Print Friendly, PDF & Email

O livro do Génesis dá conta que «o plano de Deus inclui a criação da humanidade» e, no final desse processo, «diz-se que Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa (Gn 1,31)». Logo desde o princípio, afirma-se uma perspectiva radicalmente positiva de toda a obra da criação em geral e do ser humano em particular. «A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). Esta afirmação mostra-nos a imensa dignidade de cada pessoa humana, que não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de ser conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas». Esta fé no Deus Criador leva-nos a dizer que «fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário» (LS 65).

Por outro lado, esta fé em Deus Criador jogou um papel de extrema relevância, sobretudo nos momentos de maior crise do Povo de Deus. Os momentos de perseguição e de prova, associados a fortes crises espirituais, conduziram a um aprofundamento e explicitação da omnipotência criadora de Deus, pois, «se Deus pôde criar o universo a partir do nada, também pode intervir neste mundo e vencer qualquer forma de mal. Por isso, a injustiça não é invencível» (LS 74).

A conclusão lógica é que «não podemos defender uma espiritualidade que esqueça Deus todo-poderoso e criador». Se o fizéssemos, estaríamos a abrir portas à idolatria, seja ao prestar adoração a outros poderes do mundo, seja ao adorar-nos a nós próprios, pois o ser humano tende a querer-se impor à realidade e sujeitá-la a si. De facto, «a melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo» (LS 75).

Daqui decorre uma mudança de perspectiva – com umas quantas consequências inevitáveis –, pois «dizer “criação” é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado». Não se trata de uma simples mudança de palavras que não toca nem transforma a realidade. Pelo contrário, é uma outra forma de relação com o mundo que está em jogo, a qual não admite manipulações de nenhum género: «a natureza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal» (LS 76).

Aqui fica o convite a aprofundarmos a nossa fé, a partir desse primeiro artigo do Credo, talvez rezado em modo automático cada domingo. Queira Deus que o nosso compromisso ecológico desperte com o professar a fé da Igreja de uma forma mais convicta e consciente!

José Domingos Ferreira, scj