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Lectio

Primeira leitura: Hebreus 1, 1-6

1Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. 2Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. 3Este Filho, que é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância e que tudo sustenta com a sua palavra poderosa, depois de ter realizado a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas, 4tão superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança. 5Com efeito, a qual dos anjos disse Deus alguma vez: Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei? E ainda: Eu serei para Ele um Pai e Ele será para mim um Filho? 6E de novo, quando introduz o Primogénito no mundo, diz: Adorem-no todos os anjos de Deus.

A revelação de Deus na história humana, cujo centro é o Filho, aconteceu de modo paulatino e progressivo. Antes da vinda do Filho, Deus tinha-se revelado em inúmeros pequenos e grandes acontecimentos. Revelara-se de muitas maneiras: sonhos, visões, experiências, epifanias na natureza e no coração dos homens. Revelara-se por meio de homens como Abraão e Moisés. A vinda de Cristo inaugura uma nova época. Com Ele, acabou a revelação parcial e fragmentária do Antigo Testamento. Cristo fala-nos de Deus, sendo Filho do mesmo Deus. A sua revelação é plena e completa. Ensina-nos que o Deus dos Pais é único, mas não solitário; na perfeita comunhão das pessoas é eterno Pai de um Filho cujo mistério se tornou presente no meio de nós «nestes dias» (v. 2). O Autor da carta esboça-lhe sinteticamente os traços: o Filho é criador com o Pai, revela-O plenamente e participa da sua soberania (vv. 1ss.). N´Ele mora o esplendor de Deus que, desse modo, se torna perceptível ao homem (v. 3ª): o templo era um símbolo desta realidade que se cumpre em Jesus. Verdadeiro templo, Jesus é também o verdadeiro sacerdote que «que realizou a purificação dos pecados» (v. 3), pela oferta sacrificial de si mesmo. É esse o culto definitivo, que abre o acesso a Deus, à direita do qual o Filho está sentado (v. 3b). Apesar de ter assumido a nossa natureza (v. 6ª), Cristo é muito superior aos anjos. Tem efectivamente uma relação de origem absolutamente única com Deus (v. 5), que O constituiu primogénito de toda a criatura (v. 6; cf. Gl 1, 15-18) e lhe deu o seu próprio «nome»: Senhor, Kýrios (v. 4; cf. Fl 2, 9-11).
Com esta argumentação, o Autor pretendia defender os cristãos provenientes do judaísmo da apostasia a que os podia levar a saudade dos ritos do templo de Jerusalém ou o perigo de iminentes perseguições.

Evangelho: Mc 1, 14-20

Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, 15dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.» 16Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 17E disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens.» 18Deixando logo as redes, seguiram-no. 19Um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco a consertar as redes, e logo os chamou. 20E eles deixaram no barco seu pai Zebedeu com os assalariados e partiram com Ele.

A liturgia do tempo comum, põe-nos a caminho com Jesus, na progressiva descoberta do seu mistério e da nossa própria e verdadeira identidade. Na linha dos profetas, e de João Baptista, convida à conversão: «arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (v. 15). Estas palavras mostram que Jesus exige ao discípulo uma atitude nova e radical. Vão na mesma linha as duas cenas de vocação. Os discípulos são chamados a um novo êxodo, ao caminho inaudito do evangelho: «Vinde comigo»; «Deixando logo as redes, seguiram-no». Todo este dinamismo parte do olhar e do chamamento de Jesus. Não parte de uma iniciativa voluntarista, moralista ou generosa do homem. Não é o homem que parte ao encontro de Deus. É Deus que vem ao encontro do homem. A Encarnação torna possível o seguimento, o caminhar com Jesus, o Filho de Deus feito homem. O seguimento de Jesus implica «deixar» algumas pessoas, algumas coisas, alguns projectos pessoais, o que sempre requer algum sacrifício. Mas é possível, porque o olhar de Jesus precede a tomada dessas decisões. Jesus que passa, vê e chama, é a estrutura que possibilita abandonar tudo e segui-l´O. Jesus vem ao nosso encontro para mudar o nosso destino. Passa pela dia a dia dos homens, vê com um olhar cheio de amor e conhecimento, convida, promete uma nova condição. Inaugura o tempo favorável (kairòs) em que Deus submete as forças que reduzem a vida do homem (v. 15ª).

