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As narrações bíblicas assinalam que «a existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra». Deste modo, afirma-se que nenhum ser humano é uma ilha e ninguém vive para si mesmo. Não há lugar para a auto-referencialidade nem para uma hipocondria espiritual, atitude de quem só se ocupa e preocupa consigo e com o seu bem-estar.

A Bíblia acrescenta que «estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado». Esta fractura, que levou à destruição daquela harmonia primordial entre o Criador, a humanidade e a criação, teve a sua origem na pretensão humana de «ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecermo-nos como criaturas limitadas» (LS 66). Com toda a naturalidade, ao querer ocupar o lugar de Deus e esquecer que Ele é o criador, acabamos «por adorar outros poderes do mundo, ou colocamo-nos no lugar do Senhor, chegando à pretensão de espezinhar sem limites a realidade criada por Ele» (LS 75). A história da humanidade de todos os tempos tem assistido à repetição contínua e sempre renovada desta tentativa humana de usurpação do trono divino. Parece que temos dificuldades em aceitar e reconhecer que Deus é o senhor da criação e, a cada passo, apresentamos substitutos…

O pecado acarreta a distorção «do mandato de dominar a terra (Gn 1,28) e de a cultivar e guardar (Gn 2,15)», de modo que «a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (Gn 3,17-19)» (LS 66). A narrativa de Caim e Abel (Gn 4,9-12) mostra ainda que «o descuido no compromisso de cultivar e manter um correcto relacionamento com o próximo, relativamente a quem sou devedor da minha solicitude e custódia, destrói o relacionamento interior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra. Quando todas estas relações são negligenciadas, quando a justiça deixa de habitar na terra, a Bíblia diz-nos que toda a vida está em perigo» (LS 70).

O pecado não é apenas o pecado das origens nem é uma realidade distante de nós, mas «manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza» (LS 66). À luz destas palavras do papa Francisco, podemos entender melhor o sentido daquelas outras: «o Pe. Dehon reconhece, na recusa do amor de Cristo, a causa mais profunda desta miséria humana» (Constituições SCJ, 4).

Em suma, o caminho para superar o pecado e configurar uma adequada consciência ecológica passa por reconhecermos definitivamente que «não somos Deus» e que «a terra existe antes de nós e foi-nos dada» (LS 67). Talvez isto tenha algo a ver com «reparar o pecado e a falta de amor» como exigência que brota da vocação a ser «profetas do amor e servidores da reconciliação» (Constituições SCJ, 7).

 

José Domingos Ferreira, scj