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A encíclica Laudato si’, apresentada oficialmente a 18 de Junho de 2015, foi publicada com a data de 24 de Maio, dia da Solenidade de Pentecostes. À primeira vista, poderia parecer uma simples coincidência ou apenas o desejo de publicar este documento num dia com significado e solenidade. Mas não é assim! De maneira subtil, quase imperceptível ao leitor, está-se a evocar essa relação profunda e íntima que, desde os inícios do Cristianismo, une o Espírito Santo com o tema da ecologia.

Apesar da diferença qualitativa entre criação e Criador, Deus não é pensado no cristianismo como completamente ausente e distante da natureza, como se a sua acção criadora consistisse unicamente num mero «dar início» sem uma continuidade ulterior. Aliás, o papa Francisco é bastante claro a este propósito: “o Espírito Santo possui uma inventiva infinita, própria da mente divina, que sabe prover a desfazer os nós das vicissitudes humanas mais complexas e impenetráveis. […] Ele está presente no mais íntimo de cada coisa sem condicionar a autonomia da sua criatura, e isto dá lugar também à legítima autonomia das realidades terrenas. Esta presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, é a continuação da acção criadora. O Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo” (LS 80).

Deste modo, se existe uma relação intensa entre Espírito e criação, então uma conclusão possível é que um certo «esquecimento do Espírito», na espiritualidade cristã, terá contribuído, de alguma maneira, para esta devastadora crise ecológica. Se Aquele que precisamente tem por missão conduzir o cosmos à sua plenitude acabou relegado para um segundo plano, as consequências dessa «ausência» teriam de ser ruinosas.

A encíclica exprime-o, uma vez mais, na sua mais pura claridade, ao dizer que “toda a natureza, além de manifestar Deus, é lugar da sua presença. Em cada criatura, habita o seu Espírito vivificante, que nos chama a um relacionamento com Ele. A descoberta desta presença estimula em nós o desenvolvimento das «virtudes ecológicas»” (LS 88).

Às portas da celebração do Pentecostes, eis o convite a crescer nesta sensibilidade espiritual, a renovar o nosso olhar sobre a natureza e a aprender a ver todo o dom imenso que ela é para nós. Assim poderemos desenvolver uma verdadeira «ecologia do Espírito».

José Domingos Ferreira, scj