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Se a fé em Deus Criador é uma convicção que enche de gozo e esperança, então o louvor ocupa um lugar central no compromisso ecológico humano. A Bíblia recomenda-o amiúde e, com um acento especial, «os Salmos convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador e convidam também as outras criaturas a louvá-lo (Sal 136,6; 148,3-5)» (LS 72).

Na base do louvor e da adoração encontra-se a consciência que «existimos não só pelo poder de Deus, mas também na sua presença e companhia. Por isso o adoramos» (LS 72). Cada um de nós – e sempre a seu modo – é convidado a fazer a experiência deste amor próximo de Deus, que cuida com uma ternura especial de cada ser vivo, procurando que nada lhe falte. Este amor que provê às nossas necessidades transforma-se em nós em amor que louva e agradece à Fonte de todas as coisas.

Noutra óptica, o louvor funciona também como um eficaz antídoto contra uma certa mentalidade ou ideologia, que tende a rejeitar liminarmente toda e qualquer evolução tecnológica. Não podemos fechar os olhos à realidade e devemos reconhecer que a tecnologia «deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano. Não podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcançados especialmente na medicina, engenharia e comunicações». É justo e saudável, por isso, «que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu» (LS 102).

O louvor brota espontaneamente no coração crente, quando este dá o salto da natureza para a criação. Não se trata apenas uma mudança de palavras, mas implica uma nova forma de relação com o mundo exterior. Dizer criação é dizer algo mais que natureza, porque a criação «só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal» (LS 76).

Por outro lado, a beleza aparece como um gatilho que dispara – de uma forma que pode chegar a ser automática – o louvor, o espanto e a admiração. Deleitar-se com a beleza criada é uma arte que está ao alcance de todos e provavelmente já fizemos essa experiência libertadora e tranquilizante de um tempo mais prolongado de contacto com a natureza. Aliás, Jesus é exemplar neste aspecto, já que «vivia em contacto permanente com a natureza e prestava-lhe uma atenção cheia de carinho e admiração. Quando percorria os quatro cantos da sua terra, detinha-se a contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava os discípulos a individuarem, nas coisas, uma mensagem divina» (LS 97). Deste modo, não tenhamos medo de pôr em palavras a beleza que nos entra pelos sentidos!!!

 

José Domingos Ferreira, scj