Meditatio

O magnífico exórdio da Carta aos Hebreus apresenta-nos Cristo como Aquele que herdou um nome bem diferente do nome dos Anjos. Que nome é esse? À primeira vista, tendo em conta a liturgia hodierna, parece ser o de Filho de Deus. Mas, se tivermos em consideração a primeira parte da carta, não é apenas esse. É verdade que Cristo é Filho de Deus. Mas aqui trata-se de Cristo glorificado na glorificação pascal. Filho de Deus, e glorificado no seu mistério pascal, Cristo é também irmão dos homens, como veremos amanhã. Como Filho é superior aos Anjos; como irmão dos homens é menor que os Anjos. Como Filho está mais próximo de Deus; como irmão está mais próximo de nós. Estes dois aspectos podem sintetizar-se no nome de Sumo Sacerdote, perfeito Mediador, por meio do qual entramos na intimidade da Trindade. O seu nome é, portanto, misterioso, profundo, motivo de esperança e de confiança. Por meio do seu Filho, diz a carta, «Deus falou-nos, nestes dias, que são os últimos» (v. 2).
No começo do tempo comum, a Igreja põe diante de nós uma palavra de Jesus: «Vinde comigo» (v. 17). Esta palavra obtém uma dupla resposta: «seguiram-no» (v. 20). É o caso de Simão e André, de Tiago e de João. Também nós somos convidados a seguir Jesus durante este ano. Somos chamados a segui-lo na humildade, no sacrifício e na renúncia, mas, sobretudo, a estar com Ele, a partilhar a sua vida e a sua missão. É o mais importante. Para seguir Jesus, temos de renunciar a escolher, nós mesmos, o nosso caminho, o que muitas vezes implica sofrimento, porque exige abandonar o que mais espontaneamente nos agrada. Custa renunciar à orientação da nossa vida, conforme nos apraz, para aceitarmos ser conduzidos por Outro, talvez para onde não queiramos. Já S. Pedro ouviu da boca de Jesus: «outro te há-de levar para onde não queres» (Jo 21, 18). Mas há também o aspecto positivo da resposta ao convite «Segui-me» que é estar com Jesus, não estar sós, não estar nas trevas mas na luz, porque Jesus disse: «Quem me
segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12).
«Seguir» Jesus é condição para viver no amor. Quem marca o seu próprio caminho não vive no amor, mas na solidão. Quem, pelo contrário, segue Jesus, está sempre com Ele, seu irmão e Senhor, e experimenta uma grande alegria.
Reflictamos: «Quem estou a seguir, agora»? Peçamos ao Senhor que acenda em nós o desejo de O seguirmos toda a nossa vida. Os profetas antigos anunciaram as coisas de Deus, mas hoje, é pelo Filho que Deus nos fala. É Ele a Palavra poderosa e criadora. É Ele quem nos revela o Deus que jamais alguém viu. É a sua imagem perfeita, a sua glória irradiante, o seu Filho muito amado.
O nosso seguimento de Cristo há-de ser feito segundo o nosso carisma dehoniano. Nos números 19 a 21 das Constituições, um verdadeiro hino cristológico, e no seu contexto (nn. 16-25) o seguimento de Cristo, típico da vida religiosa (cf. PC 2b), é expresso com uma terminologia especificamente dehoniana: unidos a Cristo no seu amor e na sua oblação ao Pai (p. II, parágrafo 3); união com Cristo, no seu amor pelo Pai e pelos homens (n. 17); descobrir, cada vez mais, a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração (n. 17); na disponibilidade e no amor para com todos… viveremos a nossa união a Cristo (n. 18); O Pai… constituiu-O Senhor, Coração da humanidade e do mundo (n. 19); Com S. João, vemos no Lado aberto do Crucificado (n. 21); Contemplando o Coração de Cristo, somos fortalecidos na nossa vocação (n. 21); Oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (n. 22); A reparação… acolhimento do Espírito… resposta ao amor de Cristo por nós… comunhão no seu amor pelo Pai… cooperação com a sua obra redentora… (n. 23); Ele nos chama a viver a nossa vocação reparadora, como estímulo do nosso apostolado… (n. 23).

Oratio

Senhor Jesus, Tu és o Filho eterno do Pai, o resplendor da sua majestade. Ilumina-nos com um raio da tua luz, para que possamos ver-Te presente no meio de nós. Tu, que és a Palavra, a Boa Nova enviada pelo Pai, dá-nos a graça de escutarmos com fé o Evangelho que pode transformar a nossa vida. Tu, que foste elevado acima dos anjos, Tu que vieste para meio dos homens procurar irmãos, faz com que acolhamos o convite a seguir-Te para a casa do Pai. Tu, que hoje, nos ofereces mais uma ocasião de graça, faz com que nos deixemos purificar dos nossos pecados, e decidamos firmemente seguir-Te, único caminho para a Vida. Amen.

Contemplatio

Sim, Deus não se envergonha de nos chamar seus irmãos. S. Paulo exprime abundantemente a sua admiração sobre este assunto, nos primeiros capítulos da sua carta aos Hebreus. «Outrora, diz, Deus falou aos nossos pais pelos profetas, mas nos nossos dias foi pelo seu próprio Filho, que criou o mundo com ele e que o fez herdeiro de todas as coisas. Ele é o esplendor da sua glória e imagem da sua substância; tudo sustém pelo poder da sua palavra, e depois de nos ter purificado dos nossos pecados, sentou-se no mais alto dos céus, à direita da Majestade divina, sendo também elevado acima dos anjos que o seu nome comporta, porque quem é o anjo ao qual Deus tenha alguma vez dito: Vós sois meu Filho, hoje vos gerei, e ainda: serei o seu Pai e ele será meu Filho?… A Escritura diz dos anjos que Deus os fez seus ministros, mas diz ao Filho de Deus: o vosso trono, ó Deus, será um trono eterno… E, noutro lugar, reconhecendo-o como Criador de todas as coisas, ela diz-lhe: Senhor, criastes a terra desde o começo do mundo… Também, quem é o anjo ao qual o Senhor tenha dito: Sentai-vos à minha direita até que eu tenha reduzido os vossos inimigos a servir de escabelo?… «Entretanto o seu Filho adorável, Deus tornou-o por um pouco de tempo inferior aos anjos, tornando-o passível e mortal, mas em seguida coroou-o de glória e de honra. Era digno de Deus que, para conduzir à glória os seus filhos, consumisse pelos sofrimentos aquele de entre eles que devia ser o autor da sua salvação. Porque o Salvador e os resgatados são da mesma raça humana e não se envergonha de os chamar seus irmãos…». Tal é o magnífico ensino de S. Paulo. O hóspede do sacrário é nosso irmão, um irmão amoroso, que se sacrificou por nós, como haveríamos de hesitar em ir dizer-lhe o nosso amor? (Leão Dehon, OSP 3, p. 652s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra
«Quem me segue, terá a luz da vida» (Jo 8, 12).