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Lectio

Primeira leitura: 2 Coríntios 1, 18-22

Irmãos, Deus é testemunha de que a nossa palavra dirigida a vós não é «sim» e «não.» 19Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo, aquele que foi por nós anunciado entre vós, por mim, por Silvano e por Timóteo, não foi um «sim» e um «não», mas unicamente um «sim.» 20Nele todas as promessas de Deus se tornaram «sim» e é por isso que, graças a Ele, nós podemos dizer o «ámen» para glória de Deus. 21Aquele que nos confirma juntamente convosco em Cristo e nos dá a unção é Deus, 22Ele que nos marcou com um selo e colocou em nossos corações o penhor do Espírito.

No contexto de um resumo autobiográfico, Paulo evoca factos recentes conhecidos pelos Coríntios e reivindica a rectidão e a honestidade do seu comportamento em toda a parte e, sobretudo, na comunidade de Corinto. O refrão «sim» e «não» parece agradar a Paulo que verosimilmente o aprendeu de Jesus: «Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não» (Mt 5, 37; cf Tg 5, 12).
Paulo é um homem decidido e corajoso, mas não arrogante ou soberbo. Se fala de si, é porque a isso o move o mistério que Deus lhe confiou. Não precisa de ser recomendado aos Coríntios. Foi Deus que o fez apóstolo: «apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus» (2 Cor 2, 1). Paulo tem consciência da “unção” recebida, do “selo” com que foi marcado e do “penhor do Espírito” que lhe foi dado (cf. vv 21-22). O ministério apostólico, que lhe foi confiado, é superior ao de Moisés. É da grandeza do ministério que decorre, para os apóstolos, o direito de falarem com franqueza e autoridade.

Evangelho: Mateus 5, 13-16

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 13«Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens. 14Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. 16Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.»

Quem vive a nova lei das Bem-aventuranças, proclamada por Jesus Cristo, o novo Moisés, torna-se sal e luz do mundo. Os dois provérbios parabólicos, do sal e da luz, definem a vida e missão dos discípulos, em contraste com a dos fariseus e pagãos: «Vós sois o sal da terra … Vós sois a luz do mundo». O sal dá sabor aos alimentos, e ainda é usado para evitar a sua corrupção. O sal também era usado na confecção dos sacrifícios (Lv 2, 13) e, portanto, assumia um papel «consacratório» e, se perdesse a capacidade de salgar, era «pisado pelos homens», num gesto dessacralizante. O sal, finalmente, também lembra a sabedoria (Mc 9, 50): devemos condimentar com ele o nosso falar (Cl 4, 6).
Os discípulos são «luz do mundo», tal como Cristo, que é a fonte da luz (Jo 8, 12). Não se acende uma luz «para a colocar debaixo do alqueire» (cf. Mc 4, 21), caso contrário, apaga-se, como acontece quando se coloca o apagador sobre uma vela.
«Sal da terra… luz do mundo: a missão dos discípulos tem um horizonte cósmico, planetário.

Meditatio

As leituras de hoje podem levar-nos a meditar sobre a fidelidade. «Vós sois o sal da terra», diz o Senhor. O sal deve manter-se fiel a si mesmo, e salgar. Também o discípulo de Cristo deve ser fiel à sua condição de filho de Deus, para impedir que o mundo, que tende à corrupção, apodreça. «Vós sois a luz do mundo»: uma luz acesa não deve apagar-se, mas iluminar «a todos os que estão em casa».
Paulo responde àqueles que o criticam e julgam inconstante, e afirma a sua fidelidade a Deus: «Deus é testemunha de que a nossa palavra dirigida a vós não é «sim» e «não» (v. 18). Deus é constante e permanece constante em tudo o que faz. Jamais desanima perante os obstáculos que se levantam contra a sua acção. Procura o bem que planeou, e ama com absoluta fidelidade: Deus é fiel. Deus não é “sim” e “não”. Em Jesus, foi “sim”. O que Jesus nos pede – «brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu » – já Ele mesmo o fez. Filho do Pai, glorificou-O sendo o “sim” de Deus. Jesus pôs o “sim” em todas as promessas de Deus, que nele foram plenamente realizadas. Jesus foi “sim” fazendo sempre a vontade do Pai: «faço sempre aquilo que lhe agrada» (Jo 8, 29). Por isso, podemos e devemos apoiar-nos nele com segurança, pois somos homens inconstantes, que encontram sempre razões para serem infiéis. Deus, pelo contrário, ama-nos sempre, usa de misericórdia para connosco sempre, e sempre nos apoia nas provações.
Acolhamos a fidelidade de Deus, cujo pensamento nos enche de alegria. A nossa fidelidade, como pessoas e como comunidades, exige uma intensa vida de oração. O mesmo se diga da fecundidade do nosso apostolado: «Reconhecemos que da oração assídua dependem a fidelidade de cada um e das nossas comunidades, bem como a fecundidade do nosso apostolado» (Cst 76). Peçamos ao Senhor a graça de fortalecer a nossa fidelidade para com Ele, para que as nossas iniciativas apostólicas sejam fecundas e todos vejam as nossas boas obras e O glorifiquem.

Oratio

Nós Te damos graças, Senhor, porque, pela palavra de Jesus, teu Filho, nos encorajas a tornar visível nesta terra, com as nossas boas obras, a tua glória. Tu és o Pai que está nos céus, és amor e misericórdia, e iluminas-nos com a tua Palavra revelada. Tu enches de alegria aqueles que amam o teu nome. Defende-nos da indiferença e do cinzentismo, da ambiguidade, da imperfeição no serviço do Evangelho. Faz-nos sal que dê sabor e luz que brilhe, neste mundo insípido e mergulhado em trevas. Que as nossas preces, unidas às de Cristo, levem ao teu coração de Pai o nosso “ámen”, o nosso “sim”. Amen.

Contemplatio

S. Paulo foi uma vítima sempre imolada pela glória de Deus e a salvação das almas. Nosso Senhor tinha dito: «Mostrar-lhe-ei tudo o que terá de sofrer pelo meu nome» (Act 1, 16). Sabia-se vítima. Dizia: «Não quero gloriar-me senão na cruz de Jesus. – Levo no meu corpo os seus estigmas» (Gl 6). «Gastar-me-ei e gastarei tudo pela salvação das vossas almas» (2Cor 12, 15). Enumera na sua segunda carta aos Coríntios tudo o que sofreu por Cristo: foi flagelado pelos Judeus; por três vezes foi flagelado e apedrejado três
vezes. Três vezes naufragado; passou um dia e uma noite no fundo do mar. Sofreu a fome, a sede, o frio, a nudez. Deu a fórmula do puro amor quando disse: «Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo pela glória de Deus» (1Cor 10, 31). Finalmente, morreu por Cristo como desejava, feliz por dar a sua vida por aquele que morreu por nós. S. Paulo tinha eminentemente o espírito da devoção ao Sagrado Coração. (Leão Dehon, OSP4, p. 707s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Ámen para glória de Deus» (2 Cor 1, 20).