Print Friendly, PDF & Email

Vale a pena entregar toda a vida a Deus, porque a vida consagrada é uma «reserva ecológica», onde se pode respirar o ar puro da dignidade da vida humana, do respeito por cada pessoa e do sentido relacional da existência. Não é um «condomínio fechado» ou uma «zona de acesso restringido», mas é um espaço transparente a que todos podemos aceder livremente. Com efeito, a vida consagrada constitui um enorme depósito de energia e de amor, de generosidade e de altruísmo, de vitalidade e de beleza, com o qual nos faz bem conectar e carregar baterias. Independentemente das suas dimensões e forças actuais, a vida consagrada é esse «espaço ecológico» sem o qual o mundo será mais pobre e egoísta, mais terrível e inabitável, pois, como muito bem refere O. Clément, “se a história não se alimenta de eternidade converte-se simplesmente em zoologia”.

Neste sentido, pode perceber-se um paralelo entre crise ecológica e crise na vida consagrada, o que naturalmente levanta algumas perguntas: este antropocentrismo desordenado e desequilibrado silenciou a afirmação da primazia e do absoluto de Deus? O paradigma tecnocrático marginalizou esta forma de vida que não vale por aquilo que faz ou executa, mas simplesmente por aquilo que é e para onde aponta? O consumismo desenfreado não contaminou em demasia este sonho de viver na partilha generosa daquilo que se é e se possui, em lugar de acumular para si?

Uma vez mais, escutemos o papa Francisco: «a espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. É importante adoptar um antigo ensinamento, presente em distintas tradições religiosas e também na Bíblia. Trata-se da convicção de que “quanto menos, tanto mais”. Com efeito, a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja, abre-nos muitas mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres» (LS 222).

A pobreza – o garante da fidelidade e do entusiasmo na vida consagrada – é um acorde de vários sons, onde entram a sobriedade, a simplicidade, a alegria e a gratidão. O acorde fica incompleto, se falta alguma destas notas, mas a sua beleza única está precisamente na possibilidade de combinar cada um desses sons de uma maneira nova e criativa.

José Domingos Ferreira, scj