Print Friendly, PDF & Email

13 Surge amica mea speciosa mea et veni 14 columba mea in foraminibus petrae in caverna maceriae ostende mihi faciem tuam sonet vox tua in auribus meis vox enim tua dulcis et facies tua decora (Cant 2, 13-14)

13 Levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem. 14 Pomba minha, que andas pelas fendas dos penhascos, no esconderijo das rochas escarpadas, mostra-me o rosto, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e o teu rosto, amável (Cant 2, 13-14).
 

Primeiro Prelúdio. Jesus digna-se comprazer-se com a nossa presença, a nossa conversa, convida-nos a nos refugiarmos no seu seio e no seu Coração, como a pomba no buraco do rochedo.
Segundo Prelúdio. É demasiada bondade, Senhor, mas pois que me convidais, entrarei no vosso Coração e nele fixarei a minha morada.

PRIMEIRO PONTO: O Coração de Jesus é o nosso doce retiro. – É desde os Padres da Igreja que a tradição interpreta neste sentido o nosso texto do Cântico dos Cânticos. Sto. Agostinho diz no seu Manual (c. 2): «Longino abriu-me com a sua lança o lado de Jesus, e eu entrei e repouso lá em segurança». – S. Bernardo tem páginas deliciosas no seu tratado da Paixão (c. 3): «O vosso coração foi ferido, diz a Nosso Senhor, para que eu possa nele e em vós habitar… como é bom habitar neste coração!…». S. Boaventura dizia: «Penetrando nas chagas de Jesus, chego até ao fundo do seu amor… entremos lá todo inteiros, aí encontraremos o nosso repouso e uma inefável doçura» (Stim. Div. Amoris, c.1). Nosso Senhor dizia a Sta. Matilde: «Dar-te-ei o meu coração como um lugar de refúgio». S. Francisco de Sales escrevia a uma visitandina (Carta 64): «Não sei onde estareis nesta Quaresma segundo o corpo; segundo o espírito, espero que estareis na caverna da rola e no lado ferido de Nosso Senhor; quero esforçar-me por estar lá muitas vezes convosco; Deus, pela sua soberana bondade, nos faça essa graça!… Como este Senhor é bom, minha muito querida filha, como o seu coração é amável! Permaneçamos lá neste santo domicílio!».
O P. Cláudio de la Colombière tem por tanto razão ao dizer que o Coração de Jesus é o retiro de todas as almas santas.

SEGUNDO PONTO: É um lugar de refúgio. – Margarida Maria, muito assídua à permanência no Coração de Jesus, tomava lá funções muito variadas, considerando-se aí ora como discípula na escola do divino Coração, ora como uma doente no hospício, ou uma cativa na prisão do amor, ou uma mendiga no palácio do rei. Mas o mais das vezes vê no Coração de Jesus um lugar de refúgio, um porto de segurança, uma cidadela de protecção contra os inimigos da salvação, um asilo para os pecadores.
«É preciso retirar-nos, diz, para a chaga do Sagrado Coração como um pobre viajante que procura um porto seguro para se colocar ao abrigo dos escolhos e das tempestades do mar tempestuoso do mundo, onde estamos expostos a um contínuo naufrágio. – O Coração adorável é um delicioso retiro onde vivemos ao abrigo de todas as tempestades. – Este divino Coração é como um forte inexpugnável contra os assaltos do inimigo».
O Sagrado Coração é o asilo da misericórdia e do perdão: «Os pecadores, diz Nosso Senhor, encontrarão no meu coração o oceano infinito da misericórdia». – «Que podeis temer em irdes lá, diz Margarida Maria, uma vez que ele vos convida a lá irdes? Não é ele o trono da misericórdia onde os miseráveis são os mais bem recebidos, desde que o amor os apresente no abismo da sua miséria?». – «O Pai eterno, por um excesso de misericórdia, fez deste ouro precioso uma moeda inapreciável, marcado no cunho da sua divindade, para que os homens com ela possam pagar as suas dívidas e negociar o grande assunto da sua salvação eterna». – «Permanecereis no Sagrado Coração de Jesus como um criminoso que, pelos desgostos e pela dor das suas faltas, deseja apaziguar o seu juiz fechando-se nesta prisão de amor». – «Deu-me a conhecer que o seu Sagrado Coração é o Santo dos Santos, que queria que fosse conhecido agora para ser o mediador entre Deus e os homens, porque é todo-poderoso para fazer a sua paz e para obter misericórdia».

TERCEIRO PONTO: É um oratório sagrado. – «Escolhei o Coração de Nosso Senhor, diz-nos Margarida Maria, para vosso oratório sagrado. Entrai lá para aí fazerdes as vossas preces e orações, a fim de que elas sejam agradáveis a Deus. Aí encontrareis com que lhe dar o que lhe deveis». – «Encontrai-vos enfraquecido no serviço de Deus, não vos perturbeis. Para vos satisfazerdes neste ponto, nada tendes a fazer senão unir-vos, em tudo o que fizerdes, ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, no começo, para vos servir disposições, e no fim satisfação. – Não podeis fazer nada na oração? Contentai-vos em oferecer a de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento do altar, oferecendo os seus ardores para reparar as vossas tibiezas. – Dizei em cada uma das vossas acções: Meu Deus, quero fazer ou sofrer isto no Coração sagrado do vosso divino Filho, e segundo as suas santas intenções que vos ofereço para reparar tudo o que há de impuro e de imperfeito nas minhas. Ele suprirá em tudo o que poderá faltar-vos da vossa parte; amará a Deus por vós, e amá-lo-eis nele e por ele». – «Este divino Coração é uma fonte inesgotável onde há três canais que correm sem cessar: primeiramente, o de misericórdia pelos pecadores donde brota o espírito de contrição e de penitência; o segundo, de caridade por todos os necessitados, e particularmente por aqueles que tendem à perfeição, que aí encontrarão com que vencerem os obstáculos; do terceiro, correm o amor e a luz para aqueles que quer unir a si para lhes comunicar a sua ciência e as suas luzes. Procuremos neste divino Coração tudo aquilo de que tivermos necessidade; recorramos a ele em todo o tempo e em todo o lugar. É um tesouro escondido e infinito que não pede senão a abrir-se a nós».

Resoluções. – O divino Coração é portanto um doce retiro, quero nele permanecer sempre; é um asilo, um refúgio onde encontrarei o perdão das minhas faltas e a protecção em todos os perigos; é o oratório sagrado onde rezarei para ser sempre atendido.

Colóquio com o Sagrado Coração.