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Lectio

Primeira leitura: Colossenses 1, 1-8

Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, 2aos irmãos em Cristo, santos e fiéis, que vivem em Colossos: a vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai. 3Damos graças a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas orações que continuamente fazemos por vós, 4desde que ouvimos falar da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos, 5por causa da esperança que vos está reservada nos Céus. Dela ouvistes falar outrora pela palavra da verdade, o Evangelho 6que chegou até vós. Como em todo o mundo, também entre vós ele tem produzido frutos e progredido, desde o dia em que o recebestes e, em verdade, tomastes conhecimento da graça de Deus. 7Assim o aprendestes de Epafras, servo como nós, ele que é um fiel servidor de Cristo ao vosso serviço 8e que nos informou do vosso amor no Espírito.

A cidade de Colossos ficava situada na Frígia, 200 quilómetros a leste de Éfeso. Parece certo que Paulo nunca passou por essa cidade. Era uma comunidade predominantemente formada por cristãos de origem pagã. Mas também havia cristãos provenientes da diáspora judaica. O Apóstolo escreve-lhes de Roma, onde se encontrava em prisão domiciliária, por volta da Primavera do ano 63. A carta é motivada pela ameaça de sincretismo, com elementos de origem paga e de origem judaica, que pendia sobre aquela fervorosa comunidade. Havia quem queria impor uma espécie de gnose baseada em elementos do mundo (2, 8.20) e sobre as potências cósmicas (2, 8.10.15), bem como sobre a observância minuciosa de práticas judaicas referentes à circuncisão e ao uso de alimentos.
Como Colossos não era uma comunidade fundada por Paulo, o Apóstolo serve-se de intermediários, a começar por Epafras, apóstolo da região e fundador da comunidade (v. 7). Apesar disso, o Apóstolo dirige-se aos Colossenses com um tom de solicitude e de afecto. Nos vv. 3-8, encontramos a mais longa acção de graças de todo o Novo Testamento, que resume toda a economia da salvação, que tem origem na vontade do Pai, se realiza na pessoa do Senhor Jesus, e se comunica através da obra evangelizadora, conduzindo os crentes à graça e à verdade, que, com as virtudes teologais, são reflexo do rosto de Deus e presença do seu Espírito.

Evangelho: Lucas 4, 38-44

Naquele tempo, Jesus 38deixando a sinagoga, entrou em casa de Simão. A sogra de Simão estava com muita febre, e intercederam junto dele em seu favor. 39Inclinando-se sobre ela, ordenou à febre e esta deixou-a; ela erguendo-se, começou imediatamente a servi-los. 40Ao pôr do sol, todos quantos tinham doentes, com diversas enfermidades, levavam-lhos; e Ele, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. 41Também de muitos saíam demónios, que gritavam e diziam: «Tu és o Filho de Deus!» Mas Ele repreendia-os e não os deixava falar, porque sabiam que Ele era o Messias. 42Ao romper do dia, saiu e retirou-se para um lugar solitário. As multidões procuravam-no e, ao chegarem junto dele, tentavam retê-lo, para que não se afastasse delas. 43Mas Ele disse-lhes: «Tenho de anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado.» 44E pregava nas sinagogas da Judeia.

Notamos, nesta página, dois momentos distintos: a cura da sogra de Simão; as palavras sobre a consciência que Jesus tinha da sua missão evangelizadora (v. 43). O primeiro momento revela-nos que a cura habilita ao serviço. Também nos diz que as curas dos doentes se tornam ocasião de verdadeiras profissões de fé em Cristo, mesmo que elas saíam da boca dos demónios…
Na segunda parte de texto, Lucas faz-se intérprete de dois eventos fundamentais: do facto de que a evangelização seja uma característica essencial do cristianismo e da consciência messiânica de Jesus que explode sobretudo na necessidade que lhe incumbe de anunciar o reino de Deus. Trata-se de uma necessidade providencial, porque está inscrita no projecto salvífico de Deus. Jesus não pode eximir-se a esse preciso dever, até porque qualifica a sua missão: «Para isso fui enviado» (4, 8; cf. também Lc 10, 16).

