início início congregação congregação província província comunidades comunidades pessoas pessoas pastoral pastoral
bilbioteca biblioteca agenda agenda/efemérides opinião opinião ligações  ligações
arquivo
 
Ano 2014
Ano 2013
ano 2012
ano 2011
ano 2010
ano 2009
ano 2008
ano 2007
ano 2006
ano 2005
ano 2004
ano 2003
ano 2002
07/10/2007
Jesus de Nazar - O livro do Papa BentoXVI imprimir

1. Um desejo muito antigo
A preocupação de Bento XVI é apresentar ou partilhar com o grande público o resultado das suas meditações cristológicas, projecto que ele acalentava há muitos anos, desde os tempos em que era professor de teologia, de escrever um livro dedicado à figura de Jesus, e que correspondesse e fosse expressão, como ele mesmo diz, da sua procura pessoal “do rosto do Senhor” (cf. Sl 27,8), e de que podemos encontrar elementos dispersos, por exemplo, nas diversas entrevistas que deu, desde V. Messori1, a Peter Seewald2.
Trata-se na verdade de uma obra articulada em meditações sobre os mistérios da vida de Jesus, num estilo quase agostiniano, onde a sua preocupação não é nem discutir nem fundamentar o que afirma tendo em conta o debate científico e o conflito hermenêutico das interpretações, mas sim de partilhar o seu modo muito pessoal, quase intimista, de contemplar o mistério de Jesus, a partir do núcleo que oferece a sua identidade, ou seja, a sua relação com o Pai, a sua única e irrepetível experiência de Deus, como Filho. Não é, portanto, um tratado, mas sim uma meditação sobre Jesus, tomando como fio condutor os seus mistérios, desde o baptismo no Jordão até à Transfiguração.
Pode o leitor concordar ou não, rever-se ou não nestas meditações, mas precisamente como meditações, - mesmo pressupondo um vasto conhecimento decorrente não só da sua carreira como Professor universitário na Alemanha, mas também da experiência vivida e do conhecimento prático da Igreja a partir da sua ordenação episcopal até ao cardinalado em Roma, - elas projectam a sua pessoalíssima vivência, a sua relação com o mistério de Cristo, com o qual procura identificar-se existencial e ministerialmente. É neste sentido que há-de entender-se o seu pedido de compreensão e de empatia, para que o leitor aceda ao livro precisamente colocando-se dentro do espírito e da lógica em que foi escrito, ou seja, como partilha de uma experiência muito pessoal de oração e de vida.

 


2. Uma meditação pessoal, criticamente documentada
No entanto esta meditação é documentada, ou seja, tem em conta os resultados mais importantes da exegese contemporânea, sobretudo o método histórico-crítico, na medida em que a figura de Jesus que nestas meditações aparece, não é a projecção ou o resultado sem mais da contemplação, mas encontra-se suportada no método científico, criticamente controlado, mas indo mais além, como se pode ver no diálogo de Bento XVI com o trabalho de R. Schnackenburg. De facto, a figura de Jesus que se perfila nas meditações do Papa não surge a nossos olhos como uma personagem distante no tempo, mas sim presente no hoje do crente, no coração da experiência eclesial, e por isso, é sem dúvida nenhuma o Cristo, o Kyrios da fé eclesial, vivida e celebrada nos sacramentos. A questão da figura de Jesus não se resolve por conseguinte no plano da hermenêutica dos textos, que pode, em situações extremas, questionar-se sobre a autenticidade das fontes, e, portanto, perder-se na floresta das teorias exegéticas, o que seria, em última instância uma tentação, mas sim na escuta do mistério, na confiança nos evangelhos, que medeiam
precisamente o evangelho, que não é necessariamente uma boa nova, mas sim uma mensagem de salvação, do Kyrios que por amor se entregou por mim, como diria S. Paulo (cf Gal 2, 20). Quer dizer que Bento XVI medita sobre os evangelhos não como um exegeta bíblico (mesmo se ele conhece bem a exegese), mas como teólogo, ou seja, na atitude obediencial da escuta do mistério que na Palavra se revela, essa Palavra que a Igreja escuta quando orando celebra os mistérios.


3. O núcleo essencial para a compreensão da figura de Jesus
O método meditativo, teológico e dogmático (no sentido de pressupor a regra fundamental do crer eclesial) que Bento XVI pratica na sua meditação vai mais além do método histórico, ou dos resultados da exegese, para procurar um princípio a partir do qual seja possível compreender a novidade da figura de Jesus: e esse princípio vai encontrá-lo na relação filial ou na consciência filial de Jesus, no plano já de uma meditação que procura ir contemplar o fundo do mistério que n’Ele se revela. No Antigo Testamento a figura de Moisés é evocada como tipo e como profecia, em dois momentos do seu peregrinar à frente do Povo de Deus pelo deserto: quando no Deuteronómio anuncia um profeta maior do que ele, que o povo deveria escutar (cf Dt 18), e quando se recorda a figura de Moisés que falava com Deus como um amigo fala com um amigo (cf. Ex 34, 10). E relaciona esta tipologia de Moisés com o que aparece no prólogo do evangelho de S. João, quando se diz que “ninguém jamais viu a Deus, mas o Filho de Deus, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (Jo 1,18). Aqui está o núcleo essencial do mistério de Jesus que Bento XVI contempla, e que vai ilustrar na meditação sobre as bem-aventuranças, sobretudo com a evocação do rabino que se coloca entre os ouvintes de Jesus e chega à conclusão que a sua novidade não está na doutrina, ou seja, na interpretação das Escrituras, mas sim em si mesmo: Ele é a novidade, e foi a si mesmo que Ele acrescentou à Thora, de tal modo que Ele mesmo é a Thora. Isto vai significar então que o cristianismo é mais do que
uma doutrina ou uma visão do mundo; a essência do cristianismo é a figura mesma de
Cristo, do qual todos os que têm capacidade para escutar são chamados a ser discípulos. Neste sentido, vão as meditações de Bento XVI sobre o Reino de Deus e o Sermão da Montanha, sendo que este nos oferece, na meditação do Papa, em primeiro lugar, uma radiografia de Cristo e, depois, ou concomitantemente, os elementos fundamentais que estruturam o que significa ser discípulo.


