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Lectio

Primeira leitura: Hebreus 10, 11-18

11Todo o sacerdote da antiga aliança se apresenta diariamente para oferecer o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem apagar os pecados. 12Cristo, porém, depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus, 13esperando, por último, que os seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés. 14De facto, com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados. 15É o que o Espírito Santo também nos atesta. De facto, depois disse: 16Esta é a aliança que estabelecerei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: ‘Porei as minhas leis nos seus corações e gravá-las-ei nas suas mentes; 17e não mais me recordarei dos seus pecados nem das suas iniquidades.’ 18Ora, onde há perdão dos pecados, já não há necessidade de oferenda pelos pecados.

As reflexões do autor continuam centradas na superioridade do sacerdócio e do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios oferecidos pelo sacerdócio de Aarão. Dirigindo-se a judeo-cristãos que passam por um momento de crise e de saudade do antigo culto, o autor estabelece uma relação directa entre os sacerdotes do templo e Cristo. Os primeiros apresentam-se submetidos a uma permanente e vã repetição de ritos que não chegam a purificar as consciências e a libertar do pecado. São sacrifícios externos, apenas sombra do verdadeiro sacrifício. Ergue-se diante deles a figura majestosa de Cristo que, tendo oferecido «uma só vez» a sua vida em obediência ao Pai, está «agora» na sua presença e «sentado» à sua direita, à espera que amadureçam todos os frutos da obra de salvação realizada. Agora está aberto, e assim permanece para sempre, o acesso ao verdadeiro «Santos dos santos». Assim, segundo o autor da Carta, realiza-se a profecia de Jeremias (31, 33ss.) sobre a «nova aliança»: Deus escreveu a sua lei no coração do homem e perdoou os seus pecados. Agora, cada homem é potencialmente filho de Deus, no Filho muito amado. A Igreja, ao oferecer todos os dias o sacrifício eucarístico, não repete o evento da paixão-morte de Jesus, mas renova para todo os homens, cada dia, aquele único sacrifício. Assim, oferece a cada um a possibilidade de entrar livremente em comunhão vital com Cristo e tornar-se membro vivo do seu corpo místico.

Evangelho: Mc 4, 1-20

Naquele tempo, 1Jesus, começou a ensinar De novo à beira-mar. Uma enorme multidão vem agrupar-se junto dele e, por isso, sobe para um barco e senta-se nele, no mar, ficando a multidão em terra, junto ao mar. 2Ensinava-lhes muitas coisas em parábolas e dizia nos seus ensinamentos: 3«Escutai: o semeador saiu a semear. 4Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram-na. 5Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra e logo brotou, por não ter profundidade de terra; 6mas, quando o sol se ergueu, foi queimada e, por não ter raiz, secou. 7Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, sufocaram-na, e não deu fruto. 8Outra caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta e a cem por um.» 9E dizia: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.» 10Ao ficar só, os que o rodeavam, juntamente com os Doze, perguntaram-lhe o sentido da parábola. 11Respondeu: «A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus; mas, aos que estão de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, 12para que ao olhar, olhem e não vejam, ao ouvir, oiçam e não compreendam, não vão eles converter-se e ser perdoados.» 13E acrescentou: «Não compreendeis esta parábola? Como compreendereis então todas as outras parábolas? 14O semeador semeia a palavra. 15Os que estão ao longo do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; e, mal a ouvem, chega Satanás e tira a palavra semeada neles. 16Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso, são aqueles que, ao ouvirem a palavra, logo a recebem com alegria, 17mas não têm raiz em si próprios, são inconstantes e, quando surge a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, logo desfalecem. 18Outros há que recebem a semente entre espinhos; esses ouvem a palavra, 19mas os cuidados do mundo, a sedução das riquezas e as restantes ambições entram neles e sufocam a palavra, que fica infrutífera. 20Aqueles que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra, a recebem, dão fruto e produzem a trinta, a sessenta e a cem por um.»

