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O número 216 da encíclica ecológica do papa Francisco quer trazer à luz as «motivações que derivam da espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo», pois «não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à acção pessoal e comunitária». Afirma-se de forma peremptória a necessidade de uma espiritualidade que sirva de suporte ao nosso compromisso ecológico. As ideias e as doutrinas não são suficientes para motivar a acção pessoal e comunitária e menos ainda para garantir a sua permanência no tempo. A espiritualidade é imprescindível para que possa mudar a nossa relação com o mundo. Se o coração não muda, o esforço voluntarista dura pouco.

A espiritualidade, correctamente entendida, conduz sempre a um compromisso pessoal na resolução dos vários problemas sociais e ecológicos. Este é, de facto, um dos sinais que a distingue dos espiritualismos, na medida em que estes tendem a encerrar a pessoa em si própria, impedindo-a de se comprometer activamente em algo que lhe exija esta saída de si mesma. A falta de uma espiritualidade ecológica sólida leva a que o cuidado pelo ambiente se apresente como uma exigência heterónoma e externa, que não surge espontaneamente do próprio ser nem leva ao compromisso social activo. Com efeito, «a cultura ecológica não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da poluição. Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático. Caso contrário, até as melhores iniciativas ecologistas podem acabar bloqueadas na mesma lógica globalizada. Buscar apenas um remédio técnico para cada problema ambiental que aparece, é isolar coisas que, na realidade, estão interligadas e esconder os problemas verdadeiros e mais profundos do sistema mundial» (LS 111).

Por conseguinte, uma espiritualidade ecológica não é algo acessório. Só ela nos poderá ajudar a recuperar essa dimensão espiritual da matéria, perdida quando o «impulso-poder dominou por completo o impulso-amor» (B. Russel). Só «o crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres». Não podemos olhar esta grave crise ecológica como algo que nos é exterior ou, pior ainda, indiferente. Pelo contrário, é esta perspectiva “interior” que estimula o desenvolvimento da criatividade e do entusiasmo para resolver os dramas do mundo, algo que se apresenta a todo o crente como «uma grave responsabilidade derivada da sua fé» (LS 220).

José Domingos Ferreira, scj