Tive este ano a oportunidade, que para mim foi na verdade, uma graça providencial, de ir participar num retiro/convívio para sacerdotes, organizado pelo Caminho neocatecumenal, na Domus Galilaeae, uma casa para encontros, situada no monte das Bem-aventuranças, junto do Mar da Galileia.
Para todos os que foram já em peregrinação à Terra Santa, pisar aqueles lugares por onde o Salvador passou é sem dúvida uma vivência única, quase de arrepio, porque tudo aquilo faz parte do nosso imaginário cristão. Visitando e rezando naqueles lugares, é tocante pensar que tudo começou ali.
Houve três lugares cuja visita me emocionou especialmente: a Igreja da Anunciação, em Nazaré; a Igreja do Getsémani, em Jerusalém, e o Santo Sepulcro.
Na Igreja da Anunciação escutámos uma belíssima catequese sobre o mistério da Incarnação e celebrámos a eucaristia naquele espaço, outrora preenchido pelas paredes da Santa Casa, que agora se encontra no Loreto, em Itália. E aquele gruta, a casa de Nossa Senhora, a evocar o momento no qual a Virgem Maria escutou a mensagem divina e respondeu aquele sim, que desfaz o não de Eva, como lembra a meditação patrística e medieval, e tão bem representada em tantas pinturas, que mostram o anjo suspenso no ar, como a sugerir a divina suspensão da respiração, e de toda a humanidade na expectativa da resposta da Virgem ao desígnio de Deus a respeito dela.
O outro momento muito intenso foi a eucaristia celebrada na Igreja do Getsémani, contemplando aquela pedra onde, segundo a tradição, o Senhor, na noite da sua paixão, terá suado sangue, na luta contra a tentação: que se afaste este cálice…, mas que não se faça a minha, mas a Tua vontade, ó Pai, escutamos nos evangelhos. É sem dúvida um dos momentos mais densos e sublimes da história da salvação, e tão importante na espiritualidade cristã, sendo em algumas tradições um dos momentos chave de vivência do carisma e fonte de inspiração para a acção.
Finalmente, o Santo Sepulcro. Ele ali está, quase perdido no meio de todas as estruturas com que ao longo dos séculos a piedade cristã, na pluralidade dos seus ritos, o foi “protegendo”. O sepulcro vazio está ali como um «sinal» daquela hora em que a morte foi vencida, porque Aquele que havia sido crucificado numa elevação poucos metros acima (e onde é possível ainda tocar com a mão o buraco da pedra onde esteve o madeiro vertical da cruz), e cujo corpo havia sido ali colocado, ressuscitou, os restos mortais não se encontram, e quem quiser encontrar o seu corpo, vivo, não morto, deve reconhecê-lo na Igreja, nos sacramentos, nos cristãos, em cada homem, nosso próximo e nosso irmão.
Esse “corpo” que o Senhor, no Cenáculo, havia anunciado que seria entregue, cujo sangue seria derramado, dado como bebida, para a remissão dos pecados.
Em cada ano, a Igreja celebra estes mistérios na Páscoa, e durante o ano ao ritmo de cada domingo, de modo que toda a vida da Igreja decorre como memória deste mistério, cujos sinais históricos é possível encontrar-se ainda hoje, apesar de tudo o que ao longo destes dois mil anos tem acontecido, nos lugares santos.
Nós vivemos desta memória. Como é urgente que os mistérios pascais que neste mês celebrámos sejam para nós uma renovação profunda da mente e do coração, e se transforme em vida, e fermente esta sociedade cheia de problemas e de contradições, talvez porque apressadamente facilmente esqueceu e afastou dela a memória de Deus, e depois vem a lamentar-se, porque se sente abandonada. Porque no princípio, em Belém, não tiveram para Ele lugar na estalagem; em Jerusalém crucificaram-n’O; e uma certa cultura contemporânea, pretensamente laica, não quer os seus sinais nos espaços públicos, com a cumplicidade de tantos de nós que nos envergonhamos de ser o que somos
José Jacinto Ferreira de Farias, scj
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