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Lectio

Primeira leitura: Romanos 3, 21-30a

Irmãos: foi sem a Lei que se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas: 22a justiça que vem para todos os crentes, mediante a fé em Jesus Cristo. É que não há diferença alguma: 23todos pecaram e estão privados da glória de Deus. 24Sem o merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus. 25Deus ofereceu-o para, nele, pelo seu sangue, se realizar a expiação que actua mediante a fé; foi assim que ele mostrou a sua justiça, ao perdoar os pecados cometidos outrora, 26no tempo da divina paciência. Deus mostra assim a sua justiça no tempo presente, porque Ele é justo e justifica quem tem fé em Jesus. 27Onde está, pois, o motivo para alguém se gloriar? Foi excluído! Por qual lei? Pela das obras? De modo nenhum! Mas pela lei da fé. 28Pois estamos convencidos de que é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da lei. 29Será Deus apenas Deus dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, Ele é também Deus dos gentios, 30uma vez que há um só Deus.

Depois de descrever a situação religiosa do mundo pagão, Paulo volta-se para o mundo religioso judaico. O Povo escolhido recebera a Lei como dom capaz de revelar o rosto e o coração de Deus. Mas a Lei mosaica também acabou por revelar que todos os homens são pecadores. Mas a realidade do pecado não impede a realização do projecto de Deus. Pelo contrário: diante do pecado, Deus sente-se como que provocado a reafirmar o seu projecto de salvação em favor de todos. Assim, na plenitude dos tempos enviou o seu Filho Jesus como mediador da nova Aliança, como ponte entre Deus e os homens, como Redentor de todos. Jesus está, verdadeiramente, no centro da história da salvação, do anseio religiosos de todos os povos, da história de cada pessoa. Paulo procura ilustrar esta verdade com alguns aspectos pessoais, que permanecerão ligados à reflexão teológica. Mas é a fé, e só a fé, que coloca Jesus no centro. É por isso que, segundo o ensino de Paulo, a fé em Jesus, que é a nova lei, enxerta directamente na justiça de Deus, alcançando-nos a salvação. É verdade que «todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (v. 23), mas é ainda mais verdade que «todos são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus» (v. 24).

Evangelho: Lucas 11, 47-53

Naquele tempo, disse o Senhor aos doutores da lei: Ai de vós, que edificais os túmulos dos profetas, quando os vossos pais é que os mataram! 48Assim, dais testemunho e aprovação aos actos dos vossos pais, porque eles mataram-nos e vós edificais-lhes sepulcros. 49Por isso mesmo é que a Sabedoria de Deus disse: ‘Hei-de enviar-lhes profetas e apóstolos, a alguns dos quais darão a morte e a outros perseguirão, 50a fim de que se peça contas a esta geração do sangue de todos os profetas, derramado desde a criação do mundo, 51desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o santuário.’ Sim, Eu vo-lo digo, serão pedidas contas a esta geração. 52Ai de vós, doutores da Lei, porque vos apoderastes da chave da ciência: vós próprios não entrastes e impedistes a entrada àqueles que queriam entrar!» 53Quando saiu dali, os doutores da Lei e os fariseus começaram a pressioná-lo fortemente com perguntas e a fazê-lo falar sobre muitos assuntos, armando-lhe ciladas e procurando apanhar-lhe alguma palavra para o acusarem.

Jesus, com ironia, desmascara a falsidade dos doutores da lei. Dizem venerar os profetas, mas não acolhem os apelos de Deus, tal como os seus pais. Por isso não são melhores do que eles. Os profetas foram recusados e mortos porque eram incómodos. O mesmo sucede, agora, com Jesus, Palavra definitiva do Pai. Os “sábios”, construindo sepulcros aos profetas, tornam-se cúmplices daqueles que os mataram, porque não acolhem as suas mensagens. O Calvário irá confirmar esta análise de Jesus, apoiada pela sentença de juízo profético (vv. 49-51) que lê a história de Israel como uma história de obstinação que foi produzindo vítimas «desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias».
Notemos como a culpa evocada se limita ao Antigo Testamento: Lucas parece dar a entender que Deus não pedirá contas do sangue do seu Filho. De facto, «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). Todavia serão pedidas contas do sangue de todos os profetas a esta geração porque, «quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus» (Jo 3, 18).
Jesus verbera fortemente a arrogância intelectual e religiosa dos doutores da lei que, embora dispondo dos instrumentos necessários, não seguem nem reconhecem o caminho que leva a Deus indicado pela Lei e pelos Profetas. Por ainda: tornaram-no inacessível ao povo retirando aos preceitos e normas o seu verdadeiro significado.

