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ANO A
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Tema da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Quem é esse Deus em quem acreditamos? Qual é a sua essência? Como é que o podemos definir? A liturgia deste dia diz-nos que “Deus é amor”. Convida-nos a contemplar a bondade, a ternura e a misericórdia de Deus, a deixarmo-nos envolver por essa dinâmica de amor, a viver “no amor” a nossa relação com Deus e com os irmãos.
A primeira leitura é uma catequese sobre essa história de amor que une Jahwéh a Israel. Ensina que foi o amor – amor gratuito, incondicional, eterno – que levou Deus a eleger Israel, a libertá-lo da opressão, a fazer com ele uma Aliança, a derramar sobre ele a sua misericórdia em tantos momentos concretos da história… Diante da intensidade do amor de Deus, Israel não pode ficar de braços cruzados: o Povo é convidado a comprometer-se com Jahwéh e a viver de acordo com os seus mandamentos.
A segunda leitura define, numa frase lapidar, a essência de Deus: “Deus é amor”. Esse “amor” manifesta-se, de forma concreta, clara e inequívoca em Jesus Cristo, o Filho de Deus que Se tornou um de nós para nos manifestar – até à morte na cruz – o amor do Pai. Quem quiser “conhecer” Deus, permanecer em Deus ou viver em comunhão com Deus, tem de acolher a proposta de Jesus, despir-se do egoísmo, do orgulho e da arrogância e amar Deus e os irmãos.
O Evangelho garante-nos que esse Deus que é amor tem um projecto de salvação e de vida eterna para oferecer a todos os homens. A proposta de Deus dirige-se especialmente aos pequenos, aos humildes, aos oprimidos, aos excluídos, aos que jazem em situações intoleráveis de miséria e de sofrimento: esses são não só os mais necessitados, mas também os mais disponíveis para acolher os dons de Deus. Só quem acolhe essa proposta e segue Jesus poderá viver como filho de Deus, em comunhão com Ele.

LEITURA I – Deut 7,6-11

Leitura do Livro do Deuteronómio

Moisés falou ao povo nestes termos:
“Tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus;
foi a ti que o Senhor teu Deus escolheu, para seres o seu povo
entre todos os povos que estão sobre a face da terra.
Se o Senhor Se prendeu a vós e vos escolheu,
não foi por serdes o mais numeroso de todos os povos,
uma vez que sois o menor de todos eles.
Mas foi porque o Senhor vos ama
e quer ser fiel ao juramento feito aos vossos pais,
que a sua mão poderosa vos fez sair
e vos libertou da casa da escravidão,
do poder do faraó, rei do Egipto.
Reconhece, portanto,
que o Senhor teu Deus é o verdadeiro Deus,
um Deus leal, que por mil gerações
é fiel à sua aliança e à sua benevolência
para com aqueles que amam e observam os seus mandamentos.
Mas Ele pune directamente os seus inimigos,
fazendo-os perecer
e inflingindo sem demora o castigo merecido
àquele que O odeia.
Guardarás, portanto, os mandamentos, leis e preceitos
que hoje te mando pôr em prática”.