O reino de Deus é proclamado pela palavra. Marcos, na secção que hoje abre, oferece-nos uma teologia da palavra do reino. Jesus começa a falar «em parábolas». Era o método usado pelos rabinos. As parábolas são «histórias» aparentemente simples, mas com um elemento-surpresa e uma conclusão inesperada que convidam a procurar um segundo significado, para além do imediato.
A parábola começa e termina com dois imperativos: «Escutai» (v. ). Em sentido bíblico, «escutai» significa «obedecei», isto é, dai a vossa adesão (ob-audire). Jesus quer entrar em relação viva com as pessoas a quem se dirige. Começa por centrar a atenção dos ouvintes na generosa sementeira. Mas logo a centra na semente. Vem, depois, a tipologia dos terrenos que recebem a semente. Há um evidente exagero ao falar da «boa terra». A imagem da colheita sugere o fim dos tempos. A parábola, ao fim e ao cabo, diz-nos que o Messias está próximo e descreve a abundância de graça do Reino messiânico.
No diálogo com «os que o rodeavam», a semente é claramente identificada com a Palavra, e os terrenos correspondem às diferentes reacções suscitadas pela pregação dos apóstolos. Jesus veio realizar a missão de semear a Palavra. Semeou com generosidade, movido pelo excessivo amor que tudo crê, também que o deserto há-de florescer. Assim nos faz compreender também que a Palavra deve ser pregada a todos, sem desânimo, sem medo de fracassar. A seu tempo dará fruto.

Meditatio

O mistério de Cristo é o mistério de uma natureza humana «tornada perfeita» por meio do sofrimento: «Convinha que aquele por quem e para quem existem todas as coisas, querendo levar muitos filhos à glória, levasse à perfeição, por meio dos sofrimentos, o autor da sua salvação» (Heb 2, 10). Depois desta afirmação, o autor descreve os sofrimentos de Cristo e conclui: Jesus «tornado perfeito, tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna, tendo sido proclamado por Deus Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec» (Heb 5, 9-10). Pode parecer-nos estranho aplicar a Cristo a expressão «tornar perfeito» que, no Antigo Testamento, só é usado em referência à consagração dos sacerdotes, cujas mã
os, e toda a sua pessoa, hão-de ser tornadas perfeitas para oferecer a Deus o sacrifico. Cristo foi transformado pelo seu sacrifício para se tornar o sacerdote absolutamente perfeito.
Mas a consagração sacerdotal de Cristo, obtida no seu sacrifício, vale para Ele, mas também para nós: «com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados» (v. 14). Aqui está a grande novidade: o autor aplica aos cristãos o mesmo verbo que aplicou acerca de Cristo «tornar perfeito». Cristo recebe a consagração sacerdotal e, ao mesmo tempo, confere-a a nós. Com o seu sacrifício, Cristo tornou-nos, também a nós, capazes de nos apresentar a Deus em atitude sacerdotal, apresentando ofertas. Por isso, graças ao sacrifico de Cristo, podemos aproximar-nos com toda a confiança diante de Deus, entrar no santuário mais secreto.
Na afirmação: «com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados» (v. 14), podemos distinguir dois aspectos: somos verdadeiramente consagrados a Deus e podemos oferecer o sacrifício; a nossa santificação é apenas um começo que exige desenvolvimento, crescimento: «tornou perfeitos para sempre os que são santificados» (v. 14). A santificação recebida no baptismo há-de desenvolver-se cada dia, aplicando à nossa pessoa o sacrifício de Cristo, mas também revivendo-o, de modo especial, nos nossos próprios sofrimentos e tribulações.
A presença misteriosa do cristão em Cristo morto e ressuscitado é expressa por Paulo com a simples expressão «en Christo» (in Christo) usado 164 vezes nas suas cartas, com diferentes matizes. Na Primeira Carta a Timóteo fala do mistério de Cristo como o grande mistério da piedade (3, 16). Deste mistério da piedade todo o baptizado participa: «Com uma só oferta (sacrifício, oblação), (Cristo) tornou perfeitos para sempre os que foram santificados» (Heb 10, 14; cf. 5, 9). A espiritualidade oblativa dehoniana é uma espiritualidade tipicamente baptismal (cf. Cst n. 13). A nossa missão dehoniana impele-nos a ser testemunhas desta espiritualidade baptismal com a nossa vida e com a nossa palavra junto dos irmãos cristãos.
O sacerdócio de Cristo não é um sacerdócio clerical, mas laical (cf. Heb 5, 6.10). Se todo o cristão participa do sacerdócio de Cristo é preciso desclericalizar o sacerdócio. Com isto não queremos confundir o sacerdócio universal com o sacerdócio ministerial; mas sem o primeiro, não existe o segundo. A função essencial do sacerdote é «oferecer». Não há sacerdócio sem uma vítima para oferecer. Jesus é a vítima do Seu sacerdócio (cf. Heb 5, 7-10). E é mesmo a sua atitude oblativa que constitui a essência do Seu sacerdócio (cf. Heb 10, 5-18). É o «Ecce venio», o «eis-me aqui!» (Heb 10, 7). As nossas Constituições afirmam: «Para o Padre Dehon, o Ecce Venio (Heb 10,7) define a atitude fundamental da nossa vida» (Cst 58; cf. n. 6). O Oblato-Sacerdote do Coração de Jesus, tal como Cristo, deve oferecer a si mesmo, no seu dia a dia (cf. Lc 9, 23). E, pela acção transformadora do Espírito Santo, todas as suas acções, mesmo as mais humildes, são qualificadas como sacerdotais e sacrificiais.

