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A vida nas aldeias é muito diferente da vida nas cidades. Quem já viveu nos dois lugares consegue elencar com facilidade as vantagens e desvantagens de cada um. Nas aldeias, é mais fácil observar as estrelas. As luzes das cidades não deixam ver com tanta claridade esses pontos luminosos, que tornam o céu tão bonito e tão impressionante.

Por estas alturas do ano litúrgico, recordamo-nos dos Magos vindos do Oriente, que eram também homens habituados a olhar para as estrelas. Olhar para as estrelas aponta para esta capacidade de admirar aquelas pequenas coisas, que enchem a nossa vida de beleza e de luz. Olhar para as estrelas remete para a nossa a capacidade de nos espantarmos perante o mundo à nossa volta. Olhar para as estrelas significa que há coisas na vida que não se reduzem ao seu valor económico, pois não há nenhum dinheiro que as possa comprar ou que possa adquirir a alegria que sentimos, quando as observamos. Diz o papa Francisco que «prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objecto de uso e abuso sem escrúpulos» (LS 215).

Os Magos convidam-nos a fortalecer a nossa capacidade de olhar, de admirar e de deixarmo-nos fascinar pelas estrelas. Mas não se trata apenas de ficar a olhar para o céu em noite escura e num descampado. Os Magos, fascinados pela beleza daqueles astros luminosos, descobrem no céu uma estrela especial, que os leva a empreender uma longa viagem para adorar um Menino, acabado de nascer. Prestemos atenção a isto: a admiração e o espanto perante a beleza natural conduzem-nos ao louvor, ao agradecimento e à adoração do Criador de todas as coisas.

Os Magos mostram-nos como é importante estar atento ao mundo natural e como é mais importante ainda dar o salto para proclamar as glórias do Senhor. É que as estrelas não são só astros luminosos; são algo mais que nos leva a perguntar por quem as criou e pelo que se encontra para lá delas; são pontos de luz que fazem brotar em nós a pergunta pela transcendência. É que «tudo o que há de bom nas coisas e experiências do mundo encontra-se eminentemente em Deus de maneira infinita» (LS 234).

É, por isso, fundamental escutar estas palavras dos Magos a Herodes: «vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo». Não nos distraiamos: a grande crise ecológica, que estamos todos a sofrer, é também consequência e resultado da nossa perda de capacidade para adorar a Deus. Esquecemo-nos que «existimos não só pelo poder de Deus, mas também na sua presença e companhia» (LS 72). Esquecemo-nos que «toda a sã espiritualidade implica simultaneamente acolher o amor divino e adorar, com confiança, o Senhor pelo seu poder infinito» (LS 73).

José Domingos Ferreira, scj