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A espiritualidade dehoniana, sumariamente acima exposta, afunda as suas raízes na bimilenária tradição da Igreja. Mas tem expoentes na Escola Francesa de Espiritualidade, iniciada por Pedro Bérulle (+1629).

Profundamente cristocêntrica, a espiritualidade da Escola Francesa só queria conhecer “Jesus Cristo, e este crucificado” (1Cor 2, 2). Um dos discípulos de Bérulle, Olier (+1657), contempla Cristo como o primeiro oblato-reparador. O sacerdote é essencialmente destinado a celebrar a eucaristia, isto é, a oferecer Cristo ao Pai, e a oferecer-se com ele. Olier vive a oblação reparadora e emite o voto de servidão ou de vítima. Quer, assim, participar no “estado” do Ecce Venio de Cristo e no Ecce Ancilla de Maria, isto é, na disponibilidade amorosa de Jesus e de Maria para com Deus. Será o mesmo espírito que animará o Padre Dehon e o levará a emitir o voto de vítima, ou de oblação, ao fundar a Congregação, em junho de 1878.

João Eudes (+1680) introduziu na espiritualidade da Escola Francesa o culto ao Coração de Jesus e emitiu, também ele, o voto de vítima. A fonte da sua vida espiritual e do seu intenso apostolado social e missionário é a oblação de amor.

O culto do Coração de Cristo nasceu nos mosteiros medievais como caminho exigente de santidade. Os místicos, ao contemplarem o Crucificado e as suas chagas, fixaram-se na do Lado, e penetraram até ao Coração trespassado do Salvador. Aí descobriram a razão mais profunda da paixão e morte de Jesus, que não foram os nossos pecados ou a maldade dos judeus, mas o seu amor por nós. O Padre Dehon escreve sobre o Crucificado de Lado aberto comparando-o ao livro escrito por dentro e por fora de que fala o Apocalipse (5, 1). No livro aberto que é Jesus Crucificado, por fora estão escritos os sofrimentos: os chicotes, os espinhos, os cravos, a lança, o sangue e os escarros. Mas, se pela contemplação, penetrarmos no Coração rasgado do Senhor, descobrimos a razão profunda de tudo: o amor imenso e inesgotável pelo Pai e por nós. Realizar essa contemplação e chegar a esse conhecimento é, para o Padre Dehon, a graça dos amigos do Coração de Jesus.

O culto ao Coração de Jesus foi popularizado, a partir do século XVII, por Santa Margarida Maria Alacoque (+1690), que lhe juntou as caraterísticas da oblação reparadora e da imolação, até então reservada a alguns fiéis. Além disso, a santa provocou uma mudança que teve grande influência nos séculos seguintes: a passagem da contemplação às práticas devocionais, tais como a missa e comunhão reparadora, as primeiras sextas-feiras do mês, a hora santa, a adoração eucarística, a celebração do mês de junho e da festa do Coração de Jesus. O Padre Dehon, apesar de contemplativo, irá viver e recomendar essas práticas devocionais porque, sem elas, corre-se o risco de esquecer a contemplação. Mas dará à espiritualidade do Coração de Jesus uma perspetiva mais global: a união de toda a nossa vida à “oblação reparadora de Cristo” (Cst. 6), e não apenas o cumprimento de algumas práticas devocionais. É o ideal que propõe aos seus seguidores: fazer de toda a vida “uma missa permanente” (Cst. 5). Outro importante contributo dado pelo Fundador à espiritualidade do Coração de Jesus foi abri-la à dimensão social. O culto iniciado na intimidade do coração e da comunidade religiosa, ou do grupo de fiéis leigos, há de chegar ao empenhamento missionário e social em favor de quem precisa.

Para melhor compreendermos as origens da espiritualidade vitimal do Padre Dehon, convém ainda lembrar as Irmãs Vítimas do Sagrado Coração de Marselha. Estas religiosas, longe de serem psicopatas ou intimistas, davam um maravilhoso exemplo de amor a Deus e ao próximo, dedicando-se ao apostolado entre os pobres, marginalizados e pecadores, nomeadamente entre as jovens abandonadas e entre os doentes de cólera. Outros mestres de espírito oitocentistas contribuíram para divulgar a espiritualidade da vida de união a Nosso Senhor Jesus Cristo no seu estado de vítima, assumida pelo Fundador. Não podemos esquecer a decisiva influência das Servas do Coração de Jesus, já referidas, sobretudo a Madre Maria do Coração de Jesus (+1917). Influenciado por elas, o Padre Dehon, inicialmente preocupado com renovação intelectual do clero, passa a insistir na reparação e na santificação do mesmo clero.

O mesmo espírito de reparação levou o Padre Dehon a voltar-se para o sonho do “reino social do Coração de Jesus”, uma sociedade caraterizada pela justiça e pela caridade. O Fundador queria cooperar com Cristo na “reparação e no reino do seu Coração” (NHV, XIV, 73). “Nosso Senhor pede o mesmo abandono… para a reparação e para o reino do seu Coração” (ibidem, 77). Falar de reino do Coração de Jesus, para o Padre Dehon, é falar da presença de Cristo como caridade. Trata-se de uma presença nas almas, como fonte de vida nova e santidade, e nas sociedades como força de renovação em ordem ao que hoje chamamos a Civilização do Amor. O Padre Dehon não usou essa expressão, mas escreveu, falou e trabalhou por uma sociedade caraterizada pela justiça e pela caridade. Segundo os ensinamentos dos últimos papas, a civilização do amor consiste exatamente nisso: uma civilização caraterizada pela justiça e pela caridade. Estamos, pois, perante uma conceção espiritual que é também social, e engloba toda a humanidade. Não se trata de uma utopia, porque, para Leão Dehon, pressupõe permanente confronto dos problemas e condições concretas da sociedade com os princípios evangélicos da justiça e da caridade. O culto ao Coração de Jesus é, para o Padre Dehon, uma força criativa e inovadora permanente, que leva ao povo, que deve ser promovido e salvo, remetendo-o para o Coração de Cristo, porque só Ele é o Salvador. Esta ligação entre vida espiritual e empenhamento social e político são uma intuição estimulante e inovadora do Padre Dehon que o levou a estar atento aos sinais dos tempos e fazer várias “conversões” e “roturas” na sua ação pastoral e mesmo nas suas convicções pessoais: passagem de um “apostolado espiritual” a um “apostolado social”, de monárquico a republicano e democrata, naturalmente democrata cristão, porque, como ele escreve, “a democracia ou será cristã ou não existirá” (RSC, III, agosto 1903, 375). Democracia cristã, aqui, é uma corrente de pensamento, sem qualquer conotação político-partidária. De facto, Leão Dehon foi um dos “padres democratas” do século XIX. Mas, quando a democracia cristã se tornou um partido político, o Padre Dehon retirou-se desse movimento, a que chegou a presidir.