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Já tive a oportunidade de citar esses números da encíclica Laudato si’ que repetem – como se de uma antífona se tratasse – que «tudo está inter-relacionado», com o intuito de consciencializar para esta teia de relações que é o mundo em que vivemos. Trago novamente à baila esta ideia, ao deparar-me recentemente com um texto evangélico que a exprime de uma maneira muito clara e pertinente. Com efeito, é um desses dois ou três textos que dão conta da profunda radicalidade que marca o seguimento de Jesus Cristo.

O texto em concreto é essa passagem de Mt 5, 43-48, onde vemos que Deus se serve dos ritmos da natureza para manifestar o seu amor por todos os seres humanos, sem discriminar entre bons e maus ou justos e injustos. Sobre todos Deus faz nascer o sol e cair a chuva. Se o Criador se serve da natureza para exprimir o seu amor por nós, também nós estamos chamados a manifestar-Lhe o nosso amor, mediante o cuidado da natureza e o amor a todas as pessoas, inclusivamente aquelas que são nossas inimigas e que nos perseguem. Na mesma linha de pensamento, também a natureza, no seu esplendor e beleza, presta culto a Deus e serve a humanidade, mostrando-nos assim que tudo está interligado.

Infelizmente, somos nós que fazemos um uso discriminatório da criação e utilizamos a natureza em benefício só de alguns. Somos nós que, numa zona do globo terrestre, nos preocupamos em cuidar do ambiente, mas depois já não manifestamos o mesmo interesse e zelo, quando se trata doutra área do planeta. Parece que nos temos esquecido que “a existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós” (LS 66).

Jesus diz que Deus é perfeito precisamente por não fazer acepção de pessoas e a todos cumular dos seus bens. No entanto, temos de reconhecer que esta perfeição – que Jesus pede que a procuremos – corre o sério risco de se tornar uma miragem para nós. Uma renovada relação de cuidado e respeito para com a natureza significa uma aproximação a Deus, descoberto como referência última para a nossa vida, pois “o descuido no compromisso de cultivar e manter um correcto relacionamento com o próximo, relativamente a quem sou devedor da minha solicitude e custódia, destrói o relacionamento interior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra” (LS 70).

Em suma, “tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros” (LS 70).

José Domingos Ferreira, scj