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A «conversão ecológica» (LS 217) – como pede a encíclica Laudato si’ – reclama o desenvolvimento de um conjunto significativo de «virtudes ecológicas» (LS 88), como atitudes que activam “um cuidado generoso e cheio de ternura” (LS 220). A primeira dessas atitudes virtuosas é a gratidão e gratuidade, que se podem definir como “um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça” (LS 220).

Estamos a sentir muitas dificuldades para actualizar e renovar esta gratidão e gratuidade nas nossas vidas. O nosso narcisismo e auto-suficiência são fortes obstáculos e nem sempre somos capazes de desenvolver a melhor estratégia para os levar de vencida. O testemunho mais eloquente que conheço sobre esta matéria vem do compositor checo Petr Eben (1929-2007) que, na introdução à sua obra Laudes (1964), afirmava que “esta obra funda-se na minha opinião que o nosso século é profundamente ingrato para com as pessoas que nos rodeiam, para com o mundo e a própria vida e, sobretudo, para com o Criador. Por isso, talvez a tarefa mais urgente da arte seja o louvor, senão «as pedras hão-de erguer as suas vozes e falarão»”.

O Pe. Dehon, no Directório Espiritual (1919) que nos deixou escrito, apresenta um capítulo intitulado precisamente “as virtudes da nossa vocação” (DE 156-200). Nesse elenco de 24 virtudes, aparece a “acção de graças” (DE 161). Reconhecendo que o Pe. Dehon não manifesta – nem o podia fazer – uma apurada sensibilidade ecológica, não deixam de ser interessantes algumas passagens deste pequeno capítulo, no qual ele pede que o louvor e a acção de graças sejam uma atitude constante na vida daqueles que abraçam a «vocação dehoniana» nas suas diversas modalidades. De facto, perguntando-se “onde estão aqueles que deveriam agradecer”, ele afirma que “nos esquecemos demasiado de agradecer a Deus, de louvá-l’O e exaltá-l’O por todos os Seus benefícios”, pois “Deus como que nos persegue com os Seus dons, mediante a acção incessante da Sua graça”. Aliás, chama a atenção a frequência com que os verbos “agradecer”, “louvar” e “exaltar” aparecem num texto bastante breve.

A palavra «obrigado» não tem que nos assustar ou meter medo. Pelo contrário, precisamos de estendê-la e universalizá-la, para que nenhum «obrigado» seja silenciado ou fique por dizer, sobretudo aqueles que se dirigem a quem, por permanecer em silêncio, passa muitas vezes desapercebido e esquecido na nossa vida. Uma vida agradecida não só é uma vida mais feliz, mas exprime também uma vivência mais reverente e cuidadosa para com essa dádiva imensa que é a criação.

 

José Domingos Ferreira, scj