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Lectio

Primeira leitura: Neemias

No mês de Nisan, no vigésimo ano do rei Artaxerxes, como o vinho estivesse diante do rei, tomei-o e ofereci-lho. Ora, jamais eu estivera triste na sua presença. 2O rei disse-me: «Porque tens o semblante tão sombrio? Não estás doente. Portanto, isso só pode ser tristeza do coração.» Eu fiquei muito conturbado, 3e respondi ao rei: «Viva o rei para sempre! Como não hei-de estar triste quando a cidade onde se encontram os túmulos dos meus pais está em ruínas, e as suas portas consumidas pelo fogo?» 4E o rei disse-me: «Que queres?» Então, fiz uma oração ao Deus do céu 5e disse ao rei: «Se aprouver ao rei, e se o teu servo achar graça diante de ti, deixa-me ir ao país de Judá, à cidade onde se encontram os túmulos dos meus pais, a fim de a reconstruir.» 6O rei, junto de quem a rainha se sentara, perguntou-me: «Quanto tempo durará essa viagem? Quando será o regresso?» Aprouve ao rei deixar-me partir, e eu indiquei-lhe a data do regresso. 7Prossegui: «Se o rei achar bem, dêem-me cartas para os governadores da outra margem do rio, de modo que me deixem passar para Judá; 8e também outra carta para Asaf, o intendente da floresta real, a fim de que me forneça madeira para construir as portas da cidadela do templo, para as muralhas da cidade e para a casa que eu habitar.» O rei concordou com o meu pedido porque me favorecia a bondosa mão de Deus.

Neemias, que detém um alto cargo na corte persa, e intervém junto do rei em favor do seu povo, lembra José no Egipto, Daniel em Babilónia, Marduqueu, Ester e o próprio Esdras na Pérsia.
Esdras dedicou-se sobretudo à reconstrução do templo; Neemias, à reconstrução da cidade. De qualquer modo, são os artífices da reconstrução pós-exílica. Mas a cronologia e a relação entre os dois levanta diversos problemas. Actualmente a disposição dos livros é Esdras-Neemias. Mas historiadores modernos pensam que a reconstrução das muralhas da cidade e toda a actividade profana e material de Neemias deve ter precedido a reforma religiosa de Esdras. Provavelmente foi o Cronista, levita do templo, que inverteu a ordem dos livros e colocou Esdras primeiro, a fim de acentuar a preeminência do sacerdócio e da vida religiosa da comunidade.
Se lermos os primeiros seis capítulos de Neemias, ficaremos com melhor compreensão da sua audácia, coragem e fortaleza.
A memória de Neemias, narrada em primeira pessoa, acaba por conduzir à presença protectora e providente de Deus, cuja mão guia os protagonistas da reconstrução do povo (v. 8).

Evangelho: Lucas 9, 57-62

Naquele tempo, 57Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que fores.» 58Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» 59E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» 60Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» 61Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» 62Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.»

Como vimos ontem, depois do ministério na Galileia, Jesus tomou a direcção de Jerusalém. Não se trata só de mudança de caminho em sentido topográfico, mas também em sentido teológico e místico. Este novo caminho culminará na morte ressurreição de Jesus. É uma perspectiva paradigmática também para os discípulos. A vida cristã passa necessariamente por um encontro com Cristo no Calvário. Não basta contemplar a glória de Cristo; é preciso fixar o nosso olhar também na cruz, onde Cristo atingiu perfeição e chegou à glória (cf. Heb 5, 8s.)
Os diálogos referidos no evangelho dizem-nos que, além dos Doze, havia outros que queriam seguir Jesus, ainda que não soubessem claramente o que isso significava. As exigências do seguimento de Cristo só se tornaram claras depois da Páscoa. Lucas não nos diz quem são os três interlocutores. Mateus diz-nos que um era um escriba e outro, um discípulo (8, 19.21). Em Lucas, os três retraem-se atemorizados pela “nudez” exigida por Jesus a quem O quer seguir. O primeiro apresentou-se por sua iniciativa. Jesus mostra-lhe o esvaziamento que segui-l´O significa: «o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (v. 58). O segundo já é discípulo, como nos informa Mateus. Jesus ordena-lhe que O siga. Mas ele pede licença para ir enterrar o pai. Jesus responde-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos» (v. 60). Para o Senhor, está morto tudo o que não seja o Deus vivo (cf. Jo 14, 6). O terceiro fez um programa que apresenta a Jesus: «Eu vou seguir‑te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família» (v. 61). Mas Jesus diz-lhe: «Quem olha para trás, de­pois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus» (v. 62).
Não sabemos como acabaram estes episódios. O evangelho apenas refere o que Jesus oferece a quem o segue: o caminho da cruz. É preciso coragem!

