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Jesus nasceu rodeado de animais domésticos e cresceu num ambiente rural, em grande familiaridade com a natureza. Falou do Pai como «Senhor do céu e da terra» e comparou o Reino a um sem fim de coisas criadas. Jesus contou parábolas sobre a semente e o trigo, os pássaros que voam e as flores dos campos. Falou também de raposas e peixes, árvores e arbustos, cordeiros e lobos, do amanhecer e do anoitecer. Rezou nas colinas e no cimo da montanha, no deserto e no Horto do Getsémani. Passeou nas margens do rio Jordão e nas margens do mar da Galileia.

Este Jesus, que vivia em plena harmonia com a criação, «não se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas aprazíveis da vida. Falando de si mesmo, declarou: “veio o Filho do Homem que come e bebe, e dizem: ‘Aí está um glutão e bebedor de vinho’” (Mt 11,19). Encontrava-se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria e as realidades deste mundo. […] Jesus trabalhava com suas mãos, entrando diariamente em contacto com matéria criada por Deus para a moldar com a sua capacidade de artesão. É digno de nota que a maior parte da sua existência terrena tenha sido consagrada a esta tarefa, levando uma vida simples que não despertava maravilha alguma» (LS 98).

Talvez a «vida oculta» de Jesus não seja simplesmente aquele período quanto ao qual não dispomos de muita informação, mas seja esse tempo de fortalecimento das relações consigo mesmo, com Deus, com os outros e também com a natureza. Talvez a «vida oculta» de Jesus não seja apenas um estímulo para a nossa imaginação e um entrave ao nosso desejo de conhecer e controlar tudo (também Jesus), mas seja esse estado de harmonia feliz, que nos recorda aquele primeiro homem que passeava com Deus pela brisa da tarde.

Parece-me importante chamar a atenção para o risco de uma aproximação espiritualista a Jesus de Nazaré. Com efeito, ao espiritualizar a sua vida, não damos o devido relevo a esta dimensão mais mundana. É então o próprio sentido da Encarnação que sai debilitado, ao não considerar que Jesus viveu e foi em tudo igual a um homem do seu tempo, imerso numa sociedade em que a relação com a natureza era mais intensa e profunda que nos dias de hoje, e onde ainda não se imaginavam as catástrofes que conhecemos, derivadas da nossa desconsideração pela natureza.

Jesus, o Salvador do mundo, ilumina-nos na configuração duma relação com a criação marcada pela reverência, pelo cuidado e pela admiração. Aos seus discípulos, «Jesus convidava-os a reconhecer a relação paterna que Deus tem com todas as criaturas e recordava-lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos olhos d’Ele: “Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus” (Lc 12, 6)» (LS 96). A triste realidade é que todas as coisas são importantes aos olhos de Deus, mas não aos nossos…

José Domingos Ferreira, scj