AMBIENTE

O Livro do Deuteronómio é aquele “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18º ano do reinado de Josias (622 a.C., cf. 2 Re 22). Neste livro, os teólogos deuteronomistas – originários do norte (Israel) mas, entretanto, refugiados no sul (Judá) após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios – apresentam os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém); esse Deus amou e elegeu Israel e fez com Ele uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um único Povo, a propriedade pessoal de Jahwéh (portanto, não têm qualquer sentido as questões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão).
Literariamente, o livro apresenta-se como um conjunto de três discursos de Moisés, pronunciados nas planícies de Moab, na margem oriental do rio Jordão, às portas da Terra Prometida. Pressentindo a proximidade da sua morte, Moisés deixa ao Povo uma espécie de “testamento espiritual”: lembra aos hebreus os compromissos assumidos para com Deus e convida-os a renovar a sua aliança com Jahwéh.
O texto que hoje nos é proposto faz parte do segundo discurso de Moisés (cf. Dt 4,44-28,68). É um discurso longo, que ocupa toda a parte central do Livro do Deuteronómio. Consta de uma introdução (cf. Dt 4,44-11,32), uma secção legal (cf. Dt 12-25) e uma conclusão (cf. Dt 26-28).
A introdução ao segundo discurso de Moisés apresenta-nos duas classes de textos. Uns são relatos históricos, que têm como centro os acontecimentos do Horeb e a Aliança entre Deus e o seu Povo (cf. Dt 5,1-6,3; Dt 9,7b-10,11); outros são passagens de tipo parenético, nas quais se exorta o Povo a ser fiel ao Senhor, à Aliança e a essa Lei que deve ser a norma de vida na Terra Prometida (cf. Dt 6,4-9,7a; 10,12-11,32).
O nosso texto integra o bloco parenético que vai de Dt 6,4 a 9,7a. Depois de definir Jahwéh como o único Deus de Israel (cf. Dt 6,4), o autor deuteronomista define Israel como um Povo consagrado ao Senhor (cf. Dt 7,6).

MENSAGEM

Dizer que Israel é “um Povo consagrado ao Senhor” significa dizer que Israel é um Povo “santo”, “separado”, “reservado para o serviço de Jahwéh”. A santidade é uma nota constitutiva da essência de Deus; quando se aplica a mesma noção ao Povo, significa que este entrou na esfera divina, que passou a viver na órbita de Deus, que foi separado do mundo profano para pertencer exclusivamente a Deus. Fica, no entanto, claro no texto que o único responsável pela eleição de Israel é Deus. Não foi Israel que se consagrou ao serviço de Deus, ou que se elevou até Deus; foi Deus que, por sua iniciativa, escolheu Israel no meio de todos os outros povos, fez dele um Povo especial e colocou-o ao seu serviço.
Porque é que Jahwéh elegeu precisamente a Israel e não a qualquer outro Povo? Segundo a catequese do autor deuteronomista, a eleição divina de Israel não se baseia na sua grandeza ou poder, mas no amor gratuito de Deus e na sua fidelidade ao juramento feito aos antepassados do Povo. A eleição não é fruto de uma conquista humana, mas é sempre pura graça de Deus. Toca-se aqui o mistério do amor insondável e gratuito de Deus para com o seu Povo, amor estranho e inexplicável, mas inquestionável e eterno.
De resto, a eleição divina de Israel não é um piedoso desejo do Povo, ou conversa abstracta de teólogos; mas é uma realidade que Israel pôde confirmar na sua história… A libertação do Egipto, a derrota do poder opressor do faraó, a fuga do Povo oprimido para a segurança libertadora do deserto confirmam a eleição de Israel e o amor de Deus pelo seu Povo.
Qual deve ser a resposta de Israel ao amor de Deus?
Antes de mais, Israel deve reconhecer que Jahwéh “é que é Deus”. Israel é convidado a prescindir de outros deuses, de outras referências, e a construir toda a sua existência à volta de Jahwéh, do seu amor e da sua bondade (vers. 9-10).
Depois, a resposta do Povo ao amor de Deus deve traduzir-se na observância dos “mandamentos, leis e preceitos” que Jahwéh propõe ao seu Povo (vers. 11). Os mandamentos são os sinais que permitem a Israel manter-se em comunhão com Deus, como Povo “santo” consagrado ao Senhor.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão deste texto pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

• Esta catequese deuteronomista põe em relevo, antes de mais, o amor de Deus pelo seu Povo. O catequista contempla abismado esse amor gratuito, incondicional, inexplicável, ilógico, irracional e sugere aos seus concidadãos: “somos um Povo com muita sorte. O nosso Deus – esse Deus que nos escolheu e que nos chamou à comunhão com Ele – tem um coração que ama e que derrama incondicionalmente a sua bondade e a sua ternura sobre cada um de nós. Não interessam os nossos merecimentos, as nossas qualidades ou defeitos, o nosso peso na comunidade internacional: só interessa o amor de Deus”. Neste dia do Coração de Jesus, somos convidados a redescobrir este amor e a espantar-nos com a sua gratuidade e eternidade.

