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No cimo de muitos montes e montanhas do nosso país, é possível encontrar pequenos santuários ou capelas, que, neste tempo dos dias grandes e quentes, parecem ganhar nova vida. O simbolismo de uma maior proximidade do céu parece levar muita gente a empreender uma subida até esse lugar mais alto.

A montanha é um «lugar teológico» e a Bíblia está cheia de textos que a têm como pano de fundo para o encontro entre Deus e o ser humano. Quantas experiências de encontro com Deus têm como cenário um lugar alto? Quanto tempo demoramos a trazer à memória Moisés, Elias e, inevitavelmente, Jesus de Nazaré, verdadeiros peritos em subir à montanha?

A montanha é também símbolo do eterno, pois ela já existia antes da nossa chegada e há-de permanecer após a nossa partida. As montanhas assistiram à força das ideologias que hoje consideramos caducas; acompanharam sistemas políticos que cativaram gerações e que agora nos surpreende o relativo das suas propostas; foram cenário de conflitos e batalhas, que hoje se revelam como um verdadeiro absurdo; sofreram o desgaste e os maus-tratos de incêndios e outras manifestações da avidez humana. E aí continuam com toda a sua majestade e imponência…

“O facto de insistir na afirmação de que o ser humano é imagem de Deus não deveria fazer-nos esquecer que cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua. Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). Por outro lado, o místico “quando admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: as montanhas têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas é o meu Amado para mim” (LS 234).

Subir à montanha e daí olhar o mundo envolvente pode ajudar-nos a descobrir a nossa fragilidade e pequenez, mas também a dar-nos conta de como a nossa pegada se faz sentir pesadamente sobre a natureza. Subir à montanha possibilita-nos admirar a beleza de uma vasta paisagem, mas também experimentar o silêncio que subitamente nos envolve. Mas não se pense que se trata de uma empreitada fácil: basta perguntar a um ciclista o quanto lhe custa trepar um monte, embora, ao mesmo tempo, se possa indagar pela alegria e satisfação sentida, quando atinge o topo.

Não conheço nenhum texto do Pe. Dehon que dê conta do seu fascínio pelas montanhas, mas, a julgar pelas suas imensas viagens, pela sua grande sensibilidade artística e amor à beleza, tenho poucas dúvidas sobre o quanto gostaria de observá-las.

 

José Domingos Ferreira, scj