Em Janeiro respira-se ainda a atmosfera de Natal. Como me vêm à memória os tempos da minha infância quando em Janeiro se faziam as capelas, cantando o que no continente se chamam as janeiras. Eram tempos belos aqueles, em que os vizinhos se encontravam na casa do Menino, rezavam o terço e depois conviviam em longos e animados serões. Hoje, quando já me encontro na encosta descendente da vida, sinto uma certa nostalgia, saudade talvez, desses tempos longínquos que eu vivia com aquele desprendimento de criança, que vivia só para o instante, quase sem passado nem futuro!...
Agora faço os presépios com aquela entrega da criança que fui; recordo-me com clareza de ir às Camarinhas, um vulcão extinto de cuja actividade a minha mãe contava que a sua avó dizia ter vivido, buscar as pedras para delimitar os caminhos, e o musgo, e assim os meus presépios evocam essa imagem, dos prados e dos caminhos que conduzem todos ao Menino. Guardo como relíquia o Menino que sempre vi na redoma do quarto dos meus pais e que na sua cândida nudez me recorda o realismo do mistério da Incarnação, quando, segundo a palavra dos profetas, um Menino nos foi dado, aquele mesmo Menino, que noutros meninos, era depois o mordomo, do Império das crianças, em S. Pedro.
No Natal, celebramos a primeira vinda de Deus-Menino, nascido da Virgem Maria, que não encontrou lugar digno em Belém, e nasceu numa manjedoura. O mundo de então não O quis receber; e o mundo de hoje também não, pois não quer os presépios na cidade, nem a cruz nos espaços públicos. Mas Ele veio, e estabeleceu a sua morada no meio do mundo, e está cá, mesmo que O não queiram receber, é o verdadeiro cidadão do mundo, daquele mundo que Ele veio salvar, e do outro mundo de que será juiz no derradeiro tribunal que julgará a história!
E virá de novo no fim dos tempos, como Rei e como juiz consagrar o triunfo da Verdade e da Justiça. Ele virá na sua segunda vinda para julgar os vivos e os mortos, e será Ele a decidir o que é bem e o que é mal, no seu tribunal da Verdade serão julgadas todas as opiniões e decididos todos os pareceres, mesmo os que não acreditam nem O querem reconhecer; para os crentes será um julgamento de misericórdia; para os descrentes e os que O renegaram, será um julgamento de condenação, dies irae dies illa! Com Deus não se brinca! Muitos transformam Deus em alguém senil, que, como Isaac, não sabe distinguir os seus filhos; de alguém que perdeu o tino, e que somos nós os humanos que Lhe ditamos como deve comportar-se, o que é conveniente ou não ou até O queremos meter numa casa de terceira idade. Que terrível que será esse dia para esta geração que perdeu a noção do temor de Deus e que fará a experiência do terror da perversão da consciência.
Porque Ele já está e renova a sua vinda na Igreja, nos sacramentos, daqueles que são os sinais da vida e da graça e daqueles que celebram o juízo de Deus sobre o pecado e a iniquidade, para os corações humildes que se arrependem. Que terrível será aquele dia da última vinda para esta geração que não acolhe a sua presença, a sua terceira vinda no quotidiano, nos sinais que Ele vai deixando de que está à nossa porta e bate. Que terrível será aquele dia para esta geração adormecida e distraída com as coisas inúteis e fúteis deste tempo do esquecimento do que é essencial. No dia em que o governo aprovou a lei que liberalizava o aborto a terra tremeu em Lisboa; no dia em que o governo aprovou a lei que permite o casamento de pessoas do mesmo sexo, na noite seguinte a terra tremeu de novo, com certo grau de violência. Quem tem ouvidos para ouvir que oiça; quem tem olhos para ver que veja.
Que terrível será o dia da sua quarta vinda, quando vier encontrar-se com cada um de nós no momento da nossa morte. Para sermos julgados de acordo com a verdade que Ele disse, que Ele testemunhou, quando respondeu a Pilatos: Eu vim para dar testemunho da Verdade… Ele que tinha dito: Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida.
Nos temas fracturantes da nossa sociedade, católicos de diversas condições – leigos, religiosos, padres e bispos – opinam, com argumentos mais ou menos ponderados a favor ou contra. Mas o ponto não está aqui em saber se eu estou a favor ou contra, se fulano ou sicrano defende esta ou aquela opinião, mas de perguntarmos qual é o pensar e o querer de Deus no meio disto tudo, o que pensa e quer verdadeiramente o Menino que nos foi dado contemplar neste tempo do Natal, que deu a sua vida por nós na Cruz, que virá para se encontrar com cada um de nós, mesmo com aqueles que defendem a seu próprio favor a razão das medidas fracturantes. O que é que Deus pensa de tudo isto? Será que hoje os católicos em Portugal já não são capazes de responder como S. Pedro ao Sinédrio: importa obedecer antes a Deus do que aos homens? A quem é que servimos? A quem é que desejamos agradar? Quem é que verdadeiramente adoramos e a quem prestamos culto?
Os nossos governantes excedem-se no zelo para legislar; e até chegam a reunir-se em conselho ao domingo, porque os dias da semana já não são suficientes, pelo tanto trabalho que lhes damos! Mas se Deus diz que devemos guardar o domingo – é o terceiro mandamento da lei de Deus – qual será a qualidade das leis emanadas no dia que devia ser exclusivamente de Deus! Não estarão antes com este excessivo zelo a tentar descristianizar também o dia que a Deus pertence, o tempo de Deus, o domingo?
A quarta vinda do Senhor nenhum de nós sabe quando será. Antigamente pedíamos nas ladainhas que Deus nos livrasse de uma morte repentina. Isso peço a Deus, e Ele já me libertou pelo menos duas vezes, talvez para que eu possa ainda recordar-me da seriedade que têm todas as horas nas quais Ele quer connosco encontrar-se e insistir para que estejamos vigilantes, para que, quando Ele vier, não nos encontre adormecidos. E Ele vem continuamente, está a bater insistentemente à nossa porta: não escutamos o seu toque? Não O ouvimos quando Ele por duas vezes mexeu com a cidade de Lisboa e com Portugal inteiro? Já nos tornámos insensíveis e distraídos de tal modo que não reconhecemos os seus sinais?
Em Fátima o Anjo de Portugal e Nossa Senhora convidaram os Pastorinhos a consolar Deus, que nessa altura andava tão triste. Um século depois, pelas mesmas e por outras razões, é preciso que as crianças voltem a escutar este apelo, e não queiramos distraí-las com presentes, como guloseimas ou com mimos, com pífaros ou sacolas!...
José Jacinto Ferreira de Farias, scj