4. Não se trata de um acto do Magistério, mesmo se o seu autor é o Papa
O Papa tem o cuidado de dizer que se trata de uma meditação pessoal, e não de um acto do magistério da Igreja, mesmo se é verdade que não se pode deixar de ter presente que se trata de uma obra, cujo autor é precisamente Bento XVI. Aqui está a novidade da obra, de ser o testemunho do Papa agora em primeira pessoa, partilhando com todos os crentes o seu esforço de procura do rosto do Senhor.
Quer dizer que o Papa precisamente como tal não deixa de ser um crente, ou não deixa de
sentir as dificuldades do que significa acreditar, a fadiga do acreditar, na fidelidade e na solidão do acto de fé, que não é a visão. Mesmo se, em virtude do seu ministério petrino, ele tem uma especial assistência do Espírito Santo, como a Igreja acredita e como está expresso no dogma da infalibilidade pontifícia, mesmo nesse ministério, o Santo Padre apresenta-se neste livro, nestas meditações que são a expressão da sua procura do rosto do Senhor, como aquele que vai à frente, mesmo e precisamente no que significa acreditar, e nesta medida também confirma os seus irmãos na fé. Por isso é que ele diz que não é um acto do magistério, o que abre a possibilidade de outras formas de partilhar e confirmar a fé, que não apenas pela autoridade, mas também pelo testemunho, pela fadiga da procura, pela dor da fidelidade que é a vitória do amor sobre o tempo!... Considerado nesta perspectiva, o texto de Bento XVI adquire ainda mais sentido e importância e alcance, porque há-de ser compreendido no quadro da hermenêutica do testemunho.


5. Uma obra aberta segundo o ritmo e o sentir eclesial
As meditações do Papa são essencialmente uma lectio divina, mas que pressupõe que ele confia nos evangelhos, como fonte principal da sua visão da figura de Jesus, o que implicitamente significa que a figura de Jesus ou o rosto do Senhor que ele procura é o mesmo no qual a Igreja acredita e que adora como seu Senhor.
Neste sentido, a obra é uma meditação pessoal, mas é também uma profissão de fé, que convida ao acolhimento e à recepção, e a uma cumplicidade com o leitor, para que se coloque na mesma atitude de procura, de busca e de descoberta, também para adquirir um outro olhar sobre toda a realidade, do homem, do mundo, da Igreja e de Deus.
Se me perguntassem, que parte do livro especialmente recomendaria? Eu pessoalmente tenho especial predilecção por três temas: o conjunto Baptismo-Tentação, porque aí se percebe o alcance mesmo antropológico e político das tentações de Cristo, como o pôr em causa da sua identidade messiânica, mas que n’ Ele estão representadas as tentações de Adão, do Povo de Deus e de cada homem enquanto tal, na sua inevitabilidade transcendental, porque são constitutivas da existência humana enquanto tal que passa por provações que podem pôr em causa o sentido da existência no seu todo e que são, por conseguinte, momentos fortíssimos de crescimento e de amadurecimento, que uma certa mentalidade mundana actual não compreende, para seu mal (capítulos 1 e 2); depois as meditações sobre o reino de Deus e o Sermão da Montanha (capítulos 3 e 4), onde no primeiro (c. 3) não se pode perder a breve observação do Papa sobre o significado do evangelho, que não é necessariamente o mesmo que boa nova ou boa notícia, como às vezes se ouve por aí, e, no segundo (c. 4), as meditações sobre o sermão da montanha, onde se encontra uma autêntica radiografia do mistério de Cristo e do que constitui a
identidade do discípulo; e, finalmente, o comentário ao Pai-Nosso (c. 5), com particular
referência para a meditação sobre a 4 ª petição, o pão-nosso de cada dia. Mas isto é apenas uma sugestão, pois cada leitor há-de seguir o seu caminho, mas que, em
todos os casos, o percorra em companhia do Papa, procurando entrar no espírito com
o qual ele o escreveu e deixar-se surpreender por aquilo que poderá encontrar ou
descobrir!...

José Jacinto Ferreira de Farias, scj

Notas
1 Rapporto sulla fede (Milano-Torino: Paoline 1985).
2 O Sal da Terra (Lisboa: Multinova 1997) e Dio e il Mondo (Milano: San Paolo 2000).
 


comunidades últimas opinião
12/02/2014
O estilo de Deus
12/08/2013
Santos que estejam no mundo, sem ser mundanos
28/03/2013
Meditao em Sexta-feira Santa
14/03/2012
A permanente actualidade da parbola do filho prdigo
21/01/2012
Quando a pessoa degradada a objecto de troca ou de aluguer
11/10/2011
Um corao capaz de escutar
30/12/2010
Com Bento XVI, reaprender as coisas essenciais
03/01/2010
As quatro vindas do Senhor
15/11/2009
Os espaos pblicos so de todos
11/12/2008
o menino que se esconde no pobre

© Sacerdotes do Coração de Jesus - Dehonianos
R. Cidade de Tete, 10   .   1800-129 Lisboa - Portugal   .   Telefone: 218 540 900   .   E-mail: portugal@dehonianos.org
webmaster:
zeferino policarpo   -   zino@dehonianos.org