Meditatio

Paulo continua a reflectir sobre a condição humana. Infelizmente, nós, homens do século XXI, não nos espantamos com o quadro pintado em tons escuros pelo Apóstolo. Estamos demasiado habituados a ver esse mal entrar-nos pela casa dentro através da televisão e de outros meios de comunicação social, e até a verificá-lo nas nossas próprias famílias, no nosso bairro, na nossa terra… No começo do novo milénio, quando todos nos julgamos evoluídos, cultos e civilizados, assistimos a formas de crueldade e violência impensáveis há apenas algumas décadas… Por isso, não temos dificuldade em repetir como Paulo: «todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Rm 3, 23). E todos havemos também de admitir que precisamos da misericórdia de Deus, sem a qual não conseguimos tornar-nos justos e agradar a Deus. É por isso que, no segundo capítulo da carta aos Romanos, Paulo se dirige a todos aqueles que farisaicamente se julgam justos, e pensam não precisar da misericórdia de Deus.
O mesmo faz Jesus, no evangelho. Ao dirigir-se aos escribas e fariseus, arranca-lhes a máscara com que tentam disfarçar as injustiças que cometem. As mesinhas humanas podem iludir-nos. Mas o mal reaparece continuamente, cada vez mais duro e violento. Só Deus pode curá-lo definitivamente. E fê-lo em Jesus Cristo. Paulo lembra que Deus usou o seu Filho como instrumento de expiação, expondo-O na cruz. Poderia ter-nos justificado de outro modo. Mas o caminho que escolheu, escândalo para uns e loucura para outros, foi o do amor até à consumação total, até ao ponto de receber em Si todos os golpes da nossa inaudita violência. A imensidade do dom faz-nos compreender a malícia do pecado. Não conseguimos avaliar totalmente a grande do amor e o dom de Deus, nem a gra
vidade do nosso pecado. Mas a mais simples ideia sobre esse amor, e sobre a gravidade do nosso pecado, já é suficiente para abrirmos o coração à gratidão, à acção de graças. Vemos, com efeito, como o homem não pode salvar a si mesmo, e como só a fé em Jesus Cristo, Salvador, o salva efectivamente. Em Cristo, nós os injustos, tornamo-nos justos.
A comunidade religiosa, como a comunidade cristã, há-de ser uma escola de amor, onde todos progridam «alegres no caminho do amor» (LG 43). Esta expressão, recebida do Concílio, realça como, na comunidade, as pessoas devam viver um amor semelhante ao de Cristo, que, para nos salvar, se entregou por nós, até à morte e morte de cruz. Há que aprender esse amor na escuta da Palavra, na contemplação dos Mistérios de Cristo, na oração, e na prática, por vezes difícil, do amor aos irmãos. Então a circularidade do amor torna-se perfeita: o amor vem de Deus e, por meio do amor aos irmãos, regressa a Deus, como escreve S. João: «Caríssimos, se Deus nos amou, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Deus permanece em nós e o Seu amor é perfeito em nós» (1 Jo 4, 11-12). Sem o amor fraterno recíproco, o amor de Deus não é perfeito: «Que, com efeito, não ama o irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê. Este é o mandamento que recebemos d´Ele: quem ama a Deus, ama também o seu irmão» (1 Jo 4, 20-21).

Oratio

Pai santo, infunde em mim o Espírito do teu Filho Jesus, para que eu possa viver segundo o Espírito, e não segundo a carne. A fé não conhece as obras da infidelidade, nem a infidelidade conhece as da fé. Todavia, também o que fazemos segundo a carne se torna obra do Espírito, quando as fazemos em Jesus.
Faz-me pedra viva do teu templo, erguida pela cruz de Cristo, e por meio do cabo que é o Espírito Santo. Que a fé me erga ao alto e que a caridade me conduza a Ti. Amen.

Contemplatio

Eis o Redentor, o Salvador! «Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, aí crucificaram Jesus com os dois ladrões, um à sua direita e o outro à sua esquerda. O povo olhava, e com os príncipes zombava dele dizendo: Salvou os outros, que se salve agora a si mesmo, se é o Cristo, o eleito de Deus, como disse. Também os soldados o insultavam e apresentavam-lhe vinagre dizendo-lhe: Se és o rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo!» – Não, Senhor, não quereis salvar a vossa vida, quereis ao contrário sacrificá-la para salvar a minha alma. A vossa cruz é a minha salvação. As vossas mãos e os vossos pés perfurados expiam todas as minhas acções culpáveis. O vosso Coração aberto e dilacerado paga o resgate de todos os meus afectos desregrados. Bebeis o fel e o vinagre para reparar a minha sensualidade. Sofreis as humilhações mais cruéis para apagar o meu orgulho. As vossas dores ultrapassam todas as que a terra jamais viu. Pode aplicar-se à letra a vós a lamentação de Jerusalém, formulada por Jeremias: «Ó vos todos que passais, considerai e vede se há dor semelhante à minha, porque o Senhor, no dia da sua cólera, tratou-me como uma vinha que vandalizaram e onde nada deixaram…» (Jr Lm 1, 12). Sim, Senhor, fostes espezinhado como o bago da vinha e o sangue das vossas veias correu sobre o solo. A vossa dor não tem igual senão o vosso amor. Eis, portanto, como vistes o pecado e o quisestes fazer para o expiar! Ó Senhor, como sou culpado por pecar tão facilmente e por expiar tão pouco as minhas faltas! Tomai, portanto, todo o meu coração e não mais o deixeis afastar-se de vós! (Leão Dehon, OSP 4, p. 386s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje esta palavra:
«Todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Rm 3, 23)