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Lectio

Primeira leitura: Romanos 7, 18-25a

Irmãos: eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. 19É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico. 20Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. 21Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. 22Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. 23Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. 24Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte? 25Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso!

A vida cristã tem sempre algo de dramático, como se deduz do texto de Paulo, que escutamos. Embora salvos pela fé, precisamos de continuar a combater para alcançar a salvação. Uma coisa é conhecer a lei de Deus, e outra é observá-la. Também não é suficiente saber que a fé é capaz de nos salvar por um acto de abandono total ao amor misericordioso de Deus. Do mesmo modo, não basta assumir pela fé o mistério pascal de Cristo, que todavia sustenta e anima a vida do verdadeiro discípulo.
Paulo descreve a sua própria experiência de luta para nos ajudar a viver o drama de não fazermos o bem que queremos e de fazermos o mal que não queremos. Se é verdade que fomos libertados da escravidão de Satanás, também é verdade que continuamos expostos à escravidão da carne, do mal, dos nossos desejos inconfessáveis. Por isso, nos sentimos muito identificados com a luta do Apóstolo e com os seus anseios: «Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte?» (v. 24).

Evangelho: Lucas 12, 54-59

Naquele tempo dizia Jesus às multidões: 54«Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: ‘Vem lá a chuva’; e assim sucede. 55E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai haver muito calor’; e assim acontece. 56Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?» 57«Porque não julgais por vós mesmos, o que é justo? 58Por isso, quando fores com o teu adversário ao magistrado, procura resolver o assunto no caminho, não vá ele entregar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59Digo-te que não sairás de lá, antes de pagares até ao último centavo.»

Jesus repreende os seus contemporâneos, que sabem distinguir os sinais meteorológicos, mas não o sinal que Ele mesmo é: o Filho unigénito enviado pelo Pai para salvação de todos. Compreender o tempo que vivemos é compreender as intenções de Deus que, em todo o tempo, sobretudo pelo mistério da Igreja e dos sacramentos, torna actual o mistério de Jesus com toda a sua eficácia salvífica.
Saber fazer previsões do tempo, analisando os dados da meteorologia, implica uma atenção interessada. Se não estivermos realmente interessados e atentos para nos darmos conta da importância do tempo como tempo para exercer a justiça e a caridade, corremos sério risco. Há que reconciliar-se radialmente com aqueles com que estamos em conflito. Caso contrário, podemos cair no remoinho do não-perdão, donde não sairemos indemnes. É como se Jesus apontasse o sinal do tempo por excelência, que é Ele mesmo, como sinal de salvação, mas só para quem se compromete a viver como reconciliado, isto é, na paz, na justiça e na bondade.

Meditatio

Tanto Paulo como Jesus nos alertam para a presença do mal em nós. Jesus chama-nos hipócritas. Paulo fala, de modo incisivo e dramático, do mal com que continua a debater-se dentro de si mesmo. A linha de divisão entre o bem e o mal passa pelo nosso coração. Por isso, a luta contra o mal não se trava fora, mas dentro de nós. Se, por um lado, nos sentimos fascinados e atraídos pelo bem, por outro lado, também sentimos o apelo e a sedução do mal. Paulo, que bem conhece essa luta, chega a exclamar: «Que homem miserável sou eu!» (v. 24). Mas não se limita a contemplar o seu drama. Ergue os olhos para o céu e descortina o olhar amoroso de Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Limitar-nos a contemplar a nossa miséria, seria expor-nos à depressão. O crente dá-se naturalmente conta das suas limitações e do seu pecado com uma agudeza superior à de quem não tem fé. É por isso que os santos sempre se julgaram grandes pecadores. Mas também reconheceram, e reconhecem, que o remédio para a sua situação é Jesus, nossa paz e reconciliação, que veio colocar-se no coração da nossa aventura humana. Assim, mesmo no mais profundo abismo, podemos sentir-nos filhos de Deus. Se o cristão faz a experiência dolorosa da sua condição de pecador, também sabe que essa não é a última palavra sobre a sua condição. Por isso, do seu coração, pode brotar sempre a acção de graças, porque toda a nossa existência é agora eucaristia ao Pai, por meio de Jesus Cristo.
Agradeçamos ao Senhor por estarmos conscientes da nossa incapacidade para fazermos o bem, porque ela nos leva a unir-nos cada vez mais a Ele, nosso Salvador e nossa força. «Cristo faz-nos acreditar que, apesar do pecado, dos fracassos e da injustiça, a redenção é possível, oferecida e já está presente» no mundo (Cst 12).

Oratio

Pai misericordioso, recebe em sacrifício o nosso coração limitado e fraco, o nosso coração dilacerado na luta contra o mal, o nosso coração pecador. Perdoa-nos termos confiado mais em nós do que em Ti, e termos caído tantas vezes. Ajuda-nos a que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, sejamos livres do pecado, e Te façamos oblação do nosso coração contrito. Experimentando a tua solícita misericórdia, queremos fazer da nossa vida uma eucaristia de louvor, de bênção, de acção de graças, de súplica, de oferta. Aceita a nossa disponibilidade e o nosso zelo para colaborarmos no regresso de todos os teus filhos pródigos. Amen.

Contemplatio

Nosso Senhor cumula o convertido de carícias. Enche o seu coração com os mais doces sentimentos de alegria para o adoçar da amargura da penitência. Reserva a este pobre coração partido pelo arrependimento o festim delicioso das suas consolações. Longe de lhe reprovar o seu passado, mostra-se com ele cheio de doces delicadezas, porque já não é um pecador, mas um filho ternamente amado. Esta conversão alegra o Coração de Jesus, e se o filho re
encontrado continua a ser generoso, se é sobretudo amoroso, este regresso pode ser o ponto de partida não somente de uma vida correcta e virtuosa, mas de uma santidade deslumbrante. Mas para isso é preciso sempre que Nosso Senhor encontre no coração do convertido um grande impulso de generosidade. Consideremos o convertido da parábola. Logo que reconhecida a sua falta, o seu coração contrito e humilhado experimentará o sentimento profundo da sua indignidade. A acção segue imediatamente a resolução. «Levantar-me-ei, diz, e irei ter com o meu pai», e não podendo conter-se, levanta-se e vai exprimir ao seu pai a sua indignidade e pedir um lugar de simples criado. Esta generosidade, é preciso tê-la sempre, de outro modo a pessoa arrasta-se primeiro para a tibieza e depois cai ainda mais baixo. Meditemos também no acolhimento feito à generosidade do arrependimento: o pai não deixa ao filho senão o tempo para confessar a sua falta, depois aperta-o ao coração, perdoa-lhe e cumula-o com os seus dons. Que tocante e encorajadora parábola! (Leão Dehon, OSP 4, p. 124s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso!» (Rm 7, 25).