• Israel descobre o amor e a ternura de Deus, não a partir de reflexões abstractas, mas a partir das vicissitudes da sua caminhada histórica. O amor de Deus pelos seus filhos não é uma história cor-de-rosa de príncipes e de princesas que “casaram e viveram muito felizes”, mas uma realidade com que topamos em cada passo do caminho da vida. Manifesta-se concretamente naqueles mil e um gestos de ternura, de amizade, de solidariedade, de serviço que todos os dias testemunhamos e que acendem uma luzinha de esperança no coração dos sofredores, dos pobres, dos abandonados, dos excluídos… Por um lado, somos convidados a detectar a presença do amor de Deus na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam e que são os instrumentos de que Deus se serve para nos oferecer a sua bondade, a sua ternura, o seu afecto; por outro lado, somos convidados a ser, nós próprios, testemunhas vivas do amor de Deus e a manifestar, em gestos concretos de bondade, de partilha, de solidariedade, a solicitude de Deus pela humanidade.

• O autor deuteronomista convida os seus concidadãos a responder com amor ao amor de Deus. Como é que o homem traduz, em termos concretos, o seu amor a Deus? Em primeiro lugar, é preciso que Deus ocupe na vida do homem o lugar que merece. Deus não pode ser uma figura descartável ou de segundo plano: tem de ser o centro de referência, o vector fundamental à volta do qual se estrutura toda a vida do homem. Em segundo lugar, é preciso que o homem observe “os mandamentos, as leis e os preceitos” que Deus propôs ao homem. Viver na lógica dos valores de Deus é reconhecer a preocupação e o amor de Deus pelos homens, e é acolher a proposta de Deus como a única proposta válida de realização, de felicidade, de salvação.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

Refrão: A bondade do Senhor permanece eternamente
sobre aqueles que O amam.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.

O Senhor faz justiça
e defende o direito de todos os oprimidos.
Revelou a Moisés os seus caminhos
e aos filhos de Israel os seus prodígios.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas.

LEITURA II – 1 Jo 4,7-16

Leitura da Primeira Epístola de São João

Caríssimos:
Amemo-nos uns aos outros,
porque o amor vem de Deus;
e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.
Quem não ama não conhece a Deus,
porque Deus é amor.
Assim se manifestou o amor de Deus para connosco:
Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito,
para que vivamos por Ele.
Nisto consiste o amor:
não fomos nós que amámos a Deus,
mas foi Ele que nos amou, e enviou o seu Filho
como vítima de expiação pelos nossos pecados.
Caríssimos, se Deus nos amou assim,
também nós devemos amar-nos uns aos outros.
Ninguém jamais viu a Deus.
Se nos amarmos uns aos outros,
Deus permanece em nós
e em nós o seu amor é perfeito.
Nisto conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós:
porque nos deu o seu Espírito.
E nós vimos e damos testemunho
de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo.
Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus,
Deus permanece nele e ele em Deus.
Nós conhecemos o amor que Deus nos tem
e acreditámos no seu amor.
Deus é amor:
quem permanece no amor permanece em Deus,
e Deus permanece nele.

