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Um espírito analítico tende a separar e decompor em partes mais pequenas aquilo que na realidade está profundamente unido e que só dessa forma pode ser cabalmente compreendido. Escreve o papa Francisco: “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental” (LS 139). Estas palavras constituem uma variação daquele tema inicial que, na encíclica Laudato si’, soa assim: «tudo está inter-relacionado» (LS 70).

Uma atitude bipolar e extremista, que opte unilateralmente por um dos pratos da balança e se esqueça do outro, não parece ser o caminho para alcançar resultados satisfatórios. Dedicar-se unicamente ao cuidado da natureza sem se interessar pelo destino dos mais pobres comporta o sério risco de ser pura «maquilhagem ecológica», enquanto entregar-se com entusiasmo ao cuidado dos mais carenciados, sem intervir, de alguma maneira, nesse meio ambiente, dificilmente conduzirá a soluções que realmente mudem a vida das pessoas.

No entanto, quero aqui chamar a atenção para uma implicação, que me parece do maior interesse, daquela citação do papa Francisco que fiz ao princípio deste texto. Mergulhando naquilo que se costuma chamar Doutrina Social da Igreja ou Pensamento Social Cristão, uma «única e complexa crise sócio-ambiental» significa que aquela «questão social», iniciada com Leão XIII e a Rerum Novarum, em 1891, se transforma, com a encíclica Laudato si’, em 2015, em «questão eco-social» ou «questão sócio-ambiental».

À primeira vista, até pode parecer uma simples questão de nomenclatura, mas parece-me que aqui se joga muito mais que isso. Aliás, quero recordar que o P. Leão Dehon (1843-1925) abraçou de alma e coração esta «questão social», convertendo-se num importante apóstolo social na sua conturbada época. É suficiente recordar o seu influente “Manual Social Cristão”(1894), obra amplamente editada e traduzida, para nos darmos conta do lugar relevante que esta problemática tinha para ele.

Deste modo, parece-me que, com a encíclica Laudato si’, se abre uma janela de actualização e expansão do carisma que o mesmo Leão Dehon deixou à Igreja e que se tem consubstanciado, ao longo de todos estes anos, no Instituto que ele fundou em 1878. A consciência deste vínculo entre questões ambientais e questões sociais e humanas pode constituir uma oportunidade de ouro para um impulso evangelizador renovado e fresco.

José Domingos Ferreira, scj