmão sofre, é Cristo que sofre…

José Domingos Ferreira, scj