AMBIENTE

A opinião tradicional atribui esta carta ao apóstolo João… Embora essa não seja uma hipótese a descartar sem mais, também não é uma hipótese que se imponha de forma categórica. O que podemos dizer, sem margem para dúvidas, é que a Primeira Carta”de João” foi escrita por alguém que pertence ao mundo joânico. Alguns autores falam do autor como um discípulo do apóstolo João, de um membro da sua escola, ou de um porta-voz dessa comunidade onde João viveu e onde testemunhou o Evangelho de Jesus.
A carta não tem destinatário, nem faz qualquer referência a pessoas ou a comunidades concretas. Provavelmente, dirige-se a um grupo de Igrejas da Ásia Menor. Trata-se, sem dúvida, de comunidades que vivem uma grave crise, devido à difusão de doutrinas heréticas, incompatíveis com a revelação cristã.
Quem são os pregadores dessas doutrinas heréticas? Não sabemos, em concreto. Provavelmente, trata-se de um movimento judaizante pré-gnóstico, constituído por pessoas que pretendem “conhecer a Deus” e viver em comunhão com Ele, mas que se recusam a ver em Jesus o Messias (cf. 1 Jo 2,22) e o Filho de Deus (cf. 1 Jo 4,15) que o Pai enviou ao mundo e que incarnou no meio dos homens (cf. 1 Jo 4,2). Afirmam não ter pecado (cf. 1 Jo 1,8.10) e não guardam os mandamentos (cf. 1 Jo 2,4), em particular o mandamento do amor fraterno (cf. 1 Jo 2,9). O autor da carta chama-lhes “anti-cristos” (1 Jo 2,18.22; 4,3) e “profetas da mentira” (1 Jo 4,1). Até há pouco tempo pertenceram à comunidade (cf. 1 Jo 2,19); mas saíram e agora procuram desencaminhar os crentes que permaneceram fiéis (cf. 1 Jo 2,26; 3,7), apresentando-lhes uma doutrina que não é a de Cristo.
O grande objectivo do autor destas cartas não é polemizar contra estes pregadores heréticos; mas é advertir os cristãos contra as suas pretensões. Estamos numa fase da história da Igreja em que a preocupação fundamental dos líderes das comunidades – mais do que anunciar o Evangelho aos pagãos – é manter a comunidade na fidelidade ao Evangelho, face aos desafios e aos ataques das heresias.
Para isso, o autor, vai apresentar aos crentes os critérios da vida cristã autêntica, isto é, o caminho da verdadeira comunhão com Deus. A primeira parte da carta (cf. 1 Jo 1,5-2,27) apresenta Deus como “luz” que ilumina os caminhos dos homens; a segunda (cf. 1 Jo 2,28-4,6) propõe aos crentes que vivam em comunhão com Deus (cf. 1 Jo 2,28-4,6); a terceira (cf. Jo 4,7-5,12) mostra como se vive em comunhão com Deus e apresenta, nesse sentido, os dois grandes pilares da vida cristã – a fé e o amor.
O texto que nos é proposto é precisamente o início da terceira parte da carta.

MENSAGEM

O autor vai, pois, dizer aos crentes que o amor é um elemento essencial da identidade cristã. É o amor que distingue aqueles que são de Deus daqueles que não são de Deus.
O ponto de partida é a constatação de que Deus é amor (vers. 8.16). O que é que isso significa? Significa que o amor é a essência de Deus, a sua característica mais acentuada, a sua actividade mais específica. Significa que, ao relacionar-se com os homens, Deus não pode deixar de tocá-los com a sua bondade, a sua ternura, a sua misericórdia.
Dizer que Deus é amor não significa, portanto, falar de uma qualidade abstracta de Deus, mas falar de acções concretas de Deus em favor do homem. O amor de Deus manifesta-se de forma clara, insofismável, inequívoca, no envio de Jesus, o Filho, que se tornou um homem como nós, que partilhou a nossa humanidade, que nos ensinou a viver a vida de Deus e, levando ao extremo o seu amor pelos homens, morreu na cruz. A cruz manifesta a “qualidade” do amor de Deus pelos homens: amor gratuito, incondicional, de entrega total, de dom radical, que transforma os homens e os projecta para a vida nova da felicidade sem fim.
Ora, se Deus é amor, aqueles que nasceram de Deus e que são de Deus devem viver no amor. “Se Deus nos amou, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (vers. 11). Para um cristão, não chega descobrir que Deus o ama e ficar de braços cruzados a contemplar, com beatitude, esse amor. É que o amor de Deus transforma o coração do homem, insere-o numa dinâmica de vida nova, convida-o a rejeitar o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência e a viver na comunhão com Deus e com os irmãos. Como o amor que Deus tem por nós, também o nosso amor pelos irmãos deve ser gratuito, incondicional, total, até à morte.
Viver no amor é escolher Deus, permanecer em Deus, viver em comunhão com Deus. Quando mantemos essa relação com Deus, o Espírito reside em nós e opera, por nosso intermédio, obras grandiosas em favor do homem – obras que dão testemunho do amor de Deus.
Em conclusão: a esses pregadores heréticos para quem é possível “conhecer Deus”, sem aceitar Jesus Cristo como o Filho de Deus incarnado e sem amar os irmãos, o autor da Primeira Carta de João diz: Deus é amor e Jesus Cristo, o Filho de Deus que veio ao nosso encontro para nos apresentar o projecto salvador do Pai, é a manifestação clara e concreta do amor do Pai; aceitar Jesus Cristo e segui-l’O insere-nos numa lógica de amor gratuito, absoluto, incondicional, que transforma o nosso coração, que nos liberta do egoísmo e que nos leva a amar os nossos irmãos… Quem vive nesta dinâmica, “conhece” Deus e vive em comunhão com Ele; quem não vive pode ter todas as pretensões que quiser de “conhecer” a Deus, mas está muito longe d’Ele.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes linhas:

