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Deus fez uma aliança com toda a criação, de modo que em si mesmo cada acontecimento manifesta a bênção ou o juízo divinos. Neste sentido, tudo o que acontece tem um significado moral, na medida em que é expressão e resultado do respeito ou da transgressão a esse apelo do Criador, que convoca a estabelecer boas relações entre todas as criaturas.

Esta aliança com Deus pode servir de fundamento para uma sociedade mais justa, mas também de base para uma natureza mais saudável. É preciso ter em conta que desobedecer ao mandato divino – enquanto convocação a promover relações sustentáveis – acarreta consequentemente violência para a sociedade e desastre para a natureza. Isto não significa que Deus se serve dos eventos naturais para castigar ou abençoar. Significa isso sim que há uma conexão a unir as diversas interacções, seja entre os seres humanos, seja aquelas com a natureza. Assim, qualquer transgressão à justiça nas relações entre os seres humanos comporta uma transgressão nas interacções estabelecidas para a natureza, de modo que quebrar ou infringir alguma destas relações terá sempre um impacto negativo no conjunto da criação. Por conseguinte, a aliança que Deus selou com todo o ser criado deve orientar e guiar a interacção entre todas as criaturas.

Torna-se evidente então que a ecologia não se reduz ao meio ambiente e que os desafios ambientais que estamos a enfrentar são expressão de uma crise mais ampla e profunda. Estes desafios estão estreitamente vinculados com os problemas sociais de justiça e iniquidade. Deste modo, as problemáticas ambientais não deveriam de nenhum modo eclipsar outros desafios globais, como a fome, a pobreza, o crescimento demográfico, o consumismo exacerbado, a migração forçada…

O desenvolvimento humano não deve estar desconectado da vida das outras criaturas. Todo e qualquer progresso humano, feito à margem ou em oposição ao bem-estar dos outros seres criados, é uma ilusão insustentável. Do mesmo modo, a preocupação e o cuidado da natureza não pode levar a que os seres humanos sejam ignorados ou esquecidos. No fundo, não se trata de escolher entre desafios naturais e desafios sociais, mas de compreender que por detrás de qualquer problemática social há também uma problema de ordem natural e vice-versa. É exactamente por este motivo que Laudato si’ fala em «ecologia integral» (LS 10), recordando que «a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente. Há uma interacção entre os ecossistemas e entre os diferentes mundos de referência social, e, assim, se demonstra mais uma vez que o todo é superior à parte» (LS 141).

José Domingos Ferreira, scj