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O ser humano tem hoje um poder avassalador, como nunca teve em épocas anteriores. Muitos dos objectos que fazem parte do nosso quotidiano eram uma miragem há meia dúzia de décadas. Provavelmente, a vida duma família nos anos 60 teria mais semelhanças com a vida no século XVIII que nos inícios deste nosso século. Com efeito, bastaria fazer o exercício de olhar para todos os electrodomésticos, que equipam as nossas cozinhas, para constatar a verdade desta afirmação.

Não obstante, não se pode esconder que este «poder tremendo» se encontra nas mãos de uma minoria, precisamente «aqueles que detêm o conhecimento e o poder económico». Na mesma linha de ideias, não é suficiente reconhecer que possuímos um poder imenso, uma vez que não temos qualquer garantia que a humanidade «o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer». Com efeito, «é tremendamente arriscado que resida numa pequena parte da humanidade» (LS 104), deixando à sua mercê a larga maioria dos homens e mulheres do mundo.

«O homem moderno não foi educado para o recto uso do poder, porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano, quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência. Cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites». Torna-se necessária então «uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si» (LS 105).

Deste modo, a construção da casa comum exige uma crítica a todo o poder sem controlo, situando-o no quadro duma ordem ética. Ao mesmo tempo, reclama que aprendamos a usar a nossa capacidade de decisão, que é o único poder com que contamos: o ser capazes de decidir por nós próprios quem e como queremos ser. Este poder de decisão forma parte da nossa natureza e, desde o ponto de vista crente, foi-nos concedido por Deus. A nós compete-nos decidir como o queremos exercer e ao serviço de que valores o queremos exercitar.

Daqui deriva que estamos chamados a moderar um desejo quase infinito de bens e uma vontade cega de alcançá-los. A forma como compramos exprime as nossas convicções mais profundas e é uma das maneiras mais claras de manifestar os nossos valores. No entanto, é doloroso reconhecer que fomos altamente treinados para comprar e temos muita dificuldade em não o fazer de modo frequente. Tornou-se difícil sair de casa e regressar de mãos a abanar. Tornou-se difícil mostrar amizade e estima por alguém sem recorrer a objectos materiais.

Este ano, que estamos a começar com entusiasmo e esperança, reivindica uma consciência mais esclarecida e decisões bem discernidas da parte de todos nós. É bom informar-se; melhor ainda é decidir com responsabilidade…

José Domingos Ferreira, scj