Ainda há pouco celebrámos a memória de S. Martinho, que é importante para nós não apenas por causa das castanhas e do assim dito verão de S. Martinho, mas sobretudo porque a sua vida nos ensina e nos recorda – verdade hoje infelizmente tão esquecida -, que devemos reconhecer nos outros, mas sobretudo nos pobres, a imagem escondida de Jesus Cristo, como fundamento de uma vida em sociedade equilibrada, justa e pacífica.
Mas ocorre-me ainda outro exemplo, esse mais recente, na história da santidade: o beato Pedro Jorge Frassati, um jovem italiano de Turim, que viveu no primeiro quartel do séc. XX (1901-1925). Impressionou-me, na história deste santo, um episódio que os seus biógrafos contam passado na sua infância. Num dia de Inverno, uma pobre da cidade veio com o seu filho, uma criança ainda de colo, pedir esmola a casa dos pais de Pedro Frassati, uma família muito rica. Pedro tinha apenas cinco anos de idade. Viu a pobre mãe e o seu menino, que tinha os pezinhos roxos do frio, por não ter sapatos para calçar. Sem dizer nada, vai ao seu quarto, pega nos seus melhores sapatos, e vai dá-los à pobre mãe para que calce o seu filho. A mãe de Pedro Jorge Frassati ficou tão surpreendida que nem pôde articular palavra. Mas depois de ter despedido a pobre mulher, muito feliz por ter então uns sapatos novos para o seu menino, ralhou com Pedro Jorge, perguntando-lhe: “E não tinhas outros sapatos para dar? Foste mesmo dar-lhe os teus sapatos melhores?”. Ao que Pedro respondeu: “Mas naquele menino eu vi Jesus, e por isso lhe dei os meus melhores sapatos!...” A mãe ficou sem palavras: não era uma senhora muito religiosa; não se preocupava com a educação do seu filho, e o seu marido ainda menos, um diplomata agnóstico, que foi durante algum tempo embaixador em Berlim. Mas aquele Menino, quase por si mesmo, sem outra formação que não a do mestre interior das almas, aprendeu que o essencial da vida de santidade – e ele tinha apenas cinco anos – está em reconhecer a presença escondida do Menino Jesus em cada ser humano, sobretudo nos mais pobres.
Noutro sentido, o mesmo viveram os Pastorinhos, fazendo tudo por amor dos Corações de Jesus e de Maria, muito ofendidos com a insensibilidade dos homens. Do nosso beato Francisco, dizia a Irmã Lúcia que se retirava muitas vezes para a Igreja, a fazer companhia a Jesus escondido!...
Estamos neste mês do Menino, o mês do Natal. Importa viver o mistério do Natal em profundidade, procurando ver em cada homem, no nosso próximo, o sacrário vivo, o presépio vivo onde o Verbo de Deus quer nascer. Só assim os cristãos hão-de marcar a diferença, neste mundo perigoso e cínico em que vivemos, como naquela cena que há dias pude com terror presenciar, de um homem ser agredido, derrubado, com socos e pontapés, na barriga e na cabeça, e abandonado meio-morto no caminho, onde uma multidão de pessoas, jovens especialmente, passava indiferente!... Só o meu pequeno grupo é que fez de bom samaritano… Um dos meus companheiros comentava: que sub-mundo… este não é nosso mundo!... Mas infelizmente é!... Mas que podemos alterar se formos bons samaritanos, se reconhecermos em cada homem, mesmo e sobretudo no mais pobre, a presença escondida de Jesus, que apela à nossa sensibilidade, à nossa atenção e cuidado!...
José Jacinto Ferreira de Farias, scj
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