• Quem é Deus? Como é que Ele se relaciona com o homem? Ele preocupa-Se connosco, ou vive totalmente alheado desses homens e mulheres que criou? O autor da Primeira Carta de João responde a todas estas questões com uma afirmação concludente e definitiva: “Deus é amor”. O que é que isso significa? Significa que ao relacionar-Se com os homens, Deus não pode deixar de tocá-los com a sua ternura, a sua bondade, a sua misericórdia. Esse amor manifesta-se de forma concreta, real, histórica, em Jesus Cristo – o Deus que desceu até nós, que vestiu a nossa humanidade, que partilhou os nossos sentimentos, que lutou contra as injustiças que magoavam os homens e que morreu na cruz pedindo ao Pai perdão para os seus assassinos. “Deus é amor”: interiorizamos suficientemente esta revelação, deixamos que ela marque a nossa vida e condicione as nossas opções? A consciência de que Deus nos ama potencia em nós a serenidade, o optimismo, a esperança? O Deus que anunciamos é esse Deus que é amor e que derrama a sua bondade, ternura e misericórdia sobre todos os seus filhos?

• “Se Deus nos amou, também nós devemos amar-nos uns aos outros” – diz o autor da Primeira Carta de João. “Ser profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo” (Constituições dos Sacerdotes do Coração de Jesus). Numa e noutra afirmação está a sugestão de que ser objecto do amor de Deus nos insere numa dinâmica de amor que exige o testemunho, a vivência, a partilha do amor com aqueles que a todo o momento se cruzam connosco nos caminhos do mundo. Procuramos ser coerentes com este programa? Aqueles com quem nos cruzamos todos os dias encontram no nosso testemunho um sinal vivo desse amor de Deus que nos enche o coração?

• A consciência do amor de Deus dá-nos a coragem de enfrentar o mundo e de, no seguimento de Jesus, fazer da vida um dom de amor. O cristão não teme o confronto com a injustiça, com a perseguição, com a morte: tudo isso é secundário, perante o Deus que nos ama e que nos desafia a amar sem medida. Enfrente quem enfrentar, o que importa ao crente é ser, no mundo, um sinal vivo do amor de Deus.

ALELUIA – Mt 11,29ab

Aleluia. Aleluia.

Tomai o meu jugo sobre vós, diz o Senhor,
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração.

EVANGELHO – Mt 11,25-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus exclamou:
“Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Sim, Pai, eu te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo,
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.

AMBIENTE

O Evangelho que hoje nos é proposto faz parte de uma secção em que Mateus apresenta as reacções e atitudes que as várias pessoas e grupos assumem frente a Jesus e à sua proposta de “Reino” (cf. Mt 11,2-12,50).
Nos versículos que antecedem este episódio (cf. Mt 11,20-24), Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), porque foram testemunhas da sua proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes. Estavam demasiado cheios de si próprios, instalados nas suas certezas, calcificados nos seus preconceitos e não aceitavam questionar-se, a fim de abrir o coração à novidade de Deus.
Agora, Jesus manifesta-Se convicto de que essa proposta, rejeitada pelos habitantes das cidades do lago, encontrará acolhimento entre os pobres e marginalizados, desiludidos com a religião “oficial” e que anseiam pela libertação que Deus tem para lhes oferecer.
O nosso texto consta de três “sentenças” que, provavelmente, foram pronunciados em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta. Dois desses “ditos” (cf. Mt 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc 10,21-22) e devem provir de um documento que reuniu os “ditos” de Jesus e que tanto Mateus como Lucas utilizaram na composição dos seus Evangelhos. O terceiro (cf. Mt 11,28-30) é exclusivo de Mateus e deve provir de uma fonte própria.

