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Indira Gandhi afirmava que «o maior desastre ecológico é a pobreza». De facto, nunca como hoje, o nosso mundo teve tantos meios e possibilidades para solucionar os problemas vitais da humanidade (alimentação, habitação, saúde…). Curiosamente, nunca como hoje, existiram tantos pobres a viver neste nosso planeta. A razão para este fenómeno pode encontrar-se num «modo desordenado de conceber a vida e a acção do ser humano, que contradiz a realidade até ao ponto de a arruinar» (LS 101).

Deparamo-nos, portanto, com o grande escândalo da pobreza, que afecta uma parte significativa da população mundial. Quantos mais meios existirem para porem termo a esta situação, maior será a gravidade da mesma. Aliás, como é possível que, tendo tantas ferramentas à nossa disposição, a nossa resposta seja tão pouco eficaz? O que é que está a falhar em todo este processo? Como pode existir tanta gente a morrer à fome?

É urgente tomar consciência que não é possível implicarmo-nos na defesa da natureza sem vincularmo-nos profundamente à causa dos mais pobres, que são aqueles que mais sofrem com a degradação ecológica. Isto exige que reconheçamos que «a visão que consolida o arbítrio do mais forte favoreceu imensas desigualdades, injustiças e violências para a maior parte da humanidade, porque os recursos tornam-se propriedade do primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo» (LS 82). O modelo que dá prioridade ao mais forte tem-se entranhado no nosso coração desde muito cedo e parece que temos sérias dificuldades em libertar-nos dele.

Neste sentido, o papa Francisco adverte que «não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. Quando o pensamento cristão reivindica, para o ser humano, um valor peculiar acima das outras criaturas, suscita a valorização de cada pessoa humana e, assim, estimula o reconhecimento do outro. A abertura a um tu capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana» (LS 119).

Em suma, a indiferença mata. Fere o outro e fere-nos também a nós, na medida em que, pouco a pouco, cala a nossa capacidade de indignação perante determinadas situações, convertendo-nos quanto muito nesses «indignados de sofá», incapazes de se erguerem e passar à acção. É que «deveriam indignar-nos as enormes desigualdades que existem entre nós, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais dignos do que outros. Deixamos de notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o Planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos» (LS 90).

 

José Domingos Ferreira, scj