Oratio

Ó Pai, que estás nos céus, nós Te adoramos e damos graças, porque em Cristo nos revelaste o mistério do teu amor e nos chamaste a ser santos e imaculados pela caridade. Do seu Coração trespassado obtivemos a vida e o perdão dos pecados. Nessa fonte de água viva fomos consagrados sacerdotes do teu amor. Unidos a Jesus, renovamos a oferta da nossa vida pelo advento do teu Reino. Nós Te apresentamos a nossa castidade, a nossa pobreza e a nossa obediência, com a nossa vida fraterna e o nosso apostolado, para que, unidas à dos irmãos, nos obtenham a plenitude da tua misericórdia. Pai Santo, faz de nós um sacrifício perene para louvor da tua glória. Ámen.

Contemplatio

Nosso Senhor, depois do ouro e do incenso, pede a mirra… São os sofrimentos, seja qual for o seu nome e venham donde vierem, que devem ser suportados em espírito de puro amor, por amor e com amor, em espírito de reparação e de expiação, em união com os sofrimentos de Nosso Senhor. Têm então um grande valor e uma grande eficácia, por pequenos que sejam em si mesmos e mesmo que não dêem nas vistas. Assim, portanto, os três dons, são um coração para amar, um corpo para sofrer, uma vontade para ser sacrificada e em tudo submetida à vontade divina. Nosso Senhor não deu ele próprio o exemplo mais perfeito deste tríplice dom para com o seu Pai? Onde é que é possível encontrar-se um coração que tenha amado mais puramente e mais generosamente que o do nosso Salvador, o Coração da vítima do amor? Quem há que mais dolorosamente tenha sofrido? E por quem? E porquê? E a sua vontade não era a do seu Pai celeste! Ele recordou-o muitas vezes no Evangelho. Recordemo-nos somente do seu Ecce Venio, que deve ser a máxima favorita dos amigos do seu Coração, esta palavra que deve estar em cada instante sobre os seus lábios, mas ainda mais nos seus corações. Nesta palavra estão contidos os três sacrifícios que resumem toda a sua vocação, a sua missão. «Meu Deus, destes-me um corpo para ser sacrificado, para sofrer, um coração para amar e para sofrer também, uma vontade para ser imolada como a mais preciosa vítima e a mais agradável a Deus». Aí está o que deve ser o sacrifício oferecido cada dia ao Cordeiro santo e imaculado e com ele ao seu Pai. Esta era também a disposição que Maria exprimia com o seu Ecce ancilla. Ela abandonava-se ao amor divino e estava pronta a tudo sacrificar à divina vontade. (Leão Dehon, OSP 3, p. 33s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Um coração para amar, um corpo para sofrer, uma vontade para ser oferecida»
(Leão Dehon, OSP 3, p. 33)».