Meditatio

A primeira leitura pode levar-nos, mais uma vez, à meditação sobre o dever de cada crente em colaborar na edificação do Povo de Deus e no fortalecimento da sua caminhada na fé. Como discípulos do Senhor, não podemos deixar de sentir uma verdadeira paixão pela sua comunidade, a Igreja.
Mas a primeira leitura e o evangelho também nos podem levar a outra reflexão, sempre importante. As exigências de Jesus, no evangelho, são radicais: «”Segue-me”» … Deixa que os mortos sepultem os seus mortos…Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus». Na primeira leitura, a piedade filial é expressa de modo comovente: Neemias está triste porque a cidade onde estão os túmulos dos seus pais está em ruínas e quer reconstruí-la para que guarde dignamente esses túmulos. A presença de Jesus no meio de nós realiza grandes transformações na nossa vida. Agora, como lemos na Segunda Carta aos Coríntios, estamos no tempo em que «os que vivem, não devem viver mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. De agora em diante, não conhecemos ninguém à maneira humana… Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 15ss.). O desapego que Jesus pede a quem O segue tem em vista esta vida nova, a nova criação que Ele realizou na sua morte e ressurreição. Agora vivemos em Deus, em Cristo Jesus. «Na nossa maneira de ser e de agir, – diz o n. 38 das nossas Consti
tuições – pela participação na construção da cidade terrena e na edificação do Corpo de Cristo, devemos testemunhar eficazmente que é o Reino de Deus e a sua justiça que se devem procurar antes de tudo e acima de tudo (cf. Mt 6,33)». Por isso, o nosso estilo de vida deve ser desapegado de tudo e de todos, sóbrio e simples, denso de fé, e compreendido na caridade. De outro modo, nem ele nem a nossa pregação serão credíveis nem representarão a «Igreja dos pobres».
Peçamos a graça de vivermos como ressuscitados na comunidade dos homens novos, que é a Igreja, contribuindo com a nossa vida desapegada e sóbria, e com nossa dedicação generosa, para a edificação da mesma.

Oratio

Senhor Jesus, que me chamaste à comunidade dos homens novos, nascidos do teu Lado aberto na cruz, infunde em mim o teu Espírito, que me torne membro vivo da tua Igreja. Que eu saiba seguir-te no caminho do desapego e da doação total, servindo o Reino, e servindo cada um dos irmãos e irmãs. Que eu saiba sempre reconhecer-te como Senhor da minha vida, e não me distraia de Ti com outras preocupações ou trabalhos. Que em todas as circunstâncias eu saiba contemplar-te ressuscitado e glorioso, ou mergulhado nos sofrimentos da tua paixão e morte. Amen.

Contemplatio

Preparai o caminho do Senhor. Há nas vossas almas perturbações e irregularidades, nada de igual, de limpo e de correcto, como era necessário que estivesse para um caminho real. Abaixai as elevações, que marcam o orgulho e a vaidade; aplanai estas partes baixas, que marcam a lassidão, a sensualidade, a avareza, a tibieza; endireitai estes caminhos tortuosos, que são as vias da hipocrisia e da inconstância; igualai os caminhos irregulares, que marcam os defeitos de carácter, a impaciência, a dureza, o mau humor. Preparai para o Salvador um caminho digno dele, onde ele avançará com prazer distribuindo as suas bênçãos. Assim falava S. João Baptista. E os seus ouvintes questionavam-no. Que havemos de fazer? Diziam de todas as partes na multidão. Ele respondia: Produzi dignos frutos de penitência, confessai os vossos pecados e mudai de vida. Que é preciso fazer, perguntavam alguns publicanos ou cobradores de impostos. Dizia-lhes: Não exijais nada para além do que vos foi prescrito. Que havemos de fazer? – perguntavam os soldados. Disse-lhes: Abstende-vos da violência e de toda a delação e contentai-vos com o vosso soldo. Acontecia, de facto, muito frequentemente que soldados denunciavam inocentes, como culpados de rebelião e de outros crimes, a fim de se apoderarem dos seus bens ou de receberem um salário vergonhoso. Em resumo, S. João recomenda a todos o cumprimento do dever de estado. É também cumprindo todos os deveres do meu estado e da minha vocação especial de amigo do Sagrado Coração que hei-de preparar os caminhos para o bom Mestre. Sei o que ele espera de mim, mas não o dou sempre. Pede de mim um coração puro e amoroso, uma grande fidelidade à minha regra de vida, com o hábito do recolhimento, da oração e da vida interior. Nestas condições, virá de boamente à minha alma e aí derramará as graças do seu divino Coração. (Leão Dehon, OSP 3, p. 210s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Se alguém está em Cristo, é uma nova criação» (2 Cor 5, 17)