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Lectio

Primeira leitura: Romanos 6, 19-23

Irmãos: estou a falar em termos humanos, devido à fraqueza da vossa carne. Do mesmo modo que entregastes os vossos membros, como escravos, à impureza e à desordem, para viverdes na desordem, entregai agora também os vossos membros como escravos à justiça, para viverdes em santidade. 20Quando éreis escravos do pecado, éreis livres no que toca à justiça. 21Afinal, que frutos produzíeis então? Coisas de que agora vos envergonhais, porque o resultado disso era a morte. 22Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levamà santificação, e o resultado é a vida eterna. 23É que o salário do pecado é a morte; ao passo que o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, Senhor nosso.

Paulo reflecte, mais uma vez, sobre as consequências da fé e do baptismo na vida dos crentes. Pela fé e pelo baptismo, o crente deixou o passado e chegou ao presente, através do mistério pascal da morte e da vida, que foi de Cristo e agora é dos cristãos. É bom tomar consciência de onde viemos e para onde vamos: viemos da escravidão para a liberdade. Agora, falta continuar o percurso, de acordo com o projecto de Deus, e avançar no caminho que é Cristo. A vida cristã é essa caminhada em Cristo e com Cristo. Mas a vida cristã é também serviço: se antes estávamos ao serviço da impureza e da iniquidade, agora estamos ao serviço da justiça e da santidade. Quanto estávamos sob o jugo do pecado, éramos «livres no que toca à justiça» (v. 20). Agora, que fomos justificados pelo amor de Deus, por meio da fé, já não somos livres no que se refere à justiça, mas tornámo-nos servos da justiça, isto é, servos de Deus. Por isso, há que servi-l´O.

Evangelho: Lucas 12, 49-53

Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: 49«Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! 50Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize! 51Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, Eu vo-lo digo, mas antes a divisão. 52Porque, daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; 53vão dividir-se: o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.»

Vim estabelecer «a divisão» (v. 51). Como é possível? Não foi Jesus que, na última ceia, rezou para que todos tivessem «um só coração e uma só alma»? (cf. Jo 17). Não de trata de uma contradição mas de um aprofundamento. Para abrir o coração e o meio em que vive à paz de Cristo, o discípulo deve dissociar-se de todos quantos, na mente e no coração, pertencem ao mundo que «jaz sob o poder do Maligno» (1 Jo 5, 19). «Não é possível servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24). Jesus usa o termo «mamona» que não significa só o dinheiro, mas todo e qualquer ídolo, anichado na mente e no coração de quem O quer seguir e fazer parte do Reino de Deus, fonte de paz e de amor.

Meditatio

Paulo procura levar os destinatários da sua carta a reflectir sobre a sua condição quando eram escravos do pecado, e sobre aquela em que gora se encontram. Para nós, hoje, a realidade não é tão distinta. Não há um passado de impureza e de desordem absoluto e um hoje de santidade e de justiça. Há, sim, um caminho de conversão em acto para nos tornarmos semelhantes a Deus. Por isso, cada dia havemos de pedir a graça do poder da cruz, havemos de invocar o dom do Espírito Santo. Se verificamos a nossa lentidão no caminho da conversão, dá-nos confiança a certeza de que Deus é paciente e quer unir-nos a Ele de um modo cada vez mais íntimo e profundo, para que possamos saborear a grandeza da liberdade que nos vem de sermos seus. Paradoxalmente, como testemunham os santos, quanto mais somos possuídos por Deus, mais estamos livres de tudo. Isto não é compreensível à razão. Só quem o experimenta e vive o pode reconhecer.
Jesus, no evangelho de hoje, fala do seu desejo ardente de realizar a missão que o Pai Lhe confiou, ainda que saiba muito bem que isso comporta a sua passagem pela cruz. Encontramos estas mesmas disposições naqueles cristãos que alcançaram a verdadeira liberdade, tornando-se voluntariamente escravos de Deus que é Amor.
Peçamos ao Senhor clareza de vistas para sabermos distinguir a verdadeira da falsa liberdade, para servirmos a verdade, ainda que nos seja exigido um alto preço. O autor da carta aos Hebreus convida-nos a correr com perseverança, «tendo os olhos postos em Jesus» (Heb 12, 2). E exorta-nos: «Considerai, pois, aquele que sofreu tal oposição por parte dos pecadores, para que não desfaleçais, perdendo o ânimo. Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado» (Heb 12, 3-4).
A vida cristã, e a vida religiosa, são caminho que havemos de percorrer, de olhos postos em Jesus, lutando contra o pecado, num permanente esforço de conversão. Escrevem as nossas Constituições: «Seguros da indefectível fidelidade de Deus, radicados no amor de Cristo, sabemos que a nossa opção pela vida religiosa, para que se mantenha viva, exige o encontro frequente com o Senhor na oração, a conversão permanente ao Evangelho e a disponibilidade de coração e de atitudes, para acolher o Hoje de Deus» (Cst 144).

Oratio

Senhor Jesus, obrigado porque, graças à tua morte e ressurreição, me teres libertado da antiga condição do pecado, e conduzido à liberdade dos filhos de Deus. Enche-me da tua graça, e dá-me um verdadeiro espírito de oração, para que prossiga o caminho, que me traçaste e marcaste com o teu sangue, num esforço permanente de conversão e de disponibilidade para acolher os sinais da tua presença e as indicações da vontade do Pai. Renova, Senhor, a face da terra; renova a minha vida. Amen.

Contemplatio

É preciso que eu purifique a minha alma pela penitência. «Eis que vem o reino de Deus, dizia S. João, portanto penitência! Penitência! Produzi dignos frutos de penitência». Isto queria dizer: Cristo vai chegar com as suas graças, com as suas misericórdias. Vai organizar o Reino de Deus, a sua Igreja. Mas não pode evidentemente admitir-vos nele se não vos converterdes dos vossos pecados. A sua misericórdia é grande sem dúvida, perdoar-vos-á muito, mas ainda é preciso que lamenteis o passado e que mudeis a vossa vida. Os Judeus e os pagãos de então compreenderam isso. Como sinal da sua mudança de vida, recebiam o baptismo. Eram mergulhados na água como na morte e saíam dela com uma vida nova. O baptismo simbolizava a purificação e a renovação da sua alma. Compreendi s
uficientemente que devo preparar-me cada dia para a vinda do Salvador à minha alma pela graça e pela Eucaristia? Não será que a minha vida decorra na rotina e na tibieza, em vez de se purificar na penitência e de se renovar pela conversão? (Leão Dehon, OSP 3, p. 211).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado» (Heb 12, 3-4).