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Lectio

Primeira leitura: Romanos 8, 1-11

Irmãos: agora não há mais condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus. 2É que a lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte. 3De facto, Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne, 4para que assim a justiça exigida pela Lei possa ser plenamente cumprida em nós, que já não procedemos de acordo com a carne, mas com o Espírito. 5Os que vivem de acordo com a carne aspiram às coisas da carne; mas os que vivem de acordo com o Espírito aspiram às coisas do Espírito. 6De facto, a carne aspira ao que conduz à morte; mas o Espírito aspira ao que dá vida e paz. 7É que a carne aspira à inimizade com Deus, uma vez que não se submete à lei de Deus; aliás nem sequer é capaz disso. 8Os que vivem sob o domínio da carne são incapazes de agradar a Deus. 9Ora vós não estais sob o domínio da carne, mas sob o domínio do Espírito, pressupondo que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não lhe pertence. 10Se Cristo está em vós, o vosso corpo está morto por causa do pecado, mas o Espírito é a vossa vida por causa da justiça. 11E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós.

Depois dos capítulos precedentes, carregados de tons dramáticos, entramos no capítulo oitavo da carta aos Romanos, um dos mais belos textos de todo o Novo Testamento. O homem “carnal”, escravo do egoísmo, que leva ao pecado e à morte, vive agora sob uma nova lei, «a lei do Espírito que dá a vida, em Cristo Jesus» (v. 2). Nesta expressão, segundo os exegetas, ecoam as palavras de Jeremias (31, 33) e de Ezequiel (36, 27; 37, 14). Renovado pelo Espírito de Deus, infundido no seu coração, o homem novo, o crente, pode, não só conhecer, mas também cumprir a vontade de Deus. Depois desta afirmação, o discurso de Paulo prossegue linear e lógico. No centro do seu pensamento está o evento da Incarnação do Verbo: «Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne» (v. 4). O cristão, porque assumiu «a lei do Espírito», e porque o Espírito habita nele, pode viver segundo Espírito, pensar segundo o Espírito, alimentar desejos segundo o Espírito, sente que pertence ao Espírito e vive na esperança de experimentar o poder do Espírito de Deus, que o fará ressuscitar dos mortos e tornará participante da glória de Deus. Leva uma “vida espiritual”, em sentido forte.

Evangelho: Lucas 13, 1-9

Naquele tempo: apareceram alguns a falar-lhe dos galileus, cujo sangue Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. 2Respondeu-lhes:«Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido?
3Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. 4E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.» 6Disse-lhes, também, a seguinte parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou. 7Disse ao encarregado da vinha: ‘Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?’ 8Mas ele respondeu: ‘Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume. 9Se der frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la.’»

Jesus aproveita dois acontecimentos ocorridos em Jerusalém para dar alguns ensinamentos: Pilatos mandou matar alguns Galileus enquanto ofereciam sacrifícios no templo; cerca de 18 pessoas morreram devido à queda da torre de Siloé. Perante tais factos, conhecidos por todos, Jesus aponta a urgência da conversão (vv. 3-5). Caso contrário, é a perdição. Mas também ensina que Deus não é uma espécie de vigilante sempre à coca de qualquer falta da nossa parte para nos castigar. Não podemos, pois, ler as calamidades da vida – nossa ou dos outros – como punições divinas. O tempo da nossa vida é aquele que é. Não sabemos quando irá terminar. Portanto, é sempre tempo de dar frutos de boas obras… enquanto tivermos tempo.
A parábola do dono que procura frutos na figueira plantada na sua vinha, completa o ensinamento sobre a conversão, evidenciando outro aspecto muito importante: a paciência de Deus, a sua imensa misericórdia e vontade de salvação. A figueira é certamente uma alusão a Israel que, afastando-se continuamente de Deus, não dá os frutos esperados (cf. Is 5, 1-7; Jr 8, 13). Mas o adiamento em abatê-la e os cuidados amorosos para ver se dá frutos expressam a mediação de salvação realizada por Jesus, com a sua intercessão junto do Pai. Esta acção de Jesus não é só em favor de Israel, mas de todos nós, hoje.

Meditatio

Como é bom escutar o capítulo oitavo da carta aos Romanos. Ecoam nele palavras que esclarecem o mal que há em nós e que, sobretudo, nos abrem à esperança por causa da estupenda libertação do pecado realizada por meio de Cristo Jesus. Já não estamos sob o domínio do mal, mas sob a senhoria do Espírito. E é nesta condição que havemos de viver. O Espírito de Deus actua em nós. Não podemos andar distraídos da sua presença e da sua acção. O Espírito é em nós uma fonte de paz, uma torrente de alegria, uma luz maravilhosa que nos dá uma nova sensibilidade para a palavra e para os caminhos de Deus. Conforme a promessa de Deus, o Espírito põem em acção uma força irresistível e doce que guia para a verdade total e liberta dos vínculos da “carne”. O caminho de conversão, a que somos chamados, passa por uma docilidade cada vez maior ao Espírito. É o que sugere também o texto do evangelho, onde Jesus convida a reflectirmos sobre alguns acontecimentos dramáticos. Tudo deve levar a haurir do Espírito a seiva boa que nos permita produzir frutos de bem para nós e para os outros. Ninguém pode acolher estes convites por nós. Vamos pois para o mar alto da vida, deixando-nos conduzir pelo sopro do Espírito, r
umo à liberdade e ao amor.
Hoje, sábado, não podemos deixar de lançar um olhar para Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Peçamos-lhe que nos alcance a graça da fidelidade ao Espírito Santo, para que nos conduza, com força e suavidade, para os braços do Pai e para o Coração de Jesus. «O Espírito aspira ao que dá vida e paz», afirma Paulo (v. 8). Sabemos como flui em nós a paz, quando nos deixamos conduzir pelos desejos do Espírito. Que Maria nos alcance uma constante adesão ao Espírito, na simplicidade e na alegria.

Oratio

Ó Jesus, sacerdote misericordioso, que, ao entrar no mundo, Te ofereceste ao Pai, dizendo: "Eis que venho para fazer a tua vontade", reaviva em nós a disposição que animou o teu coração de Filho. À tua obediência de amor, unimos a oferta da nossa obediência. Aceita a nossa vida que desejamos oferecer-Te até ao sacrifício total de nós mesmos. Que o teu Espírito nos torne atentos à tua vontade em todas as circunstâncias da vida, e a tua graça nos estimule à doação fraterna para que venha o teu Reino de amor. Ámen.

Contemplatio

Quando uma alma se abandona à condução do Espírito Santo, ele eleva-a pouco a pouco acima da vida natural e governa-a. No princípio não sabe para onde vai, mas pouco a pouco a luz interior ilumina-a e faz-lhe ver todas as suas acções e o governo de Deus nas suas acções, de modo que ela não tem quase nada a fazer senão deixar que Deus faça nada, e por ela, o que lhe agradar; assim ela avança maravilhosamente. Nós temos uma figura da condução do Espírito Santo na que Deus teve a respeito dos Israelitas ao saírem do Egipto, durante a sua viagem no deserto, para chegarem à terra da promessa. Deu-lhes para os conduzir, durante o dia uma coluna de nuvem, durante a noite uma coluna de fogo. Eles seguiam o movimento desta coluna e detinham-se quando ela parava. Não a ultrapassavam, seguiam-na apenas, e nunca se afastavam dela. É assim que nos devemos comportar a respeito do Espírito Santo. É preciso para isso de muita calma, de recolhimento e de espírito de fé. (Leão Dehon, OSP 2, p. 609s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«O Espírito aspira ao que dá vida e paz» (Rm 8, 8).