MENSAGEM

A primeira sentença (cf. Mt 11,25-26) é uma oração de louvor que Jesus dirige ao Pai, porque Ele escondeu “estas coisas” aos “sábios e inteligentes” e as revelou aos “pequeninos”.
Os “sábios e inteligentes” são certamente esses “fariseus” e “doutores da Lei” que absolutizavam a Lei, que se consideravam justos e dignos de salvação porque cumpriam escrupulosamente a Lei, que não estavam dispostos a deixar pôr em causa esse sistema religioso em que se tinham instalado e que – na sua perspectiva – lhes garantia automaticamente a salvação. Os “pequeninos” são os discípulos – os primeiros a responder positivamente à oferta do “Reino”; e são também esses pobres e marginalizados (os doentes, os publicanos, as mulheres de má vida, o “povo da terra”) que Jesus encontrava todos os dias pelos caminhos da Galileia, considerados malditos pela Lei, mas que acolhiam, com alegria e entusiasmo, a proposta libertadora de Jesus.
A segunda sentença (cf. Mt 11,27) relaciona-se com a anterior e explica o que é que foi escondido aos “sábios e inteligentes” e revelado aos “pequeninos”. Trata-se, nem mais nem menos, do “conhecimento” (quer dizer, uma “experiência profunda e íntima”) de Deus.
Os “sábios e inteligentes” (fariseus e doutores da Lei) estavam convencidos de que o conhecimento da Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era uma espécie de “linha directa” para Deus, através da qual eles ficavam a conhecer Deus, a sua vontade, os seus projectos para o mundo a para os homens; por isso, apresentavam-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.
Jesus deixa claro que quem quiser fazer uma experiência profunda e íntima de Deus tem de aceitar Jesus e segui-l’O. Ele é “o Filho” e só Ele tem uma experiência profunda de intimidade e de comunhão com o Pai. Quem rejeitar Jesus não poderá “conhecer” Deus: quando muito, encontrará imagens distorcidas de Deus e aplicá-las-á depois para julgar o mundo e os homens. Mas quem aceitar Jesus e O seguir, aprenderá a viver em comunhão com Deus, na obediência total aos seus projectos e na aceitação incondicional dos seus planos.
A terceira sentença (cf. Mt 11,28-30) é um convite a ir ao encontro de Jesus e a aceitar a sua proposta: “vinde a Mim”; “tomai sobre vós o meu jugo…”.
Entre os fariseus do tempo de Jesus, a imagem do “jugo” era aplicada à Lei de Deus (cf. Si 6,24-30; 51,26-27) – a suprema norma de vida. Para os fariseus, por exemplo, a Lei não era um “jugo” pesado, mas um “jugo” glorioso, que devia ser carregado com alegria.
Na realidade, tratava-se de um “jugo” pesadíssimo. A impossibilidade de cumprir, no dia a dia, os 613 mandamentos da Lei escrita e oral criava consciências pesadas e atormentadas. Os crentes, incapazes de estar em regra com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da salvação. A Lei aprisionava em lugar de libertar e afastava os homens de Deus em lugar de os conduzir para a comunhão com Deus.
Jesus veio libertar o homem da escravidão da Lei. A sua proposta de libertação plena dirige-se aos doentes (na perspectiva da teologia oficial, vítimas de um castigo de Deus), aos pecadores (os publicanos, as mulheres de má vida, todos aqueles que tinham publicamente comportamentos política, social ou religiosamente incorrectos), ao povo simples do país (que, pela dureza da vida que levava, não podia cumprir escrupulosamente todos os ritos da Lei), a todos aqueles que a Lei exclui e amaldiçoa. Jesus garante-lhes que Deus não os exclui nem amaldiçoa e convida-os a integrar o mundo novo do “Reino”. É nessa nova dinâmica proposta por Jesus que eles encontrarão a alegria e a felicidade que a Lei recusa dar-lhes.
A proposta do “Reino” será uma proposta reservada a uma classe determinada (os pobres, os débeis, os marginalizados), em detrimento de outra (os ricos, os poderosos, os da “situação”)? Não. A proposta do “Reino” destina-se a todos os homens e mulheres, sem excepção… No entanto, são os pobres e débeis, aqueles que já desesperaram do socorro humano que têm o coração mais disponível para acolher a proposta de Jesus. Os outros (os ricos, os poderosos) estão demasiado cheios de si próprios, dos seus interesses, dos seus esquemas organizados, para aceitar arriscar na novidade de Deus.
Acolhendo a proposta de Jesus e seguindo-O, os pobres e oprimidos encontrarão o Pai, tornar-se-ão “filhos de Deus” e descobrirão a vida plena, a salvação definitiva, a felicidade total.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:

