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Construir a casa comum significa entrar numa dinâmica que caminha em direcção a uma comunhão universal, uma comunhão onde nada nem ninguém fica de fora ou é excluído. Esta é, aliás, uma aspiração que levamos dentro de nós e que dá sentido ao nosso peregrinar enquanto homens e mulheres, que querem devolver um mundo em melhores condições que aquele que receberam.

Para os crentes, o fundamento desta comunhão reside na fé em Deus Pai e Criador de todas as coisas. Porque fomos todos «criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde» (LS 89). Se Deus é Pai, nós somos todos seus filhos; se Deus é criador, todos nós somos obra saída das suas mãos. Esta fé em Deus Criador tem, portanto, o condão de congregar e unir a humanidade e a natureza, através de um elemento comum a ambas, mas que também as supera.

O reconhecimento desta interdependência que nos vincula ao Criador tem como consequência que «não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver, no coração, ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos» (LS 91). Tristemente, esta é uma realidade que, em muitos âmbitos da nossa sociedade, não se apresenta de forma clara nem evidente. Somos frequentemente brindados com atitudes que vão em direcção contrária e que causam dúvida e confusão em muito boa gente. Neste contexto, toca-nos defender que não se pode pactuar com «a obsessão de negar qualquer preeminência à pessoa humana, conduzindo-se uma luta em prol das outras espécies que não se vê na hora de defender igual dignidade entre os seres humanos» (LS 90). Cabe-nos alertar que não ter em conta esta interdependência irá trazer graves desequilíbrios e consequências demasiado onerosas para a sociedade e para a natureza.

Nenhuma criatura pode ficar excluída da fraternidade universal a que a fé no Criador sempre move. Um coração verdadeiramente aberto a esta comunhão sabe que «a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas sempre acaba por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. Paz, justiça e conservação da criação são três questões absolutamente ligadas, que não se poderão separar […]. Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão Rio e à mãe terra» (LS 92).

Em plena celebração do Natal, ousemos olhar para o presépio com outro olhar. Recordemo-nos que os animais ali presentes não são meramente decorativos, mas representam a criação que se associa e acolhe o Salvador que chega…

 

José Domingos Ferreira, scj