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A actual fragilidade da nossa casa planetária exige que assumamos uma responsabilidade ecológica, que comece por respeitar as leis da natureza e cuide de todos os seres vivos. Não podemos viver sob o efeito de uma anestesia geral permanente, mas temos todos de adoptar uma atitude mais activa, mais comprometida e, consequentemente, mais responsável: atentar contra a natureza é atentar contra nós próprios.

Recordo que o nosso livro – a Bíblia – «não dá lugar a um antropocentrismo despótico, que se desinteressa das outras criaturas» (LS 68). Nenhuma doutrina eclesial defende que elas «estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas». Pelo contrário, o apelo ao «uso responsável das coisas» comporta o reconhecimento «que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus» e que o ser humano, «pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas». Este respeito pelas criaturas inclui a aceitação da «prioridade do ser sobre o ser úteis», pois cada uma delas, a partir da «sua bondade e perfeição próprias», reflecte «uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus» (LS 69).

Este sentido da responsabilidade vai ainda mais longe, porque o cuidado da natureza é indissociável de relações humanas justas e fraternas: é uma convicção actual que «tudo está inter-relacionado e que o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros» (LS 70). Com efeito, os relatos bíblicos de Caim e Abel, mas também o de Noé, põem a nu este nexo entre a injustiça humana e o dano à natureza. Se o nosso planeta se apresenta bastante frágil e perto da ruptura, é também porque não temos conseguido aplicar os tratamentos correctos contra a injustiça e a corrupção. Aliás, o cuidado pela natureza não alcançará nunca grandes resultados se não for acompanhado pelo compromisso sério e eficaz no combate a todas as formas de injustiça, de corrupção e de exploração do ser humano.

O papa Francisco quer deixar bem claro que «a interpretação correcta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável» (LS 116). Não fomos nós quem criou este mundo e quem nele nos colocou. Há uma Vontade Primeira que decidiu que este planeta existisse e que nele pudéssemos habitar. Foi também essa Vontade Primeira quem nos deu a missão de cuidar e preservar esta obra artística de grande génio.

Talvez estejamos tão habituados a ouvir histórias de administradores corruptos que podemos achar que é pouco credível esta imagem do administrador responsável. A verdade é que também aqui somos chamados a ser esse «administrador fiel e prudente a quem o Senhor pôs à frente do seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo» (Lc 12,42).

José Domingos Ferreira, scj