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Lectio

Primeira leitura: 1 Timóteo 2, 1-8

Caríssimo: recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens, 2pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. 3Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, 4que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. 5Pois, há um só Deus,e um só mediador entre Deus e os homens, um homem: Cristo Jesus, 6que se entregou a si mesmo como resgate por todos. Tal é o testemunho dado para os tempos estabelecidos. 7Foi para isto que fui constituído arauto e apóstolo – digo a verdade, não minto – mestre das nações, na fé e na verdade. 8Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, erguendo as mãos puras, sem ira nem altercação.

Paulo, depois de encorajar Timóteo a «combater o bom combate da fé e da boa consciência» (cf. 1, 18s.), em relação aos heréticos, recomenda-lhe, «antes de tudo», a oração «por todos os homens» (v. 1), particularmente pelos que estão no poder. A salvação é, de facto, oferecida por Deus a todos. Ao rezar pelas autoridades deste mundo, a Igreja recorda aos que detêm o poder que não devem atribuir a si próprios nenhum prestígio ou glória pessoal, pois mais não fazem do que exercer a autoridade como um serviço, cujos limites foram fixados pelo próprio Deus, dentro do quadro do seu projecto salvífico do mundo. A universalidade da oração é, pois, motivada pela vontade salvífica universal de Deus. Mas esta vontade de Deus não é absoluta e predeterminante. Em certo sentido, é “condicionada” pela livre determinação humana, que pode acolher ou recusar o dom de Deus. Por causa deste risco, inerente à liberdade humana, é precisa a oração. Além disso, a oração litúrgica da comunidade cristã, une-a, cria a comunhão, onde, depois, surgem os diversos ministérios.

Evangelho: Lucas 7, 1-10

Naquele tempo, quando acabou de dizer todas as suas palavras ao povo, Jesus entrou em Cafarnaúm. 2Ora um centurião tinha um servo a quem dedicava muita afeição e que estava doente, quase a morrer. 3Ouvindo falar de Jesus, enviou-lhe alguns judeus de relevo para lhe pedir que viesse salvar-lhe o servo. 4Chegados junto de Jesus, suplicaram-lhe insistentemente: «Ele merece que lhe faças isso, 5pois ama o nosso povo e foi ele quem nos construiu a sinagoga.» 6Jesus acompanhou-os. Não estavam já longe da casa, quando o centurião lhe mandou dizer por uns amigos: «Não te incomodes, Senhor, pois não sou digno de que entres debaixo do meu tecto, pelo que 7nem me julguei digno de ir ter contigo. Mas diz uma só palavra e o meu servo será curado. 8Porque também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e soldados sob as minhas ordens, e digo a um: ‘Vai’, e ele vai; e a outro: ‘Vem’, e ele vem; e ao meu servo: ‘Faz isto’, e ele faz.» 9Ouvindo estas palavras, Jesus sentiu admiração por ele e disse à multidão que o seguia: «Digo-vos: nem em Israel encontrei tão grande fé.» 10E, de regresso a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde.

Nesta narrativa, Lucas centra mais a sua atenção na fé, que alcança o milagre, do que no próprio milagre. A figura do centurião pagão assume um papel emblemático.
A fé do centurião compõe-se de humildade e confiança. Essas duas atitudes tornam-no aberto ao dom que está para receber e tornam aberta a comunidade dos discípulos de Jesus, que pode receber e incluir pessoas das mais diversas origens étnicas e sociais. Há um pormenor que suscita a nossa atenção, até pela sua actualidade. Enquanto os anciãos recomendam o centurião a Jesus por alguns méritos que, a seus olhos, tinha adquirido («Ele merece que lhe faças isso, pois ama o nosso povo e foi ele quem nos construiu a sinagoga» (v. 4), o próprio centurião manda dizer a Jesus: «Não te incomodes, Senhor, pois não sou digno de que entres debaixo do meu tecto» (v. 6). Naturalmente, para Jesus são mais importantes estas palavras, que indicam uma grande e sincera humildade, do que as dos anciãos interesseiros.
Lucas, como Mateus, considera este acontecimento um prelúdio da chegada dos pagãos à Igreja. Isso interessa-lhe ainda mais porque ele, e só ele, há-de sentir a necessidade de dedicar a segunda parte da sua obra, os Actos dos Apóstolos, a este grande evento. Vislumbra-se a dimensão universal da salvação trazida por Jesus.

