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Definir se um período de três anos é muito ou pouco tempo dependerá sempre da forma como olhemos. Três anos dura actualmente uma licenciatura e três anos foi sensivelmente a duração da vida pública de Jesus. Jogar três anos na mesma equipa de futebol parece uma eternidade, enquanto um livro com o mesmo tempo está ultrapassado. Por último, um telemóvel com três anos já é do tempo das cavernas, claramente à espera da sua substituição por um aparelho mais contemporâneo.

No próximo dia 24 de Maio, celebraremos o terceiro aniversário da encíclica Laudato Si’. Pode ser que para alguns de nós já seja um documento perdido num passado longínquo, tão depressa evoluem hoje as coisas. O próprio tema talvez tenha perdido a novidade e o interesse, uma vez que entretanto o mesmo papa Francisco publicou outros documentos e um deles até é bem recente. Por isso, não resisto a repetir umas palavras do papa argentino que assentam que nem uma luva:  “não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências importantes” (EG 25).

Este terceiro aniversário pode ser uma excelente oportunidade para nos deixarmos habitar por algumas perguntas: o que mudou na nossa vida desde Laudato Si´? O que mudou na vida das nossas comunidades cristãs, familiares ou religiosas? Estamos a aprender a cuidar da “nossa casa comum” de uma forma mais delicada e respeitosa? Aprendemos a celebrar de maneira mais agradecida e mais reconciliada? O nosso olhar é hoje mais sábio e mais capaz de se abismar perante a realidade? Que iniciativas concretas conseguimos implementar na nossa vida? Na minha vida, ser ecológico é hoje uma modalidade constitutiva do ser cristão?

Sabemos que o nosso mundo está à beira da ruptura. Estamos conscientes que não podemos continuar de braços cruzados à espera de um messias qualquer, que resolva em nosso lugar os problemas que nós próprios criamos. Além disso, não pode ser o medo perante uma eventual catástrofe a mover-nos, mas o amor e o espanto perante uma obra de arte tão extraordinária, que foi posta nas nossas mãos de modo gratuito, simplesmente para que a contemplemos e cuidemos. Vivemos uma profunda crise cultural e não é fácil alterar as motivações, os hábitos e os comportamentos assumidos e consolidados ao longo de vários anos.

Os contemplativos, celebrantes e cuidadosos são esses «verdadeiramente fortes» (LS 242) que seguram e sustentam a Terra. Por isso, a verdadeira pergunta, no final de contas, até é outra: o que acontecerá ao nosso mundo se não surgirem cristãos contemplativos, celebrantes e cuidadosos?

José Domingos Ferreira, scj