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Com o final das férias e o regresso à actividade, recomeçam aquelas correrias que, entretanto, tinham ficado suspensas por algum tempo. As solicitações e as obrigações que se abatem sobre nós são tantas que, em pouco tempo, nos apercebemos que somos como robôs multifunções: executamos um leque alargado de tarefas, previamente programadas e automatizadas pela sua repetição exaustiva.

Nem tudo é desagradável neste processo, pois podemos ser reconhecidos pela grande capacidade de trabalho que evidenciamos e pela capacidade de dar resposta às diversas necessidades que surgem. Não é difícil que nos sintamos importantes… indispensáveis… imprescindíveis… Mas, bem lá no fundo, também podemos sentir que algo não está bem, pois não era assim que queríamos viver.

Por isso, pode acontecer que, passado pouco tempo, suspiremos novamente pelas férias. O trabalho tornou-se muito pesado, as exigências da vida familiar absorveram-nos muito, a saúde ressentiu-se nos momentos de maior stress e a relação com Deus debilitou-se, até cair no esquecimento. A consequência é que a correria tende então a aumentar ainda mais de velocidade e, a dado momento, já não há medo a qualquer radar que a faça abrandar um pouco. Efectivamente, perdemos o controlo sobre a nossa vida.

A este propósito, acho muito interessantes as palavra do papa Francisco, quando diz que “muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem incidência no modo como se trata o ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, reflectir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença «não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada»” (LS 225).

Seria um pouco demagógico repetir que precisamos de abrandar o nosso ritmo de vida e tornar a existência mais simples. De facto, pode não ser possível fazê-lo, porque vivemos na era da velocidade, onde tudo tem de ser rápido ou extremamente rápido. Aliás, todas as dimensões da vida humana, que não vão de mãos dadas com esta acelerada vida quotidiana, parecem ter deixado de interessar a muita gente.

A verdade, porém, é que há processos que precisam de tempo para se desenvolverem, que é aquilo que dizemos não ter… Uma sábia gestão do tempo é algo mais que a distribuição dos minutos e segundos pelos vários afazeres diários! Aprender a escutar-se e conhecer-se a si mesmo é uma conquista que reclama dedicação, esforço e… tempo. No final, fica a pergunta: onde queremos investir o nosso tempo?

José Domingos Ferreira, scj