Meditatio

No começo desta semana, vimos como Jesus resistiu à tendência possessiva dos seus conterrâneos, obrigando-os a aceitar que não eram destinatários privilegiados do seu ministério e dos seus milagres. Quem quiser apoderar-se de Jesus, de modo egoísta, não O recebe, porque a união com Ele só é possível no amor generoso, na abertura do coração. O evangelho de hoje confirma essa orientação. Depois de Nazaré, Jesus dirige-se a Cafarnaúm, e entra em casa de Simão Pedro: «A sogra de Simão estava com muita febre, e intercederam junto dele em seu favor» (v. 38), com grande confiança na sua palavra. «Jesus, inclinando-se sobre ela, ordenou à febre e esta deixou-a» (v. 39). Ao ver o sucedido, «todos quantos tinham doentes, com diversas enfermidades, levavam-lhos» (v. 40). Jesus atendia a todos com grande bondade e, «impondo as mãos a cada um deles, curava-os» (v. 40). A atenção de Jesus dirige-se a cada pessoa, a cada um dos seus discípulos. Por isso, mais tarde, poderá dizer: «Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me» (Jo 10, 14).
É certamente cansativo ocupar-se de cada pessoa, quando são muitas. Jesus fá-lo com serenidade e calma. Fá-lo generosamente. Assim se compreende como, no dia seguinte, ao verem que já não estava ali, o tenham procurado: «As multidões procuravam-no e, ao chegarem junto dele, tentavam retê-lo, para que não se afastasse delas» (v. 42). Jesus tinha suscitado gratidão, estima, admiração. O seu ministério alcançara total sucesso. O mais natural era que Jesus cedesse ao desejo das pessoas e permanecesse junto delas. Mas o Senhor decide partir: «Tenho de anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado» (v. 43). Corre o risco de desiludir as pessoas. Mas sabe que tem uma missão mais ampla, que não veio procurar sucesso pessoal, mas fazer a vontade do Pai, que O mandou à procura das ovelhas tresmalhadas, onde quer que se encontrem.
Uma óptima lição para os cristãos, particularmente para os religiosos e sacerdotes, tantas vezes apegados àqueles lugares e ofícios onde tiverem sucesso, e com tanta dificuldade em obedecer aos seus superiores, que decidiram enviá-los a outras aldeias e cidades, a outras missões. Jesus não se detém a colher louros do seu trabalho. O seu amor não tem limites, procura salvar a todos, vai ao encontro dos próprios inimigos, para propor a reconciliação e a paz. É essa a vontade do Pai em relação a Ele.

Oratio

Obrigado, Pai, por Te teres inclinado sobre as nossas chagas de homens pecadores: a doença, a idade avançada, a opressão do espírito enfraqueceram a human
idade desde o começo, assinalando-a com a vitória do mal, até ao dia em que nos enviaste o teu Filho Jesus, Salvador. Ele, bom samaritano da humanidade, fez-se nosso próximo, e derramou sobre as nossas feridas o vinho purificador e o azeite consolador. Pobre entre os pobres, fez-nos contemplar o teu rosto amoroso, no resplendor da sua luz. Faz-nos, também a nós, bons samaritanos e próximos da humanidade de hoje, para que, pela tua graça, lhe curemos as graves doenças da solidão, da indiferença, do egoísmo, do desespero. Amen.

Contemplatio

Não esqueçamos o poder do nome de Jesus, do qual o conselho da augusta Trindade concebeu o projecto, e que a história do povo de Deus simbolizou pela condução por Josué para a entrada na terra prometida. Os profetas anunciaram-no, os anjos trouxeram-no do céu, os apóstolos publicaram-no por toda a terra, os mártires glorificaram-no pela efusão do seu sangue. Acalmou as tempestades, deteve os incêndios, curou os doentes, expulsou os demónios, ressuscitou os mortos. Alegra o céu e faz tremer o inferno, sustém os fortes, reanima os fracos e inspira os heróis da religião. Estai, portanto, junto de mim, ó meu Salvador, ao longo deste ano e até à hora da minha morte. Apresentai ao vosso Pai celeste o sangue redentor do qual as primeiras gotas foram derramadas pelo vosso Coração de Menino. Invocarei muitas vezes com amor e confiança o vosso belo nome de Jesus. (Leão Dehon, OSP 3, p. 19).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas
e elas conhecem-me» (Jo 10, 14).