• Por detrás das palavras de Jesus que o Evangelho de hoje nos apresenta, está o cenário do projecto de salvação que Deus tem para os homens e para o mundo. Deus ama os homens com um amor sem limites e quer que eles cheguem à vida eterna, à felicidade sem fim; por isso, enviou ao mundo o próprio Filho que, com o sacrifício da sua própria vida, anunciou o Reino e indicou aos homens um caminho de liberdade e de vida plena. Para concretizar esse projecto do Pai, Jesus lutou contra tudo aquilo que provocava opressão e escravidão e anunciou a todos os homens – com palavras e com gestos – o amor, a misericórdia, a bondade de Deus. Esse projecto de amor toca especialmente os pequenos, os pobres, os excluídos, os desprezados, os que sofrem, pois são eles que mais necessitam de salvação. Aqueles que centram a sua vida na espiritualidade do Coração de Jesus – como os Sacerdotes do Coração de Jesus, fundados pelo Padre Leão Dehon – devem ser, em razão da sua vocação e carisma, testemunhas privilegiadas desse amor de Deus, materializado em Jesus e no mistério do seu Coração trespassado. São fiéis à sua vocação e ao seu carisma e dão testemunho – com gestos, com palavras, com a vida – do amor de Deus por todos os homens?

• Não podemos, no entanto, ser testemunhas, sem fazermos nós próprios a experiência de Deus e do seu amor. Como fazemos uma experiência íntima e profunda de Deus e do seu amor? O Evangelho responde: através de Jesus. Jesus é “o Filho” que “conhece” o Pai; só quem segue Jesus e procura viver como Ele (no cumprimento total dos planos de Deus) pode chegar à comunhão com o Pai. Há crentes que, por terem feito o “curso completo” da catequese, por irem à missa ao domingo ou por rezarem fielmente a “Liturgia das Horas”, acham que conhecem Deus (isto é, que têm com Ele uma relação estreita de intimidade e de comunhão)… Atenção: só “conhece” Deus quem é simples e humilde e está disposto a seguir Jesus no caminho da entrega a Deus e da doação da vida aos homens. É no seguimento de Jesus – e só aí – que nos tornamos “filhos” de Deus.

• O amor de Deus dirige-se, de forma especial, aos pequenos, aos marginalizados, aos necessitados de salvação. Os pobres e débeis que encontramos nas ruas das nossas cidades ou à porta das igrejas das nossas paróquias encontram em nós – profetas do amor – a solicitude maternal e paternal de Deus? Apesar do imenso trabalho, do cansaço, do “stress”, dos problemas que nos incomodam, somos capazes de “perder” tempo com os pequenos, de ter disponibilidade para acolher e escutar, de “gastar” um sorriso com esses excluídos, oprimidos, sofredores, que encontramos todos os dias e para os quais temos a responsabilidade de tornar real o amor de Deus?

• Tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo significa lutar objectivamente contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento… Inquieto-me realmente, frente a tudo aquilo que desfeia o mundo? Pactuo (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou esforço-me activamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus?

• As nossas comunidades são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos e confrades, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança?

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org – www.dehonianos.pt