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SEXTA-FEIRA

23ª Semana do Tempo comum

Lectio

Primeira leitura: 1 Timóteo 1, 1-2.12-14

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança, 2a Timóteo, verdadeiro filho na fé: graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, Nosso Senhor. 12Dou graças àquele que me confortou, Cristo Jesus Nosso Senhor, por me ter considerado digno de confiança, pondo-me ao seu serviço, 13a mim que antes fora blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, sem ter fé ainda. 14E a graça de Nosso Senhor manifestou-se em mim com superabundância, juntamente com a fé e o amor que está em Cristo Jesus.

O autor desta carta, que se apresenta como «Paulo, apóstolo de Cristo Jesus» (v. 1), sublinha, logo de início, algo de essencial na eclesiologia paulina: os mistérios provêm da vontade de Deus; a igreja não é uma associação democrática, na qual a origem do ministério seja mera delegação da comunidade naquele que o exerce. Pelo contrário, haverá sempre um facto misterioso, proveniente de Deus, que é a última razão da responsabilidade eclesial.
A carta é dirigida a Timóteo, responsável pela comunidade de Éfeso, ao qual o autor da carta dá conselhos e orientações de carácter pastoral. Está particularmente preocupado com as falsas doutrinas que ameaçam a comunidade. Segundo o livro dos Actos, Timóteo foi encontrado por Paulo, em Listra (16, 1-6), acompanhando-o durante cerca de quinze anos, como discípulo e colaborador. É um dos mais importantes “episcopoi” da geração seguinte à dos Apóstolos, e teve de enfrentar os problemas relativos à estabilidade da igreja e à defesa da tradição recebida.
Nesta carta, Paulo, recordando a sua experiência de fé, reafirma que tudo vem de Cristo, que tudo é dom, que tudo é graça. O seu próprio ministério (diakonia) é graça. Pode falar de salvação e misericórdia, porque as experimentou pessoalmente.

Evangelho: Lucas 6, 39-42

Naquele tempo, Jesus disse lhes ainda esta parábola: 39«Um cego pode guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova? 40Não está o discípulo acima do mestre, mas o discípulo bem formado será como o mestre. 41Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não reparas na trave que está na tua própria vista? 42Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro da tua vista’, tu que não vês a trave que está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás para tirar o argueiro da vista do teu irmão.»

O argueiro e a trave: podia ser este o título da página evangélica de hoje. Jesus trata desse tema e procura alertar para o perigo da presunção de que pecavam os fariseus. A parábola não precisa de grandes explicações, pois desmascara uma possível atitude interior de quem deve exercer o ministério de guia dos seus irmãos. Em contraluz, emerge um forte convite de Jesus à humildade. O verdadeiro guia não julga os irmãos, mas submete-se à correcção fraterna.
Do discurso em parábolas, Jesus passa ao discurso prepositivo: «Não está o discípulo acima do mestre» e ao discurso provocatório: «Por que reparas no argueiro … Como podes dizer ao teu irmão… Hipó¬crita!» (vv. 41 ss.). Jesus quer suscitar atitudes de vida comunitária naqueles a quem confia o Evangelho, isto é, a sua proposta de vida nova. A verdadeira espiritualidade cristã verifica-se na prática dos mandamentos e, mais ainda, na adesão total à novidade evangélica. Jesus convida os ouvintes a assumirem as suas responsabilidades, e a não caírem nas ratoeiras em que estavam presos os fariseus.

Meditatio

Paulo tem consciência de ser um “agraciado” de Deus, um que foi arrancado à força do caminho da perdição, um que foi salvo por misericórdia de Deus. A sua vida deu uma grande volta, não pelos seus méritos, mas pelos méritos de Cristo. Por isso, não tem ilusões, não se julga melhor que os outros.
A consciência de que todos fomos salvos por puro amor misericordioso de Deus, não nos permite armar-nos em guias dos outros, ou em pretensos “oftalmologistas” sempre prontos a reparar no argueiro que está na vista dos outros, e a querer retirá-lo. A consciência de que todos fomos gratuitamente salvos por Deus, ajuda-nos a viver como irmãos, a viver animados por recta intenção, a procurar sinceramente a vontade do Senhor. Se assim não, seremos cegos a guiar outros cegos, caindo todos na mesma cova. O nosso guia é, unicamente, Aquele que amorosa e gratuitamente nos salvou. É nele, é na sua palavra que havemos de procurar luz, e não nas nossas limitadas opiniões humanas. É à volta dele que havemos de nos reunir. E, então, «Ele estará no meio de nós» (cf. Mt 18, 20).
Mas Jesus avisa-nos sobre outro perigo muito comum, que é a tendência para criticarmos os outros, sem nos darmos conta dos nossos próprios defeitos: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não reparas na trave que está na tua própria vista?» (v. 41). Na verdade, com frequência, temos o costume de criticar os outros, de ver o que neles não está bem, de ver o mal que há no mundo. É mais raro pôr-nos a considerar os nossos defeitos, pensando que, com eles, nos tornamos pesados para os outros, tornamos difícil o seu caminho e que, a primeira coisa que deveríamos fazer, era olhar para nós mesmos.
Mas, se de facto, olharmos para os nossos próprios defeitos, procurando corrigi-los, então, poderemos ajudar os outros. Hão-de compreender que há em nós um coração realmente fraterno, cheio de verdadeiro amor, e não de orgulho ou de ressentimento.
Também neste capítulo, é útil o conselho do bom Papa João XXIII: «Ver tudo, calar muito, corrigir pouco» e, antes de corrigir, rezar. Peçamos, sobretudo, um coração semelhante ao do Senhor, um coração manso e humilde, um coração movido pelo amor.

Oratio

Senhor, compadece-te deste cego que gostaria de ser guia de outros cegos, deixando-se orientar pelos seus critérios pessoais de avaliação. Dá-me a convicção de que não sou melhor que os outros pelo facto de frequentar mais assiduamente a tua Palavra, ou porque rezo mais vezes ao dia. Infunde no meu coração a firme convicção de que tudo é graça, de que tudo é fruto da tua misericórdia, de que sozinho não posso fazer, de que nada posso orgulhar-me, que não sei o que realmente se passa no coração dos outros. Cura a minha cegueira, Senhor, e sacode o meu torpor de tranquilo consumidor da tua amizade.
Amen.

Contemplatio

S. Pedro (1Pd) compraz-se em explicar-nos: «Nós não fomos /626resgatados da escravatura do pecado pelo preço do ouro nem da prata, mas pelo sangue precioso do Cordeiro imaculado predestinado desde o começo e manifestado nestes últimos tempos para a nossa salvação, se formos fiéis na obediência amorosa para com Deus, na caridade pelo próximo». A nossa alma era como as filhas de Sião cativas, e desoladas sobre as margens do Eufrates em Babilónia. «Levanta-te, Sião, canta Isaías, alegra-te Jerusalém, solta os laços do teu pescoço, filha de Sião, porque o Salvador te resgata gratuitamente» (Is 52). Cantai a vossa gratidão, diz-nos David (Sl 102), porque a misericórdia divina vem até nós com a abundância dos seus dons que não podemos comparar senão à altura do céu acima da terra. Sim, digamos o nosso reconhecimento ao coração eucarístico de Jesus, que deu todo o seu sangue para nos resgatar. (Leão Dehon, OSP 3, pp. 625s.).

Actio

Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra:
«A graça de Nosso Senhor manifestou-se em mim com superabundância» (1 Tm 1, 14).