Print Friendly, PDF & Email

A criação é algo mais que a natureza, porque remete para o «projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado». Há uma maior densidade espiritual, dado que a criação se concebe sempre «como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal» (LS 76). É um caminho que possibilita «pensar o todo como aberto à transcendência de Deus, dentro da qual se desenvolve. A fé permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece» (LS 79).

Com efeito, estamos habituados a afirmar que Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo), o que, num determinado sentido, encerra algo de verdadeiro. No entanto, o fundamental não é a afirmação do poder de Deus ou a defesa da sua liberdade absoluta. O essencial é afirmar que Deus criou o mundo por amor (ex amore): «o universo não apareceu como resultado duma omnipotência arbitrária, duma demonstração de força ou dum desejo de auto-afirmação. A criação pertence à ordem do amor. O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação» (LS 77). Por isso, «todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus» (LS 84).

É precisamente porque a criação é fruto do amor de Deus e nela «cada criatura é objecto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo», que «das obras criadas se pode subir à amorosa misericórdia» (LS 77) de Deus. Da mesma forma que um artista se esconde sempre na sua obra, a ponto de através desta se chegar ao seu artífice, assim também pela criação se pode intuir algo do seu Criador. Toda a natureza é então um livro aberto, que nos fala de Deus em todos os seus detalhes e subtilezas. Na medida em que «nenhuma criatura fica fora desta manifestação de Deus», a criação converte-se numa «contínua revelação do divino», pelo que a sua contemplação «permite-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos queira transmitir através de cada coisa, porque, para o crente, contemplar a criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa» (LS 85).

Uma vez mais, Jesus apresenta-se como o protótipo desta relação harmoniosa com a obra saída das mãos de Deus. Diz o papa Francisco que «Jesus vivia em plena harmonia com a criação, com grande maravilha dos outros. Não se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas aprazíveis da vida. Encontrava-se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria, as realidades deste mundo» (LS 98).

Somos convidados a redescobrir a natureza neste seu estreito vínculo com o Senhor de todas as coisas. A biodiversidade – tão ameaçada e ferida nos nossos dias – é a grande sinfonia orquestral que não só exprime a extraordinária criatividade divina, mas também canta os louvores agradecidos do Criador…

José Domingos Ferreira, scj