Meditatio

De acordo com as promessas divinas, Jesus foi enviado a pregar a Boa Nova ao povo eleito. Mas o Senhor sabia que, por meio do povo de Israel, Deus queria abençoar todos os povos da terra. O mistério pascal de Cristo tornou possível essa bênção. Mas, episódios como o que hoje escutamos no evangelho, fazem-na prever: o centurião manifesta a sua fé em Jesus e na sua capacidade de lhe curar o servo. Este pagão nem quer causar grande incómodo ao Senhor, pedindo-lhe que vá a sua casa curar o servo. Pede-lhe apenas uma ordem, à distância: «Diz uma só palavra e o meu servo será curado» (v. 7). Esta manifestação de fé mostra que a graça já trabalhava no coração dos pagãos, com bons resultados. De facto, Jesus afirma: «Nem em Israel encontrei tão grande fé» (v. 9).
As exortações de Paulo, que escutamos na primeira leitura, pressupõem e confirmam a abertura universal do amor de Cristo: «façam-se preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens» (v. 1). A comunidade cristã não pode fechar-se em si mesma. Ainda que saibamos que o Espírito também trabalha no coração dos pagãos, e essa convicção possa libertar-nos da ansiedade que outrora pesava na alma de tantos missionários, a Igreja é chamada a ser portadora de graças para todos.
Paulo aconselha os cristãos a rezarem de modo especial pelos governantes: «pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade» (v. 2). Os governantes carregam uma importante e pesada responsabilidade. Se podemos ser exigentes com eles, também devemos rezar para que cumpram com seriedade e honestidade a sua função, e não caiem nas tentações a que estão particularmente sujeitos. Como disse um pensador, «o poder corrompe». O poder absoluto corrompe absolutamente. Em qualquer situação, há sempre o perigo de que, quem detém o poder, abuse dele em seu favor, ou em favor daqueles que os apoiam. E assim se cometem injustiças mais ou menos graves e lesivas dos direitos, liberdades e garantias de todos os cidadãos.
A liturgia da Palavra, também nos ensina a importância da oração litúrgica, a oração
da Igreja «por todos os homens», porque Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (v. 4). A oração litúrgica intercede, onde quer que a Igreja se encontre, junto do Mediador Jesus Cristo, e cura das iras e das contendas, «a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade» (v. 2).
O cristão deve ter este sentido da oração universal, abrir o coração às necessidades do mundo inteiro, não se preocupando apenas com os próprios interesses, com as próprias necessidades, ou as daqueles que lhes são caros. É, sem dúvida bom, rezarmos pelos que nos são ou estão próximos. Mas, para estarmos unidos a Cristo, a nossa oração deve alargar-se a todos os homens.

Oratio

Pai santo, que, em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, remiste a humanidade, dá-nos olhos para descobrirmos o teu amor presente e activo no coração de todos os homens e nas condições tantas vezes pagãs do mundo em que vivemos. Faz-nos capazes de acolher a tua visita, como quer que Te apresentes, e de experimentar e testemunhar a eficácia curativa da tua Palavra.
Curados por essa palavra, queremos ser para Contigo gratos e alegres testemunhas daquele fé que faz «erguer ao céu as mãos puras», para Te louvarmos, darmos graças, e nos oferecermos em sacrifício de suave odor, intercedendo por todos os homens nossos irmãos. Amen.

Contemplatio

A oração é a nossa vida. A nossa alma deve rezar incessantemente; de outro modo, como teríamos nós vida de união, de amor e de imolação que constitui a finalidade do nosso Instituto? Como a pomba, devemos elevar-nos acima da terra pela oração. Como ela, a nossa alma deve amar a pureza, a simplicidade, a doçura. A alma que reza esconde-se, suspira e geme como a pomba. Também ela descansa nas fendas da rocha (cf. Cant 2,14). O nosso lugar de repouso na oração é o Coração de Jesus, são os seus mistérios de amor e de imolação. O nosso “Thesaurus” tem um título muito certo: é um verdadeiro tesouro pela beleza das orações que contém e pelas orientações que dá. Deve ser para nós um autêntico Vade-mécum. Aquele que o leva sempre consigo e segue as suas prescrições bem depressa se tornará santo. As orações vocais feitas em comum devem ser recitadas pausadamente e com devoção. (Leão Dehon, Directório Espiritual, 123).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Façam-se preces, orações, súplicas e acções de graças
por todos os homens